LIVRO DO LALAU FANADEIRO


Meu grande sonho sempre foi o de escrever um livro. Porém esta era uma missão para mim quase impossível, pois deparava-me sempre com o obstáculo do apedeutismo de que, confesso, infelizmente continuo vítima.

Além do mais, haveria ainda e de igual forma, uma outra dificuldade, a da carência de meios financeiros para custearem as despesas editoriais, em razão de que, depois de escritos, os meus causos jamais teriam como se verem publicados, entrave este que agora - para minha felicidade- vejo contornado graças ao advento desse grande recurso de mídia chamado "Web".

Contudo, confesso que continuo fraco nas letras mas espero que em nada possa afetar essa condição de minha particular carência gramatical, vernacular ou ortográfica, que já não me assusta tanto, agora que descobri a capacidade de digitar ( muito melhor que a de rabiscar), que me facilita tanto no ato de expor todo tipo de ideia que me vem aos borbotões, ao ritmo e ao compasso dos dedos que vou deslizando sobre as teclas do meu computador.

E Isto, para mim, vejo como se fosse música - uma outra terapia a que me recorro de forma lúdica, pois agora posso também "compor e executar" nesse instrumento
que nunca antes nesse país (como assim diria um outro apedeuta, muito mais importante e mais famoso) pude eu adquirir para os meus enlevos.

Portanto será este BLOG o meu providencial recurso para dar forma a meu livro tão sonhado, o qual, mesmo se não for prestigiado por mais de um único leitor (além de mim mesmo), ainda que assim se apresente neste formato digital, para mim já será o bastante para apaziguar-me no enorme desejo de botar para fora tudo o que carrego dentro de mim, desde aqueles breves e distantes tempos em que, nas aulas da saudosa mestra Dona Maria Lopes, eu sonhava dar vida e voz a meus personagens, naqueles únicos bancos escolares que pude frequentar, dos quais guardo as mais ternas recordações e que me trazem tanta saudade, lá do meu querido Grupo Escolar Coronel José Bento.

Não tenho pretensões literárias, nem espero sucesso editoral, mas tenho agora os meios necessários para a vazão daqueles meus ímpetos de contador de "causos" os quais passo a apresentar sem qualquer planejamento ou ordem cronológica (ou em capítulos como seria normal ocorrer em um desses livros concebidos dentro dos tradicionais padrões editoriais).

Sendo assim, irei publicando páginas, diariamente, simplesmente registrando os fatos que forem surgindo na medida em que puder formatá-los de maneira a ser minimamente entendidos pelo leitor eventual, a partir de tudo aquilo já registrado em minha memória.

E será desta forma que espero, ao longo do tempo que me resta, ir deixando consignados, neste espaço, os contos que produzi na companhia alegre dos meus compadres e comadres, através dos intermináveis caminhos espinhosos, empoeirados, íngremes e tortuosos por onde andávamos em busca do nosso sustento, de nossas convivências, de nossas amizades, contando a doce alegria de nossa vida fanadeira, com a qual aprendemos a carregar as esperanças e ilusoes pelos destinos traçados neste chão da simplicidade, do companheirismo, da solidariedade, da amizade e de tudo que for em direção do nosso Bom Deus, justo e maravilhoso que permite a sobrevivência de todos que nele crêem e até mesmo daqueles que o rejeitam.


Agradeço-lhes, na humilde expectativa do acolhimento e também pelas críticas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ZÍNGARAS FANADEIRAS





ZÍNGARAS

E

OUTRAS
ESTÓRIAS DA VILA DO FANADO








- I –


ZÍNGARAS
Os circos mambembes, os que seguiam sem rumo certo e itinerário definido pelos caminhos do mundo, eram como os vira-latas abandonados farejando restos de feira: iam deixando para trás as cidades grandes, passavam pelas médias até chegarem às pequenas. 

E também as pequenas e falidas companhias circenses, nesse mesmo "batido  das latas"  iam sugando os últimos tostões dos beócios até se esbarrarem nas piores e mais distantes vilas de fim de linha, lá nos confins do Sertão. 

E era também assim o que acontecia com a cidade de Minas Novas, fincada lá nas grimpas do Jequitinhonha, a antiga Vila de São Pedro do Fanado que foi elevada à condição de Vila em 02 de outubro de 1730, a partir do Arraial das Lavras Novas de Nossa Senhora do Bonsucesso do Arassuaí, ajuntamento minerador que já existia desde o longínquo ano de 1715, mas que foi oficialmente fundado pelo bandeirante Sebastião Leme do Prado nos idos de 1727.


Descrevendo sua terra, dizia o velho Benedicto Nogueira, um dos poucos descendentes da Dona Sinhazinha (talvez o único filho que lhe herdara os dons) que a sua cidade natal era igual ao remanso do Fanado após as primeiras enchentes, em cuja correnteza vinham mais ciscos, folhas mortas e gravetos, muito mais que água com aquela correnteza de imensa sujeira que ficava ali no poço do cisqueiro rodopiando sem sair do lugar e ali ia ficando indefinidamente, quase que para sempre.


Essa cidade era o fim da linha até para os circos mambembes, a exemplo daquele último chegado, o ”Internacional Circo da Gostusura”, uma companhia de pouco mais de uma dezena de esfarrapados, inclusive os mata-cachorros, todos que se apresentavam como artistas debaixo de uma lona mais furada que a própria tábua de pirulitos na qual a filha mais nova do palhaço vendia esse caramelo tradicional, durante o dia, pelas ruas da cidade.

E olhe que aquele circo, pelo jeito de sua “troupe”, parecia ter sido algum dia até que considerável, se se levasse em conta a qualidade do palhaço que era bem engraçado, o João Gouvêa que era um cantor sofrível, o mágico Mizac que enganava inteligentemente bem com seus truques ensaiados, o músico Roberto Braga que trinava com maestria sua clarinete, sem se falar nas vedetes Elza Miranda, Marinalva, Flor de Liz, Dinah e a própria dona Petra, que dentro de suas minúsculas sedas, rendas e paetês, exibiam suas artísticas pelancas, estrias e sinuosidades com a manimolência e o profissionalismo de quem certamente conhecia melhores picadeiros.

O circo da Gostusura chegou e na pequenina cidade foi ficando.

Como o público já se mostrava enfarado, depois de vários meses de espetáculos repetidos em que já se apresentavam monótonos, alguns daqueles artistas abandonaram, gradativamente,  o antigo emprego e migraram para novas atividades e ocupações. 

O velho palhaço e sua esposa, Dona Petra, afeiçoaram-se de vez à cidade, pois "a água do Fanado fizera-lhes muito bem, naquele efeito de que é famoso: bebeu, não sobe mais de volta às origens, pelo nosso morro da Contagem, aqueles que aqui foram acolhidos pela hospitaleira população.

Ao que parece, porém, a alguns integrantes o mesmo efeito não se verificou e aqueles mais profissionais se arribaram, como se houvesse bebido da água do Boncesso e esta, que nem mais existe, naquele córrego que hoje está seco, naquele período já havia perdido essas qualidades mineirais que também eram suas características milagrosas, o que se deu por força da exploração predatória dos gananciosos garimpeiros em busca do ouro, o que ocorria desde a grande estiagem dos anos 30.

Mas o casal mambembe tinha várias filhas, além das vedetes veteranas, todas elas que eram empenhadas no trabalho de “patners” e de trapezistas, no que faziam com arte, primor e competência. Entretanto, na medida em que foram ficando no lugar, logo, logo todas, inclusive a matrona, já estavam enrabichadas com novos amores e senhores, cada uma em seu sítio particular.

O palhaço, acomodando-se à situação e sem vislumbrar outra alternativa, fazia vista grossa a esta circunstância e até achava isto muito bom, pois a sua gente estava se arranjando e, assim de chamego com os principais figurões do lugar, contentava ver uma delas com o prefeito, a outra com o delegado, a mais velha com o padre, a mais nova com o escrivão, a do meio com o sargento e a sobrinha com o sacristão.

