Tiqüí meteu o pé na etiquara quando o dia ainda era o grito de carnaval que o CRAMN de Dr. Agostinho promovia e realizava no Sábado: perdeu ele a compostura de tradicional folião, a etiqueta e a micareta, pois bebeu toda a pinga com jurubeba que tinha direito, além da Flor da Noite em excesso que lhe passou a perna e o fez entrar numa lombeira e o colocou a jiboiar no giráu até o raiar de quarta-feira, quando o jazz "Fa-La-Si-Mi-Queres", no salão do Teatro Municipal, já tocava os últimos acordes de "A Colombina".
Meio atordoado, com uma cachoeira zumbindo nos ouvidos e aquele terrível gosto de guarda-chuva velho na boba, que o fazia ingerir canecas e mais canecas d'água com fubá, pulou imediatamente da cama, tomou logo um banho de cuia, meteu apressadamente sua fantasia de borboleta azul que ficara lhe esperando dependurada no cabide do seu quarto, e já descia o degrau para ganhar a rua, quando no corredor de sua casa deu de cara com o seu filho Tamiro que, muito assustado, o indagou:
"- Uai, pai, praonde qui o sinhô pensa que tá indo?”
Ao que Mário, surpreso pela "improcedência" da curiosidade e diante do que ele naturalmente pensava que era óbvio, respondeu:
“- Eu que lhe pergunto: Ondé qui tá a égua da sua mãe?
“- Eu que lhe pergunto: Ondé qui tá a égua da sua mãe?
“- Uai, pai, mãe foi prá missa cum tia Valcira.
“- Sua mãe e os padres num tem é o que fazê: qui dia qui já se viu de rezar Missa no meio do carnaval?
“- Uai, pai, o carná já se acabou e hoje já é quarta-feira da Quaresma! O sinhô é qui bebeu pinga demais e mãe mais tia Valcira tiveram que te carregar pro catre e lá o sinhô ficou obrando, lançando e roncando por mais de três dias, no que foi prcciso até tomar soro na veia.
“-Arre... destá que essas éguas me pagam..."
Assim protestou o carnavalesco frustrado, colocando a sua culpa de ter perdido o baile momesco daquele ano, não no efeito de sea próprio descontrole etílico, mas na bondade de sua esposa que o acudira e o fizera ficar recolhido à cama, completamente fora de combate.
Não conformado com o prejuizo que lhe restara, correu então o Tiqüí até à cozinha, ajuntou lá umas latas velhas, umas frigideiras e palanganas e, com um cambito comprido na mão, obrigou Tamiro, Cira, Rey, Jaime Chapa e Adelson a seguirem-no, rufando freneticamente a inusitada bateria, indo todos até à porta da igreja de São Francisco onde uma multidão de fiéis - atônica - viu o maluco do Mário Tiqüí fantasiado de Borboleta Azul, pulando um frevo e a puxar sua esposa Zinha e a sua cunhada Dona Alvacira, beatas e compenetradas que acabavam de ouvir a missa e já voltavam pra casa com suas testas todas lambuzadas de cinza - para acompanhá-lo, em plena manhã de quarta-feira, naquele novo bloco carnavalesco que acabava de ser estreado e que, até chegarem à pracinha do Teatro, já estava arrastando para a folia bissexta mais de uma centena de novos foliões que ao grupo festivo, aos montes, se aderiam.
Ficou criado, assim, o "BLOCO DO TIQUÍ", que em Minas Novas desfila religiosamente, com seus foliões bissextos, pelas ruas da cidade tão logo amanhece o dia da quarta-feira de cinzas.
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