SÃO BENEDITO
Na belíssima igreja do Rosário dos Homens Pretos de Minas Novas, além dos altares, das pinturas existentes no teto e das jóias que enfeitam as imagens nos dias de festa, chama atenção a beleza barroca de vários santos esculpidos em madeira, do tamanho normal de uma pessoa.
A imagem de Nossa Senhora do Rosário, com o "Deus Menino" nos braços, nu e gracioso, tem um olhar penetrante como se estivesse nos fitando e vasculhando dentro de nossa alma.
No dia da sua festa é ela transportada em andor pelas ladeiras da cidade, carregado nos ombros dos irmãos de opa, que se revezam piedosos, alheios ao peso imenso que lhes aliviam os pecados, seguindo, durante aquela penitência tão piedosa e tão concorrida, andando descalços pelo sinuoso percurso da procissão que faz lembrar, com seus altos e baixos, o próprio curso irregular e pedregoso de suas pecadoras vidas.
Nessa cerimônia, secular e comovente, seguem solenes, também, os andores levando as imagens de São João Batista, o precursor de Jesus, Santo Antônio de Lisboa, lembrando a devoção dos brancos portugueses, e as imagens negras de Santa Rita, Santa Ifigênia e São Benedito, padroeiros, respectivamente, dos bantos, nagôs e cabindas (os povos de origem da maioria dos membros daquela grande irmandade).
Pela tradição, São Benedito, que teria sido cozinheiro de nobres, é o santo que inspira, no profano da irmandade, os banquetes e as guloseimas que se consome durante todos os dias daquela centenária comemoração festiva que dura, praticamente, todo o mês de junho de cada ano.
A imagem de São Benedito, em seus trajes de frade franciscano, também tem olhos impressionantemente vivazes, num rosto negro perfeito que contrasta com a alvura do Menino Jesus que ele carrega em seus braços como o símbolo de sua dedicação e apreço pelas crianças abandonadas, das quais é considerado como o eterno padrinho.
Consta a lenda que, certa vez, um antigo e malvado zelador da igreja, às escondidas, aproveitando-se de que os altares estavam passando por reformas, torrou no cobre a imagem de São Benedito, vendendo-a para o antiquário Salomão com o qual combinou de esperá-lo, com a encomenda, na vizinha vila de Piedade.
Segundo o que afirmam as pessoas mais velhas do lugar, na calada da noite ia o zelador, soturno ladrão, carregando a imagem imensa e pesada, enrolada e camuflada em uma coberta de algodão, levando-a pelos caminhos tortuosos da Vila da Piedade, enquanto se ouvia, lá dentro do mato, a cantoria dos caboclos - os espíritos dos africanos - batendo em seus tambores:
“Oi, São Benedito, óia lá,
Quem anda comigo,
Vai devagar...
“Oi, São Benedito, óia lá,
Quem anda comigo,
Vai devagar...
Chegando a Turmalina o larápio não achou o tal antiquário comprador, por mais que o procurasse por todos os cantos, e ali ficou perambulando pelas ruas, ensandecido, desorientado e mais nunca voltou para a Vila do Fanado, tendo desaparecido e jamais dando qualquer de suas notícias.
A imagem de São Benedito, misteriosamente, já pela manhã, reapareceu na porta da Igreja do Rosário, todo vestido e paramentado como se fosse um sacerdote na hora de celebrar uma missa!
Da mesma maneira que acontecera com a imagem de São Benedito, que é tão difícil de esconder dado o seu imenso tamanho, as imagens de Santa Rita e Santa Ifigênia que, ao contrário, são bastante diminutas, parecem não ter tanta importância como objeto de arte, mas que na realidade são bastante valorizadas não só pela grande veneração de seus fieis, como pela preciosidade que são consideradas no mercado negro da arte sacra, razão pela qual, também são muito cobiçadas pelos facínoras e até já foram vítimas de roubos em seus respectivos altares, mas que, logo-logo, os furtos foram desvendados e descobertos os seus paradeiros e presos os seus infelizes ladrões, que eram acometidos, enquanto estavam de posse desses objetos sacros roubados, em seus altres, por estranhas vibrações, doloridas e impertinentes e acometidos esses ladrões mequetrefes de comportamentos que os obrigavam a devolver imediatamente o furto ao local de origem.
De acordo com depoimento de João de Deus, que morreu com 101 anos no ano de 2001, quando ocupava o cargo de "general" da Guarda do Rosário, desde o tempo de seu pai que se chamava Rufino e que lhe passou o comando da Irmandade, ele, quando era ainda menino, assistiu a "consumição" em que ficara um rapaz que tentou roubar uma dessas imagens, tendo o endiabrado sofrido com tamanhas e fortes convulsões e inexplicáveis cãibras de sangue, até o momento dem que se viu obrigado pela devolução do objeto roubado.
Essa misteriosa simpatia, que protege o patrimônio material da Irmandade do Rosário - e que já foi comprovada como da maior eficiência - não elimina a preocupação que os membros da irmandade têm tido na disposição de vigiá-la, seja através dos zeladores da própria Guarda, do catálogo minucioso de todas as peças, da sua boa administração e da preocupação atual de se instalar modernos equipamentos eletrônicos destinados a sua constante proteção contra qualquer tipo de sinistro.
O fato é que, das igrejas da cidade, graças talvez a essa simpatia, a mais segura e que tem sido bem preservada é a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a única que tem intacto o seu rico patrimônio, ao contrário das demais que já foram saqueadas até mesmo por bandidos já identificados como pessoas do meio eclesiástico, mas que continuam impunes.
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