Nessas alturas o velho palhaço daGostusura, por força do comodismo e pelo desuso de suas peças circenses, preferira não se incomodar com os boatos que se espalhavam e, por não não mais precisar daquelas quinquilharias e trambolhos, ia se desfazendo das cordas de sustentação, do mastro principal, das cercas, das ferragens e das tábuas da arquibancada, restando-lhe do velho circo apenas a lona que havia restado daquela que um dia teria sido uma imensa tenda. E não lhe restando outro bem, senão aquele, com ele se tornara, também por força das circunstâncias, num bom alfaiate  que agora costurava lindos gibões com o surrado pano que um dia foi verde, utensílios que eram muito requisitados pelos sertanejos da região e que lhe eram encomendados pelos vaqueiros e campeiros que lá no acampamento, a este tempo já transformado na sua improvisada oficina, iam ali comprar muito mais interessados em verem as ex-vedetes do que para adquirirem a peça que  se vendia mas que acabavam comprando-as a troco dos “olhos da cara”, através da barganha de sua última vaca de leite ou do seu único animal de montaria.

O ex-palhaço em pouco tempo se tornara bem realizado comerciante: e nesta nova ocupação de  negócio recebia dinheiro, mercadorias, semoventesjeep, móveis antigos, arreios, tachos de cobre, alambiques, carro de boi, pilão, mantimentos, sanfona, viola, violão, papagaio, bode, cabra, jumento, cavalo, vaca leiteira, saco de milho, carga de rapadura, tulha de farinha e, quando não havia outros bens para lastrear a catira, até a casa de morada  e o terreno da roça passaram a ser aceitos em pagamento, tamanha era a boa aceitação dos artigos ofertados.

O danado, de tão bom empresário que se revelava,  que já planejava buscar reforço de mercadoria nova, trazendo-as de Montes Claros, lá aonde tinha deixado a sua mãe, já idosa, as tias e as primas, estas já bem maduras mas que poderiam servir para alguma coisa de útil, mesmo que fosse para os trabalhos domésticos, liberando as demais para a produtiva indústria que atualmente era o seu labor.

A expansão desta atividade, que antes era restrita às rameiras da  Rua da Barra l.040, começou a preocupar aos mais sensatos moradores do lugar, principalmente depois da visita pastoral daquele ano, quando o bispo diocesano verificou a incrível baixa que se registrava, cada vez mais, no número das confissões e comunhões. 

Observou cioso, aquela autoridade eclesiástica, também o fato de que, nas igrejas, a freqüência maior era somente de mulheres da zona rural e de uma ou outra das moças casadoiras, todas se queixando do surto de infidelidade que, de repentemente, passou acometer-se sobre a população masculina daquela freguesia..

E, a respeito deste fato, o rigoroso pastor de almas, vendo que até os seus subordinados estavam envolvidos naquele furdunço, não teve outro recurso: Mandou que se removesse o velho titular da paróquia, junto de seu sacristão e quejandos, para a freguesia mais distante da diocese e ameaçou de excomunhão os fiéis incautos da quela vetusta Freguesia de São Pedro do Fanado, determinando a vinda de um novo padre.

E foi assim que, no dia da chegada do novo vigário, um sacerdote recém ordenado lá na Itália, um moço bravo, bonito e forte como um touro, mas que queria muito mostrar os seus bons serviços sacerdotais e fazer bonito na presença do superior hierárquico, determinação que se revelou no seu enérgico sermão de estreia, pois assim lhe fora recomendado, tendo ele, em sua homilia de novo pároco, feito aquela dura preleção aos presentes – mesmo numa catilinária vazada no mais autêntico do seu português macarrônico – ameaçando aos prevaricadores com as consequências de seus atos, revelando-lhes o que lhes poderia acontecer se não tomassem tento e se não procurassem se redimir, comparecendo piedosamente ao confessionário e aos cultos divinos, religiosamente, a partir daquela data.

Estava, desta forma, instalada uma nova ordem entre os fanadeiros. 

O prefeito, atolado até ao pescoço naquela chafurdância, vendo-se ameaçada a sua ssinecura e diante também do perigo que corria frente sua esposa, a qual - diga-se de passagem -  era uma santa mulher, uma daquelas carolas mais assíduas, que exercia forte influência nas vetustas madames e nos eleitores locais, que tão logo descobrisse a oficialidade da tramóia, é bem certo – disto sabia ele -  que ela não o perdoaria mais nunca e que ele próprio, em razão de suas traquinagens,  mais nunca haveria de conseguir eleger-se nem juiz de paz e nem mesmo vereador, pelo que, seja pelo sim ou pelo não, o melhor seria ir agindo o mais rápido possível, no que mandou logo avisar da sua decisão (e não a episcopal) através do serviço de alto-falantes da Câmara, imediatamente convocando delegado, policiais, barnabés, compadres, correligionários e toda plebe ignara e insana para partirem decididos naquela nova cruzada em defesa da moral e dos bons costumes e, assim determinados, rumaram todos em comitiva para a igreja matriz para ali prestarem sua solidariedade cristã,  pois aquela era uma situação em que já se chegava à beira do absurdo, não se admitindo aos pais exemplares da circunscrição de São Pedro do Fanado, como cada um deles próprios, que a sua cidade, a mais tradicional e exemplar freguesia de todo o bispado, de repente se encontrasse em vias de ser considerada a versão de uma nova Sodoma ou Gomorra.

Lá na matriz, depois dos discursos acalorados e das diversas propostas apresentadas para uma solução que contemplasse a todos, decidiram que alguma coisa deveria ser feita com urgência mas de forma a atender todas as partes, pois as eleições estavam próximas e um escândalo maior não seria benéfico para ninguém – principalmente por que havia companheiros do partido majoritário do coronel Chibano, inclusive ele, todos envolvidos naquele angu de caroço - gente de boa mas de fraca índole, incauta, de pouca formação e de moral pouco ilibada, mas que tinha mulher e filhas que deveriam ser preservadas daquele vexame - e jeitoso como era o matreiro alcaide - este, agora muito prudente e cioso de seus novos brios,  convenceu ao bispo de que deveriam, como bons líderes, criar as condições necessárias para que a troupe do Gostusura (vista sob a ótica do perdão) retomasse o caminho do sucesso empresarial em busca de uma nova e promissora vida circense.

Teriam então, para que esse projeto se viabilizasse, de se realizar na cidade um espetáculo de despedida para aquela gente circense, com o objetivo de angariarem fundos necessários ao soerguimento do circo (ou pelo menos para servir de "lavanderia" para as contas do erário público, para assim encobrir o rombo que deveria surgir no orçamento, de vez que o prefeito não abriria mão de que este fosse um ato grandioso) e tudo muito bem organizado, o que seria  como um sinal de grandeza humanitária e uma nova oportunidade à companhia do Gostusura. tudo por obséquio e graça da municipalidade e da igreja, permitindo-lhe uma nova chance que estariam concedendo àquela infeliz gente, pois  certamente que eram humanos e portanto sujeitos à tentação do pecado, e que era obrigação deles, como homens de bem e da justiça, oferecer um novo caminho, um novo rumo, no compromisso assumido de que não voltariam a infernizar a vida das famílias por onde viessem a passar, a partir daquele dia.

Como não havia mais a estrutura e os equipamentos necessários à função circense, tais como arquibancada, mastro e lona, o prefeito que era dono do cinema local- e este funcionava no teatro municipal – abriu mão de seu empreendimento, também do ramo de diversões, para ceder ao amigo Gostusura o amplo salão, com palco, cadeiras, iluminação e som, tudo para que fossem retomadas as suas artísticas atividades naquele ambiente improvisado, mas que lhe cairia bem melhor que as antigas instalações do antigo "Circo Internacional". 

