A CIDADE
Enquanto nas grotas e nos campos a labuta diária não permitia ao povo desviar-se da rotina, nesta, aonde, mesmo não havendo a instrução institucionalizada, aprendia-se pela lógica da inteligência humana os rudimentos da natureza, o respeito à vida e o amor aos semelhantes, na cidade os moradores tinham as facilidades, decorrentes da proximidade com o poder, com suas vantagens e suas implicações, mesmo sendo uma cidadezinha do interior, notava-se, claramente, o grande paralelo que existia entre o comportamento de ambas as populações.
O município, cujo território sempre foi muito grande, tinha na sede a concentração dos serviços que, de há muito, tinham adquirido a má fama, conquistada na deterioração cada vez maior, da administração pública que, naquele tempo, já era viciada pelos fatores perniciosos do nepotismo e do cabide de empregos, práticas das quais se recorrem os coronéis para garantirem, com o controle sobre aqueles, a efetivação dos cargos e a hereditariedade funcional, para assegurarem, também, a sua própria eternidade no poder.
A grande maioria dos "cidadãos" se constituía de funcionários, bem remunerados, em todos os cargos, lotados na Câmara Municipal, no Fórum da Justiça, nos Correios e Telégrafos, e nos Grupos Escolares. Em qualquer repartição pública fervilhavam os vários servidores que obedeciam cegamente ao chefe político local, sem levar-se em conta a hierarquia e sem se preocuparem com o cumprimento de suas obrigações funcionais.
O sistema burocrático, que não cobrava resultados, sempre incentivou a ociosidade, a indisfarçável mãe de todos os vícios e, assim, não havia muita preocupação com horários, com a qualidade de atendimento, com o treinamento profissional nem a simples preocupação com a formação intelectual ou técnica dos empregados, que se intitulavam de servidores, o que também se refletia e se reproduzia, fielmente, no comportamento familiar, na condução da vida doméstica, onde os mais elementares afazeres do dia-a-dia ficavam a cargo de um batalhão de empregados e auxiliares de serviços, consolidando o sentimento generalizado de que, com tais sinecuras, já estariam todos garantidos, assegurados os proventos e os ordenados que eram, de fato, pagos religiosamente pelo erário e que eram considerados como vitalícios.
Existia na cidade um número razoável de casas de jogos, de carteados e bilhares, e salões animados nos quais os divertimentos corriam soltos, sempre culminando na famosa Rua do Fogo onde ficavam as chamadas casas de tolerância, ou onde moravam as damas pouco recomendáveis mas que eram sempre muito bem visitadas.
A cidade desta forma era uma referência de ociosidade, de desperdícios e de desregramento moral. A hipocrisia, palavra hoje banalizada, já era exercida, naquele tempo, por detrás de alguns lares, e de muitos altares, onde a fidelidade conjugal, assim como o celibato, eram letras mortas, tanto no código civil como nos cânones, aos quais se recorriam como rigorosos e eficazes instrumentos apenas quando seu uso era para a punição da plebe e dos indefesos.
Não era a sociedade local muito fértil para florescer bons profissionais, senão de alguns poucos artistas que se dedicavam ao atendimento específico dessa classe privilegiada, sendo que, o mesmo não ocorria nos distritos e nas vilas próximas, onde era bem menor a circulação do dinheiro público, havendo, porém, a necessidade de se conseguir trabalho produtivo e por isto mesmo, todos tinham que se esforçar para ter uma fonte de renda, honesta e suada, para poder pagar os impostos e manter dignamente suas famílias, estabelecendo-se, aí, com mais rigor, as leis implacáveis do mercado pressionando através da concorrência, de ter, para essas populações, a obrigação e a necessidade de melhores prestadores de serviços, de oferecer melhores condições de entrega, de prazo e preço, buscando a preferência e a fidelidade dos perdulários consumidores da cidade, resultando que, nessas localidades periféricas, a real afirmação de uma economia, mais produtiva, mais diversificada e democrática.
Eram, por esse tempo, muito valorizados os ofícios de alfaiates, de músicos, de floristas, de doceiros, de confeiteiros, de engomadeiras, de pintores de paredes e, principalmente, de ourives e de modistas, profissões ligadas ao luxo e, desta forma, localizavam-se fora dos limites da antiga cidade os oficiais de outros serviços, aos quais demandavam as classes mais pobres, por serem as condições do comércio exercido nas vilas mais favoráveis, concentrando-se, na cidade, as lojas refinadas, mais especializadas, portanto as que ofereciam produtos mais caros e cuja aquisição se tornava impraticável para a grande maioria dos habitantes.
Quem procurasse pelos serviços de ourivesaria, encontrá-los-ia em abundância e primor na vila de Santa Cruz da Chapada; os bons alfaiates e celeiros, nas vilas de Sucuriú e Água Limpa; os artesãos, carpinteiros e ferreiros, no Comercio da Piedade; os alambiqueiros, tropeiros e arrieiros, no arraial do Gomes, que era a porta do Sertão e por onde, obrigatoriamente, passavam as tropas e as boiadas. Essas localidades gravitavam na órbita minasnovense.
A Vila de Piedade, pela sua localização estratégica e proximidade com o rio Araçuai, pelo qual vinham as canoas dos fornecedores, era o entreposto preferido dos tropeiros, o último pouso de todos os viajantes que demandavam à cidade, já que os cometas e mascates, estes sempre se adiantavam, na jornada de suas viagens, e preferiam os aconchegos das pousadas, e do acolhimento especial, bem mais salgados no preço, em que os esperavam as donzelas e as senhoras da “rica” sociedade local.
Um dos serviços públicos, concentrados na cidade, de grande importância para a população, era o dos telegrafistas e guarda-fios, pois passava pelos agentes dos Correios, um razoável volume da correspondência, privada e oficial, de encomendas de toda espécie, de vales e valores, de revistas especializadas em diversos assuntos, como moda e música, além do serviço de reembolso-postal, o que exigia, além de bom número de escriturários, estafetas e mensageiros, o emprego de auxiliares para tratarem dos animais e dos demais serviços de transporte das pesadas malas de lona verde e amarela, devidamente lacradas com selos de chumbo.
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