-I-
AS IDIOSSINCRASIAS DO VALE:
UM CONTO SEM REIS
Durante mais de vinte anos estive em contato direto com as diversas comunidades rurais localizadas nos municípios de Minas Novas, Berilo, Chapada do Norte, Turmalina, Leme do Prado, Francisco Badaró, Jenipapo de Minas e José Gonçalves de Minas, todas no Médio Jequitinhonha.
Nessas comunidades, pequeninas, distantes e humildes, espalhadas por entre os espigões escalavrados, os carrascais, as grupiaras e os serros, muitas perdidas no meio do sertão esquecido e outras ilhadas nos intermináveis chapadões de eucaliptos, a vida ali pulsa forte, embora rotineira e sofrida, marcando com sabedoria a obstinação de um povo diferente, uma gente esperançosa que aprendeu a não ficar passivamente olhando as horas e os dias que se sucedem, pois que não tem medo do destino e sabe perfeitamente dimensionar o poder que tem em suas próprias mãos, que diariamente produzem verdadeiros milagres, homens e mulheres que desafiam as distâncias e as intempéries, mas que não perdem a dignidade n , , não se descuidam da sociabilidade, não se deixam corromper pelo mundo e jamais se esquecem das suas tradições e origens.
A vida simples e pacata nessas paragens, entretanto, não é marcada somente pelo sofrimento e pela miséria, como apregoam os incautos, como divulgam aqueles que nada aprenderam sobre o que é esforço comunitário, os que nada sabem sobre o que é o poder da cooperação mútua, os que desconhecem a capacidade criadora da fé e, acima de tudo, daqueles que perderam as raízes, daqueles que se desvincularam dos ensinamentos cristãos e não se norteiam mais pelos signos da união, do respeito e da amizade.
É pura falácia a afirmativa de que aquela é uma região pobre, uma região sem potencial, sem perspectivas econômicas, sendo assim, sob este falso prisma, inviável sob todo e qualquer aspecto, como divulgam os exploradores e algozes daquele povo.
Seria muito mais correto que os detratores daquela região, rezando o seu confiteor, batessem no peito e reconhecessem suas imensas culpas, pelo que vêm fazendo há décadas, no sentido de tornar cada vez mais pobre toda aquela população, pois o que deveria ser admitido é que essa região tem sido vitimada pela ação dos políticos corruptos e oportunistas, muitos até naturais da região, que preferem ver sua terra, para melhor dominar e enganar o povo, cada vez mais empobrecida, esvaziada, depredada e espoliada.
Mas é justamente ali, nas profundezas daquele Vale, que se podem sentir, de fato, a riqueza da vida comunitária, a inteligência da solidariedade, a grandeza do que é a valorização do homem como ser humano, avaliar o tesouro que se revela na harmonia, na hospitalidade, na pureza e no encantamento que existe nas coisas mais simples e comuns, na poesia mágica e profunda do folclore, do milagre do artesanato e da energia que brota abundante a partir de um quase nada, de uma prodigalidade que se irrompe a partir de um gesto.
Do fundo sombrio daquelas grotas esquálidas, onde já estão minguadas as lavras do ouro e cada vez mais raros os diamantes, está em processo adiantado mais um tipo de exaustão desenfreada, a monocultura criminosa dos campos largos, dos sertões e das últimas capoeiras.
Aquelas terras, chamadas de Vale da Miséria, eram férteis, produtivas e ali predominava a brancura do algodão que vestia meio mundo e aquele inferno verde de eucaliptais intermináveis, onde não rastejam nem cobras, nem lagartos, nem mesmo voam insetos, carcarás ou gafanhotos, ali hoje as multinacionais escondem, estrategicamente, a fabulosa riqueza mineral daquelas plagas, enquanto a cultura predatória e sinistra vai sugando nossas águas, eliminando os mananciais, matando nossos rios e empobrecendo, cada vez mais, as nossas terras, espoliando nosso povo, nada deixando em troca pelo carvão que enche de fuligem o pulmão do pobre ruralista, enquanto inunda de energia o Vale do Aço e que faz rolar, de lá. como bobinas e máquinas, a produção industrial dos grandes centros.
Por aquelas trilhas, córregos e corruptelas, por muitos anos tive a ventura de respirar o ar puro e me fartar com o alimento milagroso que dura apenas um dia, mas que nunca falta nas mesas simples e compartilhadas, sorvendo os ensinamentos de um povo pacato e bom, no meio de uma sabedoria que os néscios não compreendem e nem aceitam como cultura.
Mas tem ali um povo forte, que persiste com valentia, uma gente simples e obstinada, uma população unida e idealista, que não se abate diante das intempéries e decepções.