Para tanto, foi logo requisitando, para a esperada re-estreia,  a banda de música do grêmio local e colocou toda a Euterpe Conceição a serviço do velho palhaço. Mandou reformar todo o figurino das vedetes, encomendando às "meninas" de Lucas, boas e prendadas modistas, que não fizessem economias nas compras das bugigangas e balangandans, por conta do erário, providenciando todos os artigos e aviamentos que fossem necessários, nas lojas de Heli, de Dona Celuta e de Zé de Durval onde o estoque de sedas, sianinhas, rendas, veludos, prometis, voales, veludos, tulhes, brocados e gorgorões logo se esgotara.

Grandes foram os preparativos e a data da despedida ficou marcada para o dia 19 de março, justamente o dia de São José, o santo padroeiro da Liga Católica e chefe da Sagrada Família, aquele que, como os homens honestos do lugar, continua firme na condição exemplar de patriarca dos carpinteiros, da família e modelo dos bons maridos e esposos.

No começo dos ensaios  apenas o Tio Gabriel, antigo escrivão do tribunal de justiça e titular do Cartório do Crime, tendo escolhido o seu melhor terno de seu rico guarda-roupa, bem cedo já estava ataviado, de suspensório e gravatinha borboleta, e na hora da efeméride foi-se revezando no violino e no saxofone, comparecendo todo catita como voluntário na execução do mambo necessário à apresentação da equilibrista, no arame bambo, semi-esticado sobre a plateia. 

 Ao primeiro toque, os demais músicos foram logo se achegando e, com muito apreço, formaram uma boa orquestra, reativando a antiga "Fá-Lá-Si-Mi Queres" que há muito não se apresentava. O público, que já sentia saudades dos requebros de Elza Miranda e da sensualidade plástica de Flor de Liz, extasiava-se com a última exibição erótica daquela dupla, enquanto o tio Gabriel, já com a ajuda de Zé Moreira, Militão, Artur Quirino, Álvaro Freire e de João Batista, todos se esmeravam na execução de uma rumba voluptuosa, vendo admirados a manimolência daquelas artistas que sacodiam os lamês e as lantejoulas dentro daqueles reduzidos maiôs, fazendo o supremo esforço de acomodarem-se as gorduras e pelancas e, ao mesmo tempo, de agradarem  a seleta presença de tantas autoridades, como a do honestíssimo e recatado prefeito, a do honrado delegado, a do circunspeto coletor e a do exemplar escrivão, além da presença sacrossanta de sua excelência reverendíssima e do digno Padre Sacramento, este vindo especialmente de Santa Cruz da Chapada para acompanhar o bispo, sorvendo como sempre a sua cerveja caracu e a tudo observando, lá de detrás do pano de boca do palco, naquela casa de espetáculos que nos bons tempos da mineração tinha sido um admirável teatro municipal.

Os demais músicos, a maior parte deles que já tinha perdido os instrumentos, antes todos entregues, por barganha, ao velho palhaço pelo preço cobrado pelos ditos bons serviços prestados, tinham naquele dia a oportunidade de resgatá-los, pois afinal, eram eles propriedade do Grêmio Lítero e Musical e se essa tramóia fosse descoberta é bem certo que o honestíssimo prefeito não lhes perdoaria o desvio daqueles bens e, além do mais, tinham que formar aquela necessária orquestra que viabilizaria o espetáculo salvacionista de todos os envolvidos na pendenga.

E todos os músicos, por antecipação chorosos de saudades, mas que neste ato se mostravam até  que aliviados com aquela possível saída de tão grave situação, que se ameaçava vexatória, ficaram como enfeitiçados pelo projeto e nunca executaram com tanto primor e tanto entusiasmo, os seus calientes tangos, suas valsas dolentes, vibrantes mazurcas, sambas e marchas, culminando, naquela apoteose, com o hino a Minas Novas, quando todos os artistas, inclusive o palhaço Gostusura - hilário como nunca, ao lado de Dona Petra em seus melhores trajes, apareceram solenemente ao palco, então transformado em picadeiro, todos de mãos dadas, indo aos bastidores e deles voltando, repetidamente, para serem vibrantemente ovacionados pela platéia delirante e de pé, quando não mais se continham na emoção e derramavam as mais copiosas lágrimas de adeus.


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- II -

DEPOIS DE 250 ANOS ...


Minas Novas, até os idos de 1980, era considerada o C. do Mundo, ou seja, o lugar onde o Judas havia esquecido suas deslustradas botas, quando veio esse encardido e tinhoso lá das bandas da Bahia e por ali passou, só de passagem, resolvendo estabelecer-se, definitivamente, um pouco mais adiante, em Caxaprego, que naquele tempo era conhecido, também por P.B. sigla que significa outra coisa mas que para consumo interno quer dizer “Pedra Bonita”, como preferem os bairristas moradores de Turmalina.

As duas cidades, hoje não muito mais desenvolvidas do que d’antes,  distam  25 km., uma da outra, como cão e gato, ligadas, hoje, por uma moderna estrada asfaltada.

Pode até não parecer, devido à maquiagem, mas a antiga Vila de Piedade é anterior à do Fanado, sendo que esta se emancipou lá pelos idos do século 18 e aquela somente em meados do século 20.

Naquela época, em que já era das vacas magras,  tudo de bom ficava longe e muito difícil, pois os meios, inclusive os de comunicação, eram todos muito precários, não havendo nem mesmo telefone interurbano, melhoramento este que foi introduzido, no final da década de 1970 na região, graças ao trabalho pioneiro de um grupo de funcionários do Banco do Brasil, da agência de Minas Novas, liderados pelo progressista gerente Francisco Carlos Campos Coelho, natural de Governador Valadares mas que logo depois de chegado na cidade, tornou-se um apaixonado roedor de pequi e um dos mais fanáticos minasnovenses, confirmando as propriedades e o tal  efeito, anteriormente citado no conto anterior, contido na água do Fanado.

Com a disposição, o afinco e o trabalho incessante desses funcionários pioneiros, muita coisa de boa passou a acontecer, não só em Minas Novas, mas em toda aquela região do Fanado, onde tudo estava por se fazer, pois era incalculável o tamanho do prejuízo social, um triste passivo decorrente do desprezo, do abandono e do descaso que reinavam naquele orco do mundo, onde eram nulas as presenças do poder público, do estado, dos governos e dos políticos, estes que compareciam na cidade apenas para garimpar votos e para usurparem as rendas municipais.

Era a agência do BB, com seus 60 funcionários – hoje tem só meia dúzia – o principal agente do progresso de Minas Novas, Turmalina, Chapada do Norte, Berilo, Francisco Badaró, além de Leme do Prado, Veredinha, José Gonçalves de Minas e Jenipapo que ainda, nesse tempo, não se haviam emancipado mas que já eram distritos bem desenvolvidos, que naquele estabelecimento bancário passaram a buscar seus créditos, suas orientações de investimentos e o atendimento  para desenvolverem suas lavouras, seus rebanhos e suas atividades comerciais.

Portanto, não seria exagero se considerarmos o 1980 como o ano-base da história de toda essa região, pois foi a partir de então, que os milhares de beneficiários do INSS  (ex-Funrural) passaram a ser respeitados, com atendimento mais humano e honesto, quando os consumidores passaram a ter mais opção de mercado, com variedade, qualidade e preço justo, da mesma forma que os lavradores começaram a descobrir que tinham direito de acesso ao custeio de suas lavouras e que podiam obter empréstimos para comprar suas vaquinhas e dalí em diante, foram surgindo o melhoramento da frota de veículos, o aparecimento de um ou outro trator agrícola, e com o poder aquisitivo melhorando vieram mais e mais assistência dos profissionais liberais como dentistas e médicos, que eram raríssimos, todos atraídos pelos novos ares que começaram a soprar por essas bandas.

