ZÉ DO GRÓ
Zé do Gró era um menino muito levado e malvado, que não obedecia a sua mãe, desrespeitava os mais velhos, não ia à missa e naquele tempo já era viciado em uma droga que ele mesmo sabia extrair do carapiá nativo da beira do ribeirão Bonsucesso.
Vivia ele atirando pedras nos teiús e preás, armando laços e arapucas para pegar andorinhas e corujas, espalhando paris malvados para apanhar traíras e piabanhas, mesmo nas épocas das piracemas: era um verdadeiro predador, inimigo da natureza, terror das famílias e das lavadeiras que viviam reclamando de suas malas-artes e estripulias nas beiras de rio.
Tendo ele, em uma certa vez, desmanchado o ninho de uma inofensiva garricha, esta lhe jogou as mais terríveis pragas, pelo mau que estava causando a seus inocentes filhotes e, como todos sabem, praga de mãe, mesmo que seja de uma passarinha, pega que nem fogo de raio em candeia seca.
Dias depois deste fato, quando roubava os ovos no ninho da coruja, moradora da torre esquerda da igreja do Rosário, o mocho ali de plantão aplicou-lhe uma forte bicada no cocuruto da cabeça, o que lhe causou repentina cegueira, da qual mais nunca se recuperou.
Cego e desorientado, perambulava de porta em porta, dependendo da caridade pública, e atormentado pelas pilhérias e aprontações que lhe faziam os antigos companheiros de malvadezas, ficou até que se sentindo desprezado e só, desapareceu da cidade e não foi visto mais em lugar algum.
Passaram-se anos e anos, quando os zeladores da igreja resolveram reformar a torre do relógio, encontrando no vão do forro de madeira e o telhado, um corpo já bem seco - pele e ossos - do cadáver daquele endiabrado que não se sabe como, ali foi parar, talvez para fugir de si mesmo, na dor de sua consciência, para purgar de tantos pecados.
Retiraram daquele local o corpo esquelético do finado Zé do Gró, que mais parecia um quiabo chocho ou um sapo seco, e como ninguém quis enterrá-lo, colocaram-no provisoriamente em um esquife, de pé, perto da grande caixa do relógio, e ali ficou "esquecido" durante muitos anos para dar exemplo aos meninos maus da cidade, até que um dia seus restos foram levados ao cemitério, pelas mãos caridosas de Corinto e Joaquim Camargos, dois dos zeladores, tendo ficado livre a igreja, também, dos morcegos que tanto a empestavam.
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O FILHO DO VENTO
Zé-do-Gró do pé-de-vento
Foi criado ao deus-dará
Nunca tomou seu tento,
Seu rumo nunca achará
Parece até um jumento
Em seu modo de tratar
Sendo tão mau elemento
É coisa ruim, um sarará.
Vive, pois ao relento,
Anda sempre a vagar
Em busca de alimento
Prá sua fome mitigar.
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