Nesses lugares ditosos eu compartilhei de bons momentos e a cada vez que lá chegava, era como se eu estivesse chegando na minha própria casa, onde comparecia frequentemente, na condição de funcionário de carreira do Banco do Brasil, fazendo acompanhamento para o setor de operações (SETOP), elaborando fichas cadastrais, colhendo proposta e, principalmente, como um dos coordenadores do FUNDEC – Fundo de Desenvolvimento Comunitário.
Foi um tempo de muito aprendizado, de fazer muitas amizades, que felizmente tenho ainda a ventura e o privilégio de conservar, mas do qual restou, porém, algumas decepções, tanto para mim, como para as populações envolvidas, e que da minha parte, ainda vou remoendo, sempre com muita esperança e com o firme desejo de ainda verem concretizados muitos daqueles sonhos que foram ficando em cada lugar.
O Fundec, sem sombras de dúvidas, era um programa audacioso e pioneiro, quando pude avaliar e elaborar diagnósticos que, se tivessem sido levados com maior seriedade pela direção geral do BB, aquele conjunto de medidas que seria um “piloto” poderia ter sido a base de um plano maior.
A implantação dos programas previstos poderiam ter antecipado as ações do Fome Zero, tendo agora, como certo, que os seus objetivos teriam sido alcançados com facilidade, de forma tranqüila e duradoura, entretanto, se revelaram, infelizmente, em mais uma fracassada e amarga experiência marcada pela demagogia e pela falta de compromissos daqueles que realmente detinham o poder mas que não tinham nem a vontade nem a coragem, pressupostos essenciais e determinantes para solucionar, de vez, com a crise social, gerada, reproduzida e eternamente alimentada, naquela região, pela completa ausência do Estado, pelo abandono crônico por parte dos políticos mercenários e mercantilistas, e pela exploração predatória das empresas irresponsáveis, todos mancomunados para espoliarem os já minguados recursos naturais do Vale do Jequitinhonha.
Durante muito tempo era o Banco do Brasil, além da Emater e a Igreja Católica, a única instituição pública que se fazia presente naquelas localidades, e apesar das imensas dificuldades e até mesmo do fiasco, tudo, para mim, foi muito gratificante e ainda me recordo, com saudades, de cada pessoa e de cada lugar que conheci.
A falta de apoio dos administradores do Banco era algo que me indignava, pois tudo eles faziam no sentido de engavetar relatórios e projetos. Demonstravam, claramente, sua verdadeira ojeriza, durante as reuniões, sempre desclassificando o nosso trabalho e inviabilizando, através de boicotes e outras atitudes menores, toda e qualquer articulação que visasse atrair mais atenção ou que despertasse para a necessidade de aplicações e investimentos de que aquelas comunidades tanto necessitavam, até hoje pendentes de solução.
Como a maior parte dos recursos vinha de parte dos lucros da instituição, os gerentes, temerosos com o risco de não atingimento de suas metas, desestimulavam, quanto podiam, a ação do Fundec e muitos deles, despreparados para a função, não acreditavam no Programa ou tinham desprezo pelas questões sociais, dando ênfase e mais créditos para os segmentos que traziam lucro imediato paras as agências, sempre muito cobradas, nesse período, para os crescentes resultados financeiros.
As comunidades que fossem às favas!
- II –
RELAÇÃO DAS LOCALIDADES
ABELINO DA MOTA
Na verdade, este éa o nome do dono da fazenda, localizada nas proximidades de Baixa Quente, cujo proprietário sempre foi uma referência para todos da região, tanto pela sua grande amizade, como pela sua boa disposição e solicitude, colocando-se sempre como forte liderança comunitária.
ABREU VIEIRA
A comunidade do Abreu, como é mais conhecida, às margens do Rio Araçuaí, fica no município de Berilo, e tudo indica que era a sede de uma das propriedades do inconfidente Domingos de Abreu Vieira da Mota, tenente-coronel de Minas Novas. Em Abreu, até hoje, a principal produção agrícola é o algodão, sendo intensa a atividade de tecelagem nos primitivos teares de pedal
ACAUÃ
Hoje é um dos distritos do município de Leme do Prado. A povoação se desenvolveu a partir da instalação da Fazenda Experimental da Mata da Acauã, hoje transformada em Reserva Biológica do Estado, onde existe, apesar da grilagem e da depredação ambiental, uma boa diversidade da flora e da fauna. Toda essa área fazia parte da Fazenda São Roberto – Ribeirão das Correntes, de propriedade do Cônego José Barreiros da Cunha, que ocupava as terras baixas e os espigões de São Miguel e São Domingos, que iam desde a margem esquerda do Rio Araçuaí, até a margem direita do Rio Jequitinhonha, nas antigas divisas com Itacambira, no tempo em que essa região pertencia o município de Minas Novas..