Foi esse, por coincidência, o ano em que haveria de se comemorar os 250 anos do município de Minas Novas e, para festejar a data da chegada da Bandeira de Sebastião Leme do Prado à Vila do Fanado em  02 de outubro de 1.730. Para tanto, nomeou-se uma comissão com o objetivo de organização de ampla programa que incluía a histórica recepção do presidente da república, General João Batista de Oliveira Figueiredo, do governador Francelino Pereira, de demais autoridades e de importantes empresários, o que de fato ocorreu quando se inauguram diversas benfeitorias como a iluminação da Cemig, o Hospital regional do FUNRURAL, o SENAR, o sistema telefônico interurbano da TELEMIG, a sede do CEC (Centro Esportivo Comunitário),  a nova e soberba agência do BB, além da instalação dos Postos Avançados de Crédito Rural em mais de 30 localidades do Vale, dentre elas os PAVAN’s de Chapada do Norte e Berilo, subordinadas a Minas Novas.

Foi assim que se convencionou ter ficado para trás, oficialmente, 250 anos de muito sofrimento, durante o qual só ocorreu a exploração predatória de todos os recursos naturais – minerais e vegetais – e poderia até dizer, animais – destes também – porque o principal representante deste reino, o homem, se é que havia dele  restado alguns exemplares após este longo período de privações foi pela Graça de Deus que os dotou de um forte instinto de sobrevivência, de resistência e de esperança.

Se hoje o estágio de desenvolvimento dessas localidades ainda deixa muito a desejar, imaginemos o que era a vida dos seus cidadãos, principalmente dos pobres moradores da zona rural, que sempre representaram mais de 70 % da população geral.
Basta dizer que, nesta região, chegou-se a um ponto de miserabilidade tão grave, de mazelas agravadas com o êxodo rural que esvaziou completamente as grotas, que havia lugares – nas cidades e  na zona rural - onde restaram apenas os idosos, os doentes e as crianças – todos relegados ao mais grave estágio de abandono de seres humanos  jogados à sua própria sorte – ao ponto de a Igreja Católica, através dos Padres José Lávia e Silvano, com o auxílio das diligentes Irmãs Salesianas, ao se integrarem, de corpo e alma à Pastoral da Terra, passarem corajosamente a denunciar, a retratar o escândalo, até mesmo através da famosa Carta de Puebla,  da imprensa especializada e de todos os movimentos eclesiais de base, mostrando ao mundo e à sociedade brasileira - para que estas pressionassem a classe política -, de como estava sofrendo um povo morador de um dos estados mais ricos da federação.

E tal situação, escancarada no meio intelectual, virou tema e tese entre os acadêmicos das principais universidades, não só do Brasil, mas dos principais países civilizados, que para cá encaminhavam missionários e ajudas de toda espécie.

Era chegada, pois, a hora da vergonha na cara:

Um dos ícones da Revolução de 1964, cujo regime ditatorial estava no seu declínio, quando era ele, justamente, o principal político da região, representante da dinastia Badaró, que dominara durante todo aquele período de estagnação o pobre Vale do Jequitinhonha, era também um político que até ali já havia galgado cargos legislativos -- como deputado estadual, deputado federal e secretario de estado – o qual,  na vigência do governo Figueiredo, além de Senador Biônico, tornara-se Ministro, e que naquela ditosa quadra era  o responsável por uma das principais pastas do governo federal, o poderoso Ministério da Indústria e do Comércio.

O Vale do Jequitinhonha era o retrato da incompetência administrativa e da irresponsabilidade política; e quem era o principal culpado por esse quadro dantesco?

A imprensa nacional, certificando-se dessa situação, mostraria essa realidade nos canais que só não tinham alcance justamente nesses tristes e abandonados grotões sem escolas sérias, sem estradas, sem telefone, sem médicos, sem dentistas, sem assistentes sociais, sem agrônomos, sem engenheiros, sem bancos, sem jornais, sem emprego e sem qualquer motivação ou sentido para uma população desmotivada e sem rumos para seguir a vida.

Aquela era, pois, a melhor oportunidade de começar a se fazer alguma coisa a favor do povo do Vale, para ver se acomodavam com o que fosse possível fazer, correr contra o tempo, recorrer-se a algo importante, de monta, para balançar as estruturas da televisão, a ser feito com muito impacto e grande repercussão na mídia, tanto para satisfazer a opinião pública como  para calar a boca da IRA MALDITA  – para eles da Revolução – mas muito BENDITA para nós democratas e brasileiros de verdade, que agora tínhamos a voz forte e o trabalho incessante daqueles verdadeiros apóstolos italianos que se entregaram ao serviço em prol de Minas Novas e de toda região.

Aproximava-se o grande dia:

Máquinas e mais máquinas, como nunca vistas antes, alisavam as estradas. O aeroporto foi devidamente pavimentado. Os prédios públicos foram todos reformados. Os monumentos foram restaurados e receberam holofotes potentes.

Instalaram-se,  ao  toque das caixas, novas escolas primárias, estendendo as suas classes até a oitava série além do quarto ano que até então era o período máximo para algumas, tudo para poderem mostrar, naquele dia sagrado e festivo, o quanto havia trabalhado aquele grande filho da antiga urbe, nesses últimos dias e minutos de dois séculos e meio de eterno esquecimento e improdutividade.

Já no dia primeiro de outubro a velha cidade foi tomada pelas polícias do Exército, Federal, Civil e Militar. Pelas ruas desfilavam oficiais das três forças, homens do Corpo de Bombeiros e agentes de segurança revistando os bolsos e alforges de todos os transeuntes e vasculhando sobrados,  igrejas, casas, barracos e carros procurando possíveis subversivos que estivessem preparando alguma ofensiva contra o nobre chefe de Estado que estava sendo aguardado.

Todos os canais de rádio e televisão já estavam a postos, assim como as câmaras de centenas de repórteres, fotógrafos  e cinegrafistas, naquela parafernália digna de superprodução cinematográfica.

As bandas marciais e também as “furiosas” de toda a região faziam suas evoluções e apresentações pela cidade.

De vez em quando, para o encantamento de todos, despencava lá de cima um bando de pára-quedistas, sob o espanto da população que jamais imaginara espetáculo igual.
Bandeiras de todas as cores tremulavam pelas janelas e sacadas e a criançada, com seus uniformes azuis, enchiam de vida e de esperança as tortuosas e íngremes ladeiras da quinta mais antiga cidade de Minas Gerais.

Os sinos das igrejas centenárias nunca estiveram tão alegres e úteis como durante todo aquele festejo, com seus piques, repiques e redobrados que eram suplantados somente pelo troar de canhões, das ronqueiras e de rojões, acesos lá dos Morros do Andaime, do Caçador e da Contagem.

A velha cidade, de repente, tornava-se não só a momentânea capital do Estado, conforme anunciado, mas no dia de seu aniversário seria a própria Capital Federal, nem que fosse por algumas horas e para isto já chegavam aviões, mais aviões, trazendo todo o ministério, para o despacho com o Presidente da República a ser instalado por alguma horas no velho Sobradão.

A ordem da Casa Civil era não regatear, pois a data deveria ser inesquecível.

Para o banquete servido no almoço, nos lugares especiais reservados no segundo andar do novo prédio do Banco do Brasil, um imenso salão no mais puro estilo colonial, o Royal Salut e o legítimo champanhe Chandon correram soltos, durante toda a tarde, com os mais de 500 convivas espalhados por aquele imenso prédio, todos sendo soberbamente  atendidos pelo sofisticadíssimo bufêt carioca do Hotel Glória, com mäitres internacionais e os mais elegantes garçons, todos a caráter, trazidos especialmente em helicópteros oficiais.

No céu, não paravam de sobrevoar aeronaves de todo tipo e tamanhos.

