GENTIL REI e DR BENJAMIM
Lá naquela minha terra natal podemos encontrar, a qualquer momento e em qualquer esquina,curiosas figuras, legendárias, compenetradas, umas hilárias outras circunspetas, cada uma delas se revelando como verdadeiros monumentos vivos de simplicidade, sabedoria ou de inexplicável maneira de "viver e conviver" como assim se expressava uma delas, muito saudosa por sinal, o inesquecível "Gentil Rei" que se assemelhava, na aparência física e no jeito de trajar, com a figura do homem estampado na embalagem das lâminas "gillete azul", sempre bem vestido com seu terno azul marinho, barbeado e penteado, ostentando um indefectível e luzidio bigode preto, distribuindo flores a suas inúmeras namoradas - que somente ele mesmo sabia que estava namorando - às quais dirigia-se sempre com muito respeito, sendo elas todas verdadeiras "dulcinéias" na visão desse Quixote que às damas que ia encontrando pelo caminho: era um exemplo de cortesia e de boas maneiras, mesmo quando se excedia no consumo etílico em suas "serestas com cangibrina" durante as quais, mesmo se fosse à luz do dia, sempre estava solitário e sem o apoio de qualquer instrumento musical, misturando as modinhas do cancioneiro popular com improvisos reveladores de um coração nostálgico, melancólico e romântico.
Era ele o meu "padrinho" Gentil, um bondoso pai de uma enorme prole, que muito cedo se enviuvara e que se transformara num verdadeiro menestrel, sem se descuidar, entretanto, das funções que exercia - com zelo - como auxiliar de saúde do Posto Sanitário, além de exímio ferreiro e armeiro que ele era, nas suas horas vagas.
Seus filhos são: Jadir, Valdir, Fátima, Marinalva e Valmir, todos meus amigos de infância, dos quais guardo as melhores lembranças, sendo que de um deles (Valmir), tenho de lembrar-me com um carinho bem mais especial, pela nossa grande amizade que depois se tornou num comprometimento mais sério quando ele convidou-me para batizar-lhe a filha Manoela, de quem tenho muito orgulho e pela qual sempre faço, em minhas preces, pedidos de proteção ao Bom Deus, para que cresça muito feliz, junto de sua mãe e de seus outros irmãos.
Desse alegre avô de minha doce afilhada Manoela, até como uma singela homenagem a ele e à desse meu compadre que é o saudoso Valmir, haveremos de contar algumas façanhas que bem definem o humor e a inteligência de um homem trabalhador, honesto e sonhador que não teve oportunidade de estudar e se transformar em um "doutor", como ele dizia que queria ser, tendo sido esta, na sua vida, talvez uma de suas maiores frustração.
O nome de Gentil, junto com o de Dr. Benjamim Monteiro consta, como testemunha assinalada na minha certidão de nascimento no Cartório do registro civil, pois os dois eram inseparáveis amigos, os freqüentadores mais assíduos do estabelecimento comercial de meu pai, Zé Durval, que era o dono do “Bar Dois de Outubro” que funcionava debaixo do sobrado de Naná Barreira (hoje de Áurea) e onde se reuniam, todas às tardes, para uma seção degustativa da "Gilda", da "Nordestina" ou da "Flor da Noite" com torresmo, lingüiça ou lambaris fritos.
Foi durante uma dessas rotineiras funções, lá pelos idos de 10 de novembro de 1950, que eles, em solene comissão acompanharam meu pai até ao Cartório de Paz para testemunharem, em improvisada cerimônia com direito a discursos, brindes de “frisante” e foguetório, o registro de meu nascimento.
Assim, por intermédio desse fato, tinham-me eles como afilhado e eu os tinha, muito honrado, como meus padrinhos em qualquer circunstância, com pedidos de bênçãos e tudo o mais que um bom afilhado tem direito.
O Dr. Benjamim Monteiro muito jovem já era o promotor de justiça da Comarca, o que não o impedia de participar das diversas pândegas promovidas durante o carnaval, na malhação do judas, nas festas juninas, nas partidas de futebol ou nos animados banhos de cachoeiras e na barragem.
Não consta de minha recordação, pois ainda era bebê, mas por diversas vezes, mesmo sob o protesto de meus pais que ficavam muito aflitos, em vão, eles me surrupiavam do berço e me levavam junto deles para suas pândegas e estripulias dominicais. (Talvez seja em decorrência disto tudo que, até hoje, eu também goste dessas alfarrombas!).
Tudo isto, eles mesmos, me revelaram posteriormente.
Dr. Benjamim foi removido para outra comarca, por lá ficou muito tempo e pouco dava suas notícias até que, após 42 anos de sumiço, apareceu-nos certo dia, já velhinho, na residência de minha mãe, conversando, casa adentro, com seus cabelos grisalhos, procurando pelo meu já falecido pai (de que não foi avisado), indagando de seus amigos Gentil, Edgar Pereira, Rui Miranda, Dr. Ataliba, Evaristo, Gato Martins, Valdemar César e tantos outros que ele acreditava, também, que estivessem ainda vivos.