ÁGUA LIMPA
Nome da pequena povoação rural, no município de Berilo, à beira do córrego de mesmo nome, que nasce no lugar denominado de Cajamunum, no município de Chapada do Norte.
ÁGUA SUJA
O Ribeirão da Água Limpa, a partir da divisa com o município de Berilo, passa a se denominar de Ribeirão da Água Suja, não é mais perene, correndo somente nas estações chuvosas, e tem esse nome porque suas águas eram sempre barrentas, até chegarem ao Araçuaí, em decorrência das atividades de garimpo, deixando nesse novo curso uma longa faixa avermelhada que não se misturava às águas, por várias léguas da comprida vazante.
Na barra desse ribeirão ficava a antiga Fazenda de João de Castro, com uma imensa roda d´água que movimentava o engenho e o moinho, com enormes dornas para envelhecer cachaça. Fazia parte do conjunto arquitetônico, além do casarão sede, a capela de Nossa Senhora do Rosário (já demolida e saqueada) e o Solar do Inconfidente Abreu Vieira, este ainda existente, quase em ruínas, com seu alpendre bem alto, o óculo e a canhoneira, de onde ainda hoje se pode descortinar, a perder de vista, a calha do rio, por onde chegavam os canoeiros e de onde o fazendeiro controlava, com uma luneta, a atividade dos lavradores e dos garimpeiros. Na ladeira que vai do antigo porto até a esplanada da cidade, fica a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, hoje restaurada pelo IPHAN.
ALAGADIÇO
Antiga fazenda que pertencia ao Capitão Álvaro Pimenta, originalmente com mais de 20.000 hectares , hoje divididos em várias fazendas de café dos municípios de Minas Novas, Angelândia, Setubinha e Capelinha, além da lendária Fazenda da Fundação Pietro Sallini, pertencente ao grupo Nutrix, onde existem, em estado de abandono, campo de pouso, um conjunto de residências para colonos, eletrificação da Cemig, equipamentos e máquinas agrícolas, um hospital completo e uma luxuosa mansão fortificada onde, segundo relatam os moradores do lugar, por muito tempo ficou ali escondido, com toda mordomia, o mafioso italiano Tomázio Buschetta.
A influência daquela fundação era tão grande, que em 1980, quando da visita do General Figueiredo a Minas Novas, como Presidente da República, na Festa dos 250 anos da cidade, este sobrevoou a fazenda, com seus ministros e depois, em cerimônia com a presença de várias autoridades, inclusive o Embaixador da Itália, foi acionado, oficialmente e com toda a pompa, o comando do tronco de eletrificação da CEMIG, exclusivo para a propriedade, quando nem os distritos do município, com exceção do de Leme do Prato, contavam com tal benefício.
ALTO DOS BOIS
Fazenda no município de Minas Novas, próxima ao distrito de Ribeirão da Folha, onde existia um Quartel da Divisão de Infantaria que dava cobertura militar, contra os índios botocudos, aos viajantes que por ali transitavam, vindos da região de Porto Seguro, na Bahia, demandando a região do Mucuri, conforme relatos dos historiadores Auguste de Saint Hillaire, na sua obra, Viagens pelo Brasil, e pelos relatos dos naturalistas Spix e Von-Marthius.
Existe uma versão, de fonte em estudo, que relaciona o nome do lugar, ao Alferes Alphonsus du-Bois, que era o comandante do forte compatriota e amigo do francês Sainte-Hillaire que ali fora visita-lo, em 1811, quando de sua passagem por Minas Novas.
ANA CIRINA –
Antiga sede da Fazenda de Ana Cirina, que era amante de Jacinto Acavajé, rico fazendeiro e contrator, pais do Cônego Barreiros.
Hoje é propriedade de José Sena Costa (Finusca), rico comerciante da cidade de Minas Novas.
ANA FÉLIX
Pequena comunidade rural, próxima à cidade de Minas Novas, que em conjunto com Macuco, Mata-Dois, Bandeira Grande e São Benedito do Capivari, guardam costumes e tradições que as caracterizam como remanescentes de quilombos, inclusive pela predominância do elemento de cor negra.
Ana Félix, que faleceu com 108 anos, era uma ex-escrava, muito respeitada como parteira, raizeira e benzedeira e dela existem ainda vários descendentes, tanto em Minas Novas , como em Chapada do Norte, alguns com bons conhecimentos dessas atividades, que por ela lhes foram confiados como dote.