Pela manhã do dia 02 de outubro, todo o espaço aéreo foi fechado para que o imenso “Douglas”, triunfante, trazendo o General Presidente e seu fiel Ministro, chegasse naquele campinho, de repente esticado com pista de 1.800 metros, no meio dos eucaliptos da Acesita, para, a partir dali seguirem os dois, com suas respectivas e muito honradas e distintas damas, somente eles quatro, no helicóptero presidencial, poderem apear no verdejante gramado do “estádio municipal do Pequisão", onde uma multidão de 1000 cavaleiros lhes aguardavam, perfilados e garbosos, para a o início da imensa cavalgada pela principal avenida da cidade, que para o ato, teve que perder sua antiga e bonita arborização que impediria a melhor visualização do aparato das tropas em desfile.  

Ao chegarem à Praça da Prefeitura, o presidente general, na frente da cavalaria, seguido dos ajudantes de ordem,  dos ministros civis e militares  e do governador de Minas Gerais, todos cavalgando machos especiais vindo de um haras de Nanuque, foram recepcionados por um publico multiplicado por 10 vezes o número de habitantes, vindos de todo o vale em ônibus especiais fretados pelas prefeituras, 70 delas dos municípios que, desde o tempo da antiga vila,  já teriam pertencido ao território de Minas Novas, cidade esta que foi escolhida, nos idos de 1800, para sediar a administração da criada e não instalada Província do Jequitinhonha.

Foi, sem duvida, a maior festa, de todos os tempos, em todo aquele sertão do nordeste mineiro.

E, na hora da troca de presentes destinados ao presidente General foi-lhe apresentado, pelo Ministro Badaró, uma réplica perfeita, toda confeccionada no mais puro e maciço ouro do Bonsucesso, um espadim que pertencera ao coronel José Bento, finado avô do político local, uma milionária peça que foi fundida pelos netos do ourives Mestre Roxo, à custa dos minasnovenses tão gratos e felizes com seu grande benfeitor. E como bem disse o orador oficial da cerimônia, de que cada um deveria dar o melhor de si para o benefício e a grandeza de sua terra e de sua gente, naquele momento solene, o prefeito de Francisco Badaró - o popular Zezé de Basílio - escalado como representante dos colegas presentes, tirou de sua montaria um cabresto em couro e prato, ricamente confeccionado por ele mesmo, quando dirigiu-se, todo espalhafatoso, em direção do presidente, como se fosse colocar aquele inusitado mimo no pescoço do General, quando, de abrupto, para surpresa de todos, foi ele imediatamente arremessado ao chão pelo forte esquema da segurança presidencial que se precipitou sobre o humilde e bem intencionado prefeito, quase que o esmagando sob os coturnos e sufocando-o no meio do corre-corre, dos estampidos de rojões, como se uma outra revolução estivesse em início, tamanho era o foguetório e ruidosos e  vibrantes eram os dobrados executados por mais de 20 bandas juntas, todas empolgadas, naquele tumulto sem fim que encobria a "tentativa" - muito bem reprimida - de causar insulto à "sua Excelência", conforme imaginara os agentes da eficiente segurança nacional.

Muito tempo depois se ficou  sabendo que o ministro Leitão de Abreu - que era o chefe da Casa Civil mas que não fora convidado para a alfarromba oficial - sentido-se desprestigiado, mandou a conta de toda a despesa para o Palácio da Liberdade.

O governador de Minas, que nem mineiro era, mas também participara do desperdício tão-somente “para constar” (como dizia o mestre Cleomar Machado),  assim mesmo de muita má-vontade, pois ainda se ressentia do tratamento, de que fora vítima, por parte do então deputado estadual Murilo Badaró, quando de suas andanças em campanha pelo Vale, como candidato a deputado federal quando, de passagem por Minas Novas, aqui foi impedido de fazer seu comício que seria realizado em frente do sobrado de Benedito Leite, porque o futuro senador-biônico tinha mandado apagar as luzes da cidade justo  no momento em que ele, Francelino Pereira, dava inicio a seu discurso, tendo ele, por este justo motivo, por esta sua vez agora como governador-biônico, mandado aquele prejuízo da festa dos 250 anos de Minas Nvas para ser paga pela CODEVALE, uma autarquia criada pelo próprio Badaró, já promovido a senador de proveta, no tempo de sua meteórica passagem como secretário no pífio governo de Israel Pinheiro e que, segundo as más línguas, deveria ser chamado de “Nem acode nem Vale”, (ambos: criatura e criador) dada suas inoperâncias e que, com aquele rombo inesperado, teve comprometido todo o orçamento da autarquia, tanto o daquele exercício como todos os demais a que teria direito nos próximos 50 anos, inviavilizando em pouco tempo - por carência de verbas - a sua existência no cenário administrativo do Estado.


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- III -


SUCUPIRA

A Rede Globo de Televisão, já no outro dia, depois da farromba de 02 de outubro de 1980, exibia o episódio de Odorico Paraguaçu também recepcionando o presidente em sua Sucupira, cuja produção teve todo o “script” copiado, nos mínimos detalhes, daquela encenação tão bem preparada que o Badaró montou para mostrar a sua grande obra em benefício do Vale.

Dias Gomes, porém, para mostrar competência, talvez tivesse que fazer um longo estágio lá na antiga Vila do Fanado, para poder - pelo menos - na criação de seus roteiros e novelas, chegar perto da criatividade dos artistas daquela inusitada Vila do Fanado das Minas Novas.

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A RUA DAS PRETAS FORRAS

AS RUAS DE MINAS NOVAS


RUA DAS PRETAS FORRAS-

A rua das Pretas Forras tem um único quarteirão, ou melhor, é uma rua bem curta que começa na Quintino Bocaiuva, desembocando-se na Praça Barão do Rio Branco, logradouro mais conhecido como no Largo da Cadeia. Tem pouco mais de uma dezena de casas baixas e muito antigas, onde moraram várias famílias de ex-escravos, como a da "sinhá" Etelvina do Mirante, já bem velhinha nos anos cinquenta, que liderava uma casa cheia de filhas e netas, todas dedicadas aos trabalhos de fiadeiras, tecelãs, bordadeiras e, principalmente, a melhor doceira que, pelas ruas da cidade, vendia merendês, ambrosias e o doce de leite pastoso dos quais nunca, além deles, provei  outros iguais em toda minha vida.

Lembro-me bem, passando por ali, da profusão de fusos, das rocas, das almofadas de bilros, dos imensos bastidores de crivo, dos teares de pedal e dos coloridos novelos de pavios que rolavam pelas calçadas, aguardando a vez de se transformarem em cobertas, mantas e tapetes.

A rua das Pretas Forras, além do cenário daquela intensa atividade artesanal que ali se desenvolvia, era também a lúgubre passarela por onde, invariavelmente, aquelas moradores assistiam ao triste desfile dos presos, que escoltados, algemados ou amarrados, que nem animais destinados ao corte, eram conduzidos para as prisões que ainda hoje existem na famosa cadeia da velha comarca.

E eram aquelas humildes e boas mulheres, que moravam e trabalhavam nessa rua que, às vezes, se intercediam em socorro de algum infeliz, implorando a favor deles, pedindo, e até mesmo se arremessando contra os soldados, na tentativa de impedir torturas e espancamentos.

Também eram elas que se dirigiam, correndo aflitas às casas dos parentes, para informar às famílias sobre a prisão de  algum ente querido, eventualmente envolvido em bebedeiras, em escaramuças, pândegas e outras enrascadas por eles cometidas durante à noite, lá na rua do Fogo ou num dos mocós da Mil e Quarenta.

A cadeia de Minas Novas era o único estabelecimento prisional, em toda região, que recebia presos, condenados ou não, oriundos de todas as comunidades do imenso termo judicial. E ali o regime era duro, onde os presos não tinham boa vida como hoje, sendo todos submetidos ao rigoroso regime em que eram obrigados a cuidar dos serviços de limpeza, não só das imundices daquele tugúrio, entre elas as de suas próprias celas, mas, também dos demais infelizes que ali eram recolhidos. E mesmo aqueles presos que não ofereciam periculosidade, pelo turno do dia eram encaminhados, sob vigilância da escolta policial, para cuidarem dos logradores públicos, capinando ruas, recolhendo lixo e muitos deles, que se consideravam até privilegiados, para prestarem serviços gratuitos a particulares nos quintais das casas de famílias que os compensavam com sobras de comidas, restos de roupas, agasalhos e outros míseros benefícios.

Como na cidade não havia serviço de água canalizada e nem existia, mesmo na cadeia, qualquer vaso sanitário, diariamente aqueles presos mais perigosos, ou os fujões e os desobedientes, eram todos obrigados a seguirem a pé, sempre acorrentados uns aos outros, até à barra do Ribeirão Bonsucesso, conduzindo na cabeça os potes de barro, onde os companheiros, durante a noite, faziam suas necessidades fisiológicas e, depois da própria higienização corporal e da completa limpeza daquele fétido vasilhame, para nele trazerem água para o irrigamento da horta e do bem cuidado jardim que havia na referida praça Rio Branco.
 
Devido a esse rigor, nessa época o índice de criminalidade na comarca era relativamente baixo e, quase sempre, era com o maior pavor que se deparavam aqueles que, por alguma razão legal, para ali eram encaminhados.

Era terrível a fama da cadeia de Minas Novas onde, a exemplo do que sempre acontece, eram punidos os criminosos de origem humilde, pois o braço da Lei jamais alcançava os privilegiados da sociedade, protegidos pelos coronéis de patente comprada na Guarda Nacional.

E assim, mesmo os presos mais valentões, os mais irresponsáveis e os incautos, todos tremiam de medo principalmente quando, debatendo-se, ao passarem pela rua das Pretas Forras descortinavam lá do outro lado do largo o austero e temido casarão, em estilo clássico, tendo ao fundo a centenária e frondosa Sapucaieira.

Os moradores daquela rua já eram acostumados com as tétricas procissões, dos gritos de dor dos conduzidos e dos comoventes apelos de clemência de populares e familiares.

Um fato, porém, marca a lembrança, ainda hoje muito viva, principalmente de muitos como eu que presenciaram a cena: Surgiu na região do Setúbal um temido bandoleiro, atrevido e violento que desafiava a todos, desrespeitando às famílias e colocando em pânico a população, inquietando toda sociedade. A fama desse arruaceiro se espalhara e até mesmo os policiais já se sentiam amedrontados, tantas eram as notícias das aprontações e peripécias desse indivíduo. E foram várias as tentativas, em muitas diligências, com o objetivo de captura desse malandro, que já se gabava de ser ligeiro, liso, respeitado e perigoso.

O destacamento era composto de sete policiais a pé, armados de fuzis e baionetas caladas, comandados pelo sargento José Leão, rigoroso militar que, de imediato, convocou a sua pequena tropa, reuniu-os no pátio da cadeia, distribuiu aos cinco soldados as armas e as munições, encarregando ao cabo Pedro de Cirilo que,  juntamente do carcereiro Antônio Domingos e do delegado "calças-curtas" Raul Marcolino, de se encarregarem da vigilância da cadeia e da segurança geral da cidade, e assim providenciado, partiu em diligência para a região do Rio Setúbal.

E seguiu, destemido, à frente dos seus soldados Zé de André, Joãozinho Preto, José de Figueiredo, João Moura e Serafim Abreu, todos muito apreensivos, sob a maior expectativa dos que ficaram, para cumprirem o mandado de prisão, lá no povoado de Baixa Quente, de onde deveriam, de qualquer forma, capturar o biltre que estava desafiando o poder judicial da comarca.

Chegando ao destino, lá pegaram o bicho, em flagrante, depois de um quebra-quebra que o bandido havia promovido na venda de Quincas Fogueteiro, um homem pacato que teve de se refugiar no mato, lá na beira do Córrego do Ouro, durante toda a noite com sua família, todos ameaçados e em polvorosa.

João Moura, jovem soldado que sempre foi muito corajoso e bem treinado, desde os tempos em que se ingressou nas fileiras do Exército, lá no seu estado da Paraíba, de onde veio, depois,  para se casar e que aqui em Minas Novas resolveu se alistar na gloriosa Polícia Militar, já sabendo manejar bem suas arama e principalamente o seu laço, conhecimentos que o permitiu dominar e prender o tal valentão, colocando-lhe uma peia e uma algema. 

E foi assim desta forma que, com a ajuda dos demais praças, apaziguou as comunidades do Setúbal e retornaram, naquele mesmo dia à sede conduzindo o delinquente  atrevido, já subjugado, devidamente amarrado como um boi bravo, levando-o à cidade, quase que arrastado, tamanha era a sua resistência.

E seguia o comboio de policiais, pela estrada, tendo à frente o garboso sargento e o festejado praça João Moura, segurando a ponta da corda, este que passou a ser, a partir daquela data, a personificação do respeito, a garantia da ordem e o prestígio da segurança pública local.

Já, na cidade, as ruas desde a Gruta até à Barra, a agitação tomou conta, todos correndo de um lado para outro, para ver melhor o momento da chegada do preso. A multidão se acotovelava, próxima à cadeia, para assistir à chegada do temeroso bandido.

O cortejo tão esperado foi descendo rua abaixo, passando pelo Rosário, depois pela rua Direita, pelo Largo das Cavalhadas e, chegando no início das Pretas Forras, ali o preso endureceu e se empacou tão-logo viu, à sua frente, a tal cadeia e este, apavorado com o que lhe esperava,  agindo num ímpeto de fúria e de último esforço, mesmo todo amarrado e algemado, investiu-se sobre o soldado Zé de Figueiredo e conseguiu arrancar-lhe a baioneta, aplicando-a imediatamente em sua própria barriga, despejando naquelas ruas empoeiradas as suas entranhas e caindo sobre a poça formada com o sangue que jorrava aos borbotões daquela terrível sangria.

E o valentão do Brinco, esse era seu apelido, mais nunca brincou com a lei.

Não foi para a cadeia, como queriam levá-lo, tendo preferido ficar eternamente preso em uma cova rasa que lhe fora preparada na calçada, pelo lado de fora do cemitério da cidade, pois lá na Baixa-Quente os moradores não quiseram vê-lo nem depois de morto.

E tudo voltou, na maior paz e calmaria, com a velha rotina da pacata cidade!

                                                          
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RUA DO RESOLVE

A rua do Resolve começava logo abaixo da Igreja de São Gonçalo e terminava exatamente no lugar onde findava o antigo calçamento de pé-de-moleque, na descida do morro, passando-se pelo casarão do Constantino, indo-se dali até à barra do Bonsucesso, no lugar hoje conhecido como Bosteiro de São Bento. 

Nessa parte, a mais baixa da cidade, também ficava a zona boêmia, então conhecida como Mil e Quarenta. E era por causa da má-fama desse local que às pessoas consideradas descentes era terminantemente proibido seguir, sem censura, além daquele local que passou a ser conhecido de “resolve”, naquele ponto onde podiam ir, durante o passeio ou o “footing”, mesmo durante o dia.

Quem, além das moças decaídas, dos boêmios e dos desocupados, atrevia-se em descer aquele o morro, passando do “Resolve”, logo caia na boca do povo.

E as prostitutas, que não podiam aparecer na cidade, lá em baixo ficavam confinadas e completamente isoladas do resto dos moradores, como verdadeiras escórias humanas, sem qualquer direito e vivendo as maiores humilhações. Para lá eram elas encaminhadas, pelas próprias famílias, pois essas pobres moças que se perdiam eram expulsas do convívio familiar, de suas próprias casas, tão logo os pais descobriam-lhes os maus procedimentos, os relacionamentos indesejáveis, ou se as ditas criaturas, em suas desditas, tivessem a desventura de se engravidar antes do pretendido e sonhado casamento. E isto era como se tivessem morrido, tamanho era o desprezo, para com elas, que se adotava por parte dos pais, parentes e amigos.