Ao se identificar conosco, principalmente com a minha mãe que logo o reconheceu, e depois de passado aquele momento de surpresa, quando houve um coro de choros prolongados, veio a descontração daquele encontro de velhos amigos, cada um lembrando de um caso, que logo depois se transformou numa alegre tarde de reminiscências e de reencontros com os outros antigos companheiros que restaram e que iam chegando para os abraços, todos surpreendidos pelo grato reencontro depois de tantos anos passados.
A visita à cidade demorou o tempo da Festa do Rosária daquele ano. De volta a Belo Horizonte, poucos dias depois daquela visita tivemos a triste notícia do repentino falecimento daquele "compadre" de meu pai, do qual me lembro sempre com muita saudade, tendo que lhe ser eternamente grato pela imensa amizade que ficou desde o primeiro dia da minha vida, através da sua assinatura no meu primeiro documento como cidadão.
Aquela última visita - quem poderia adivinhar ou o saber?
Infelizmente foi a sua despedida.
* * * *
Gentil Rei durante muito tempo permaneceu viúvo e não quis contrair novas núpcias, cuidando ele mesmo, a seu modo, da criação de seus diversos filhos. Somente muitos anos depois é que ele resolveu por uma nova união, da qual não lhe veio mais filhos.
Desde pequeno eu ia a sua casa, que era vizinha à nossa, e já adulto lá comparecia para jogar truco, ensaiar serestas e preparar galinhas "surrupiadas" em nossos próprios quintais, quando também havia umas e outras, por que ninguém era de ferro.
Na cozinha daquela casa sempre havia panelas sobre o fogão de lenha e sobre ele, debaixo do sótão de rapaduras, pendiam-se rodelas de lingüiças e mantas de carne seca que ali ficavam para defumar, longe do alcance dos gatos eventuais e de outros animais que gostam de ficar passeando pela casa quando seus moradores estão ausentes.
Naquela noite, ao que me parece, já havia bom tempo que a fornalha não era utilizada em sua serventia, pois enquanto jogávamos uma partida de buraco, o nosso amigo Duí se esforçava para acender-lhe o fogo, causando grande quantidade de fumaça, ao atiçar as brasas que se negavam de arder.
De repente, o Gentil, que ali ficava nos servindo os copos, e que também ia dando suas degustadas, surpreso com o que via, em voz alta observou:
"- Duí, olhe, o arroz está saindo da panela e andando pela chapa do fogão!"
Mas não era o arroz, e sim as larvas branquinhas de varejeiras que estavam desprendendo da carne de sol, devido o aquecimento que já lhes perturbava, e que caiam sobre a caçarola e saiam andando enfileiradas na laje preta e luzidia de pedra do fogão.
Depois desse "incidente", que já era previsto, é que então apreciávamos nosso tira-gosto com tranqüilidade, pois sabíamos que a carne de sol já estava livre dos "bichos" e no ponto exato de ser assada no braseiro que o Duí já tinha preparado.
Gentil tinha voz rouca e tremida quando cantava suas modinhas nas quais dava destaque a últimas sílaba, enfatizando o "r" dos verbos no gerúndio.
"- Deixa estaaarr,
Que você, um dia
Há de me pagaaaarr!..
Pois a culpa é toda tua
Desse seu sorriso
Desse seu olhaaaaaarr!..
Deixa estaaaaaaaaaaarr!
Se eu não puder mais te beijaaaaarr!
O meu mundo vai-se desmoronaaaaarr!
E então só me restará desapareceeerr
Ou então, louco, eu hei de te
roubaaaaaarr!
Ainda do Gentil, uma outra passagem de não se esquecer é a de que, certa vez em que estava exagerando em suas bebedeiras, nas quais ele não gostava que ninguém se intrometesse, o seu chefe no Posto de Saúde, que era o Dr. Agostinho, lhe chegou no canto e deu-lhe aquela regulagem.
Ameaçou-lhe que se ele continuasse daquela maneira ele teria que o demitir do emprego, pois já estava passando das contas.
Tudo, no entanto, tornou-se em vão, pois não havia jeito dele evitar o bar.
O bom médico, contudo, já não tinha como tolerar mais, então resolveu lavrar um termo de advertência consubstanciado que lhe fez ler e assinar.
Ele, porém, não concordando com os termos do documento, mesmo tendo colocado o seu ciente, depois de algum tempo ele mesmo fez um adendo abaixo do que estava escrito, assim aditando:
"Discordo da penalidade, de vez que a carne não pode jamais defamar e falar mal do toucinho. Se eu vivo alegre a cantar é porque existe em mim um pássaro canoro e, antes de tudo, um pobre estudante de ciências ocultas e letras apagadas, razão pela qual tenho sofrido nas garras de um carcará-acauã danado que não serviria nem para catar carrapatos nas estrebarias superiores de Londres, onde um dia eu também hei de me bacharelar." (dizem que o texto fora sugerido pelo amigo Dr. Benjamim)
Consumiram com o livro das advertências funcionais e deixaram por lá, naquela repartição, o "pássaro canoro" que antes de chegar ao Posto, fazia diariamente sua eterna via sacra, até o dia em que se aposentou pelos seus 30 anos de bons serviços prestados à saúde.
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