ANDAIME
Conjunto de pequenas propriedades rurais, de criadores de vacas leiteiras, nas proximidades de Minas Novas, cujas pastagens, curiosamente, que ficam em patamares bem definidos, como um andaime, em toda a extensão de um longo e sinuoso morro, íngreme e escorregadio, na estrada que vai para Chapada do Norte.
Nesse trecho rodoviário já ocorreram vários acidentes fatais, como foi o que vitimou o sargento reformado Pedro de Cirilo e os operários Vicente de Chico Louro e José de Jessé, no qual também se feriram gravemente várias pessoas da cidade, que iam trabalhar em uma obra de transmissão/eletrificação do antigo DAE, que foi sucedido pela Cemig.
ANGICOS
Córrego que dá barra no Araçuaí, em cuja grota moram diversos lavradores de cana e milho, no município de Minas Novas.
No diagnóstico de 1989, elaborado para o Fundec, previa-se, como prioritária a eletrificação rural, com ramais que beneficiariam toda essa região, a partir da comunidade de Fanha, passando por Boa Vista, Buriti Paraíso, Macaúbas, Mazargão, Fazenda Velha, Beira do Rio, Gouveia e Leme do Prado.
ARAUJOS
Comunidade rural próxima ao Povoado de Ribeirão dos Santos, onde predominam as atividades de alambique, que seria beneficiada, com recursos do Fundec, prevista a instalação de uma cooperativa sucro-alcooleira, com a possibilidade de utilização da mão-de-obra dos cortadores de cana que não mais precisariam migrar para os canaviais de São Paulo, fixando-os na região e aproveitando, tanto o potencial do lugar, como a experiência dos trabalhadores, que de bóias-frias, tornar-se-iam sócios, naquele almejado empreendimento.
O projeto, na ocasião, despertou a atenção do empresário Dr. José de Alencar, hoje Vice-Presidente da República, que visitou o local em 1990, quando era o presidente da FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), tendo ele, naquela oportunidade, descoberto seu parentesco com uma moradora da região, de nome Antônia Gomes da Silva (Tonica) cuja origem, pela coincidência de nomes, aparência física e documentos pessoais, confirmaram ter parentesco com seu pai, o sr. Antônio Gomes da Silva.
BAIXA QUENTE
É considerada a região como “celeiro do município de Minas Novas”, com terras férteis e valorizadas. O distrito, que foi criado em 1.999, é uma povoação bem antiga, que tem uma igreja dedicada a São Sebastião do Indaiá, construída em 1912 por Carlos Reginaldo Barreiro, irmão do Cônego Barreiros, este tido como o fundador do lugar, pois ali ele tinha uma enorme casa, que ainda existe, que depois pertenceu ao comerciante José Guedes de Figueiredo, casa paroquial e pousada dos viajantes que vinham da cidade e que iam tomar a “maria-fumaça”, para Teófilo Otoni, na localidade de Engenheiro Schnnoor, quando por ali passava a Estrada Férrea Bahia-Minas.
No diagnóstico elaborado para o Fundec, durante a administração do Prefeito Felipe Mota, em 1989, previa-se a instalação, nesse local, de uma estação de beneficiamento, refrigeração e empacotamento de leite, para incentivar e viabilizar a atividade pecuária, que sempre foi a predominante, o que alavancaria a economia de toda região, abrangendo toda a bacia leiteira do Rio Setúbal (Novo Cruzeiro, Francisco Badaró, Jenipapo de Minas, Minas Novas e Chapada do Norte).
BANDEIRA GRANDE
Comunidade rural que fica a 10 km . de Minas Novas.
Sede da antiga fazenda de Durval Ferreira Coelho, hoje pertencente ao filho dele, Sebastião da Conceição Coelho.
Essa localidade era utilizada pelo antigo proprietário para manter os animais de sua tropa, no seu serviço de guarda-fio e de transporte de cargas, passageiros, viajantes e encomendas, pelas trilhas chamadas de “estrada real”, que iam da cidade para o antigo distrito de Chapada, Berilo e Sucuriu e que também dava acesso à cidade de Araçuaí, quando não havia ainda o transporte rodoviário.
BARBOSA
Comunidade na divisa dos municípios de Berilo e Virgem da Lapa, cuja demarcação é o córrego de mesmo nome.
Antigamente era conhecido como Córrego dos Velhacos, pois ali, sendo também a divisa das comarcas de Minas Novas e de Araçuaí, ficavam homiziados os fugitivos da lei, que em qualquer eventualidade, ao serem descobertos ou abordados pelos oficiais de justiça ou pela polícia, que