Mesmo assim, era a “Mil e Quarenta” um local muito frequentado, onde a jogatina e os forrós corriam soltos e seguiam até altas horas, quando verificavam-se alguns quebra-paus e embates que obrigavam os arruaceiros a caírem no mato, fugindo Fanado abaixo, ficando escondidos durante vários dias, com medo de irem para a Sapucaieira, enquanto eram procurados pela ronda policial.

Eram aquelas mulheres maltratadas de todo o jeito, quando lá em seus casebres se refugiavam aqueles biltres, colocando-as c como cúmplices, fazendo com que fossem espancadas e torturadas quando ali compareciam os milicos para efetuar as batidas e prisões, e por não encontrarem ali os fujões procurados, aplicavam nelas terríveis sovas, extensivas às inocentes crianças e mesmo às pessoas idosas e doentes que com elas, por força das circunstâncias, eram obrigadas a conviver recebendo as migalhas que lhe sobravam.

Tais barbaridades somente foram combatidas a partir da chegada à cidade do médico Dr. Agostinho, que toda noite descia o morro, em seu jeep, por ele chamado de “Bomboquinha”, lá fazendo um trabalho de triagem e de vigilância, não permitindo que se praticassem qualquer tipo de violência contra aquelas mulheres, a quem tratava com carinho e respeito, dando guarida aos indefesos e denunciando à justiça os exploradores daquela infame situação.

Com o tempo, conseguiu o bondoso médico sanear por completo toda a zona boêmia da cidade e até mesmo fazendo com que a população mudasse os critérios segregacionistas que existia em relação aqueles pobres marginalizados da Rua da Barra.
Para essa tarefa ele convocava os alunos do Ginásio, que o ajudavam nessa cruzada, os quais, mesmo depois do falecimento desse benfeitor, continuaram por um determinado tempo, nesse edificante trabalho social que nos dias atuais deveria ser retomado com o objetivo de livrar a cidade, não só da prostituição infanto-juvenil, mas do tráfico e do vício de drogas como a cocaína e o craque.

                                                           * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

O BOM SUCESSO?

Antigamente, não há muito tempo mas até aos meados do século passado, tínhamos lá pelas bandas de Minas Novas um ribeirão... ou melhor, já era um riacho, que se chamava de Bonsucesso.
 
Muito antes, porém, quanto ainda era um rio, seu nome era Bom Sucesso e que produziu muito ouro. Dizem até que foram várias arrobas, talvez toneladas, de puríssimo, valioso e tão desejado metal amarelo.

Depois, já no meu tempo de menino, ainda aparecia ali algum ouro, bem minguado é verdade, mas aparecia ... e ninguém que lá ia buscar socorro, com sua bateia e frincheiro, voltava de mãos abanando pois fazendo-se sol ou chuva, roedor de pequi nenhum morria de fome, fosse pelo amarelo da fruta ou pela cor do rico metal.

O tempo foi-ser passando, as águas correndo, e o riacho, já reduzido a córrego, mesmo contando somente com suas águas límpidas e calcarias, ainda assim fazia algum sucesso: nele aprendi a nadar, pesquei traíras, bagres, cascudos e muitos lambaris!

Em suas margens existiam candeias, goiabinhas araçás, lagramínias, ingazeiras e as terríveis aroeirinhas, em cujas moitas lagartixavam meninos levados, preás, teiús, zabelês, jibóias e tatus.

Tudo era belo e saudável até que um certo dia, vindos pelo Morro da Contagem, desceram os terríveis comboios de D-8 da Acesita, com suas correntes de arrasto e, lá encima, nas chapadas que eram seus eternos mananciais, as cabeceiras, suas antigas nascentes agora sulcadas e drenadas, ficaram os eucaliptos fedorentos e na Grota Boncesso restaram alguns poços cheios de morte e veneno.

Daquele rio que antes a todos socorria com água potável, areia e ouro, hoje só correm as lágrimas!

Justamente agora que a água vale mais que o ouro:

R
E
G
R
E
S
S
O

Rio de Nossa Senhora do Bom Sucesso
Ribeirão Senhora do Bom Sucesso
Riacho do Bom Sucesso
Córrego Bonsucesso
Grota Boncesso
Cesso
°
º
°
 °
!!! 
ONTEM:
Cem, foram as arrobas de ouro.

HOJE:
Sem os arroubos de vida!

31-V-2007












BAILADO DAS HORAS NOTURNAS EM MINAS NOVAS

- CONTOS DO LALAU
    
25-06-2009-

"Balanciou, balanciou ...
balanciou, a coroa do rei,

 balanciou!"

xô, xô, xô meu zabelê
Fico aqui a noite toda
Esperando pra ti vê...

- Boa noite, Dão!

- Boa noite, "seu" Zé...

Na década de setenta ainda havia, lá em Minas Novas, pelas manhãs, revoadas de andorinhas que, tão logo o sol subia a pino, elas se debandavam e sumiam todas, em direção do Mirante e, de lá, partiam em revoadas pelas bandas das veredas que ainda não eram contaminadas, como hoje, pelo terrível eucalipto.
E depois voltavam todas, uma a uma, naquele alvoroço matutino, tão logo rompia o outro dia, fazendo suas incríveis evoluções pelos céus fanadeiros em arriscados vôos que nunca, em tempo algum, sucederam-se de colisões ou algum desses desastres aéreos comuns aos entes que voam, com seus lindos brevês, mas que sofrem porque não têm a habilitação própria e o conhecimento adequado da sabedoria de voar.

Milhões dessas aves de arribação, guiadas pelo cansaço, pousam algumas horas nos fios, de pouca energia, desenhando nos intervalos de postes, como barras, o pentagrama onde compõem roucas sonoridades que somente elas apreciam, enquanto pintam, no calçamento das vias públicas, lá no chão, curiosas figuras escatológicas.
Depois do meio-dia era a vez de outros aeronautas: canários, sofrês, fleuras, sanhaços, sabiás, pintassilgos,
rolinhas e até mesmo um solitário carretão, este acabrunhado, e aqueles a inundar de cores e de alegria os quintais e a meninada, todos lampeiros que, pela manhã, ainda estavam em seus berços ou tecendo seus ninhos, e que agora se refrescam sobre as folhagens frondosas das frutíferas, onde lhes esperam a abundância preferida de seus banquetes.
E à tardinha, quando o sol mansamente ameaçava esconder-se por detrás do Morro da Contagem, já se descambando pelos lados do Buriti e do Capão do Serro, irrompiam-se das torres do Rosário, milhares de morcegos que, incomodados com a “ave-maria” do campanário, lembravam-se do compromisso de recolherem suas sementes na imensa Sapucaieira, ensaiando vôos rasantes nos espelhos d’água de ambos os rios que logo abaixo da Cadeia Pública faziam a Barra. E daquele ponto, numa azáfama impertinente, retomavam o sentido da nascente e voltavam, seguindo céleres, Fanado acima, em direção ao córrego do Manoel Luiz onde, certamente, nas locas daqueles lajedos, iam depositar os seus tesouros..

E à noite, sob o lúgubre coaxar dos batráquios, que invadiam as ruas, caiam do alto do poste de luz as aleluias, os siriris e as bruxas, para a dieta daqueles animais medonhos preferidos pelos feiticeiros na tecedura de seus despachos.

Era esse o cenário, sob o diáfano cortinado da névoa seca, na lusca-fusca de uma iluminação dengosa, que encobria o vai-e-vem sorrateiro dos demais personagens da noite que, aos poucos, surgiam dos becos e ruelas, rumo à perdição e à jogatina, no boteco de Jovina ou de Tião Preto, ora para uma bebericada na cotréia da venda de Finusca ou um cafezinho magro e negro, de madrugada, no soturno “Poleiro das Viúvas”. Também era esse o momento em que se ouvia, claramente, o colidir das bolas nos diversos bilhares do Bar Avenida, onde a usura de Mário enchia-lhe as burras, esvaziando
as algibeiras de Márcio, Idé, Taco, Zé Pereira e outros beócios das apostas.
 
