FIGURAS POPULARES
Toda pequena cidade que se preza tem lá suas tradições, seus costumes, seus mitos e suas figuras populares que povoam nossas memórias trazendo-nos tantas recordações da infância e as saudades de tempos alegres e fantasiosos que só mesmo as crianças interioranas, como no meu caso em particular, puderam e muitas ainda hoje podem, felizes e venturosas experimentar.
Estórias de assombração, mula-sem-cabeça, saci-pererê, zumbi, caboclos, almas-penadas, mulher-do-padre, casas de fantasmas, mão-sêca, corcundinhas, cabra-caolho, velha-careca, carneirinhos e tantas outras estripulias folclóricas que, até hoje, povoam as tortuosas ruas da centenária cidade de Minas Novas.
CANÇÃO DE DUÍ
Jovina na sua janela
Vê Júlio Sena e a bengala
De camisa de flanela
Carregando velha mala
Zé Brandão com puído terno
Na Rua das Flores andando
Onde o doce de marmelo
Ia ao pó de cal misturando
Tiqüi da sua sinuca
Não trocava nem o pano
Dentro de sua baiúca,
Mais rico ia a cada ano.
Zé Egídio com a sanfona,
Que saudosa nostalgia,
Cantando com Geraldona
Na mais divertida folia
Com pó de arroz e batom
Enfeitava-se toda a vadia
Cantando bom e alto som,
Aquela sua triste latumia:
“Me leva, me leva, me leva meu bem
me leva contigo que eu quero ir também;
Amanhã cedinho vou pegar o trem
E junto comigo não levo ninguém
Adeus meninada até o ano que vém.
Me leva, me leva, me leva meu bem ...
“Meu nome é Noveralda.
E eu não sou daqui,
Sou uma morena levada
Cheirosa como pequi
Para tu que não sabes,
Sou doce mel de jataí
De Regulador Valadares
Bebo pinga com murici”.
Gosto de comer jaca
E de fritar tanajura
Viro uma jararaca
Na venda de Juraci
E o Quinca Martins matutando
Façanhas da escrava Isaura
E nós todos, bobos, sonhado
Com os seios da linda Laura
Moça feita só de encanto
Cheirosa e tão bela flor,
Comigo compartilhando
Meu lençol, meu cobertor.
Sapeca como nunca eu vi
Morena, esguia e dengosa,
Trazia-me, junta, a Nelci,
Linda, nova e buliçosa.
Na Rua do Fogo a Madalena
Acoitando muita menina
No Pequi, a Maria Helena,
Zezinha, Ôla, Lia e Bina
Eufrásia com seu mantor
E a Loura velha alcoviteira
Na farmácia do Agenor
Tratoando a noite inteira.
Hoje não é como dantes
No tempo do Rabicó,
Que tinha Laura Abrantes,
E a outra Laura bá, ró ró ...
As festas eram no teatro
Com muito refinamento,
Pras moças de “fino trato”
E de bom comportamento
Hoje tudo é diferente,
E para todos é o forró
Baile de Tião Contente
Um gostoso forrobodó.
Onde o samba cadente
Não tem um ritmo só
É festa para toda gente
Até quem cheira loló.
É tempo de democracia
O resto é grande besteira
Vamos juntos nessa folia
Na saudável brincadeira.
Sem fazer estripulia,
Ou tapar sol com peneira,
Brindemos a alegria
Sem briga ou bebedeira.
Eu que bebia e fumava,
Vícios não os tenho mais,
E como sempre cantava,
Inda canto os madrigais.
Sou passarinho canoro,
Arremedo até pardais,
Mulheres belas namoro
Mas eleições, nunca mais!
Deus me livre de eleitor
Êta bicho falso, nunca vi:
Nem Judas tão traidor,
Vota contra e ainda ri.
Que vão todos pro inferno
Estou indo é “pro meu rio”,
Seja no calor ou no inverno,
Cabra safado eu não confio.
CANÇÃO DE GENTIL
“ Deixa estar,
Que você um dia
Há de me pagar
Pois a culpa
é toda sua
Do seu sorriso e do seu olhar
Deixa estar.
Que se não me desculpa
Por tão grande culpa
De que será só minha
De não estar sozinha
E de que não reluta
Em só me amar.
Deixa estar!...”
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CANÇÃO DE VALMIR
(enviada através de M. Ramiro)
“Quem manda no terreiro é o galo,
e você não quer que eu fale, mas eu falo,
E, de novo você quer brigar:”
“Mas, seu lugar é na cozinha,
(Vivia eu a cantar)
Você descascando batatinha
Pra fazer nosso jantar.”
--“Você é de longe,
Só veio aqui pra meu penar:
Deixa-me em paz,
(eu não me queixo)
Olha que eu deixo,
Se você quiser, pode voltar.”
Fico chorando baixinho,
Não quero mais lhe importunar
Desejo apenas um beijo
Mas imploro-lhe que fique
Pois aí é o seu lugar.
Eu, agora me despeço:
Meu coração era de aço
Meus filhos, dele, um pedaço,
É o seu perdão que eu peço.
Pois estou muito longe,
E daqui, eu nada vejo,
Inda que possa enxergar,
É meu atual e maior desejo,
É a paz, se é que a mereço,
Para todos, aí sempre amar.
A vida é templo da paz
E a paz é tempo de Deus
Na terra é chama voraz
A saudade dos dias meus
Pois não soube aproveitar
Tanto ouro, tanta prata,
Tanta luz tinha a brilhar,
Oh vida pra mim ingrata,
Como eu lha quis gozar.
Hoje, nada mais me seduz:
A vida é vaga e passageira,
Tenho a alma e busco luz;
Vejo ao longe bela clareira,
E dentro dela enxergo Jesus.
CANÇÃO DE BETO BUCO
CANÇÃO DE BETO BUCO
Canção do Menino Beto
Saudades, quantas saudades
Dos tempos que lá se vão,
Quando não havia maldades
Nem politiqueiro e ladrão.
Lembranças, tantas lembranças,
Das quadras que lá se vão,
Das meninas dos lambanças,
Do esconde-pique no Sobradão
Dos quintais, nas cercanias,
Pomares, mangas, canaviais
do Mirante e das companhias
nas praias, rios e boninais.
Quanta fruta boa existia
Ingá, caju, pitanga, cajá,
Pinha, abacaxi, melancia
Cola, Belo e o “Tacacá”.
Quanta reza e ladainha
Tínhamos até de aturar
Para que à sua madrinha
Não chegasse ele a contar.
Senão perdíamos a festa
Que era nossa diversão
Hoje nada mais presta:
É só plástico e poluição.
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