Mais acima, da cozinha do “Pescoço Sujo” exalava a fumaça que carregava o cheiro bom de uma galinha surrupiada, no tempero inconfundível de dona Alice Nolli, enquanto no Vispora, o truco e a caixeta corriam soltos, sob o vigiar atento do grupiê Laudodó.

Do outro lado da rua, com suas imensas portas abertas -até altas horas-, como se fossem bocas a devorar os últimos vinténs da freguesia, mesmo sendo gélido o tempo e curto o cobre, fabricavam-se os sorvetes de coco e anis, enquanto os vendeiros iam colocando cera no batente da balancinha de pesar o ouro dos faiscadores, a esta hora meios bêbados e guardando no caborje a feira de um prato de farinha, uma libra de toucinho, uma medida de feijão bichado, um palmo de fumo de corda, uma garrafa de Gilda, meio queijo-cozido, uma forma de rapadura e um quarto de requeijão-cascudo.

Na porta do depósito de Zé de Frade, tendo lá no fundo a pocilga, de onde subia o insalubre furdunço e o ronco dos capados, entreouvia-se a afinação de um pinho que, tão logo terminasse a branquinha, haveria de planger com ternura a paixão de Plínio, Toni Catitu e Luizinho, encantados com a Rua do Fogo, reduto de uma récua de menestréis e seresteiros, atraídos pelos chouriços e torresmos de Bina, de Eufrásia, de Rosa de Fulô, de Madalena ou de outras alcoviteiras que os depenavam e os esfolavam juntos das piantes surrupiadas.
  A insônia neurastênica do Toninho Dodô, na vigília constante de sua amada Marinhinha, induzia-o ao trabalho noturno de remendão, ficando a noite toda lambendo a sola das precatas e das chinelas que seriam usadas pelas beatas domingueiras, as quais, no raiar do dia, na alvorada festiva, se encantavam com o toque do trombonista Moreira: pois a sua casa verdadeira era aquela moita, onde ficava a espreitar, entre as folhagens das buguenvilias, manacás, murta-flor e dos frondosos jasmineiros, em cujos troncos durante o dia se prendiam os animais cargueiros e montarias dos fregueses de Zé Camargos, e à noite, ficando a sua tenda de soslaio, encobria-se com os córneos escuros, mesmo estando erma a rua, postando-se a vigiar a porta e a única janela da sala aguardando o retorno, que nunca acontecia, da esposa infiel que na esbórnea a avenida toda corrompia.
-
No silêncio da madrugada entrecortada com o estrilar de um grilo e o esforço dum cupim roxo gigante que insistia em solapar as bases da gigantesca palmeira centenária do major Benício, sucedia o bailar eterno das horas, sustenidamente firmados nos bemóis perdidos, de notívagos contumazes das ruas da Vila Fanadeira, buscando incessantemente o que não guardaram ou então, calados, contabilizando os romances alheios, como se fossem seus os vícios e os labores dos poucos que a este castigo se condenavam.
 
Alguns deles catavam ouro, em bateias negras de árvores centenárias, se as pepitas se apresentassem fáceis, outros, em cadinhos ardentes, forjavam durante o dia as jóias e as alianças dos noivos eventuais, pois que raramente essas bodas aconteciam.

E a juventude perdida pelas noites nunca encontrava o amanhecer .
-
Lá de longe, demandando pelo Brito e carrascais de Mané Venâncio, vem o marulhar das águas que caiam eternamente da Cachoeira das Almas, barrendo pelos campos o aroma dos pau d'arcos. pequizeiros e jatobás.

A névoa seca sobe pelas grotas laterais e Burrucha, Geraldona, Loura, Bastiana, Lurdona, Rosa, Laura, Zefa, Terezão, Pureza, Tonha, Lita, Lindaura e Andrelina, fartas do trotoá, de míseras colheitas, já se recompunham, das carraspanas, com o suco de cana encardido no copo-sujo do sovina Júlio Sena.

E, então, o dia já vai quase clareando...

Dão e Zé Soier, que silenciosamente ficaram na madorna, sem trocarem uma só palavra, durante toda a noite alisando o banco do Amparo, assuntando a resenha e a poesia muda das noites minas-novenses, agora se despedem:


- Boa noite, amigo Dão...
o papo está muito “bão”,
mas até mais logo...

- Boas, seu Zé Soyer;

Lembranças à Contente...
 Até amanhã, se Deus quiser!
.................................................................


E o Congado, com suas saias rodadas de chita e cabaças, umas contendo água-benta e outras apenas águas, na cabeça de uma multidão de negras se sacudindo, já subia a rua do Rosário para a "Lavação da Igreja".
-
"Oi sussa, sussa, suss'eu:

Oi sussa eu, morena ...


“CÊ chupa cana, ispinica o bagaço
Morena bonita, mi dá um abraço”
Engem novo, ta muendo ta
Engen novo, ta muendo ta...

Naquele ano, para a Festa de Nossa Senhora do Rosário era Rei Velho o cantor lírico JOÃO DE MODESTO e, a sua rainha, a professora DONA NEIDE FREIRE.


João de Modesto


"...Cê chupa a cana e ispinica o bagaço, minina bunita, mi dá um abraço:

Engém novo, tá moendo tá,
Engém novo, tá moendo tá ..."

-As roletas do tempo são piorras inexoráveis, pois se submetem apenas ao capricho do grupiê e suas fichas, que nunca caem, fazem o desassossego das mulheres sérias, muitas poucas, que se levantam cedo para enfeitar os altares de tantos templos de antigos padroeiros carentes de rezas.
A proteção celestes, com o tempo que nem sempre urge,
vai-se rareando e as andorinhas se vêem à marcê do destino.

Não só as andorinhas, as borboletas e os demais entes que voam, mas igualmente os quadrúpedes que tranquilamente e inocentemente apascentam no capim-gordura do grotão do "Becam", acreditam na proteção dos santos que, de tão antigos, já não se lembram do ofício sagrado de os proteger e, assim desprotegidos é que todos fazem o verão, os que avoam e os que trotam, tanto no verão como no inverno e nas demais estações mas, é no verão que não trotoam nem jogam, nem surrupiam penosas e nem se quedam ao pinho nos enlevos de serenatas, que sismam e ficam receosos das fendas que se abrem no solo seco da imprevidência humana.

Um dia desses, monótonos e pachorrentos, naquelas plagas do Fanado o véu dos tempos se rasgou em raios e ventos e o cordão de andorinhas que ao sol exibiam suas asas azuis, grimpadas ao longo dos fios elétricos que vinham da Barragem, estes se esticaram e se romperam e fizeram-se espalhar em milhões de inocentezinhas pelas barrancas do Becan que naquele dia ainda chorava em dueto com a chuva fina a cair.

E no lugar em que caiu cada uma dessas inocentes criaturas, fundindo-se com a terra pela força da corrente do raio, associada à fúria conduzida nos fios, nasceu um liriozinho espontâneo e cor-de-rosa, o qual tem na ponta de sua haste um botão em forma de coração verde, já sem esperança, enquanto que os antigos santos, cada um vigilante lá em seu altar, nessa hora se assustaram e prometeram que mais nunca deixariam morrer outras andorinhas.
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Porém, já era tarde, pois delas restou apenas um casal que se arribou para as bandas da "mãe" África, de onde originaram e vieram as ancestrais, e de lá prometeram, pelo telégrafo sem fio, nunca mais voltar para compor novas partituras na fiação da luz dessa cidade de assustadoras acontecências, pois não era esta a primeira e, certamente também não seria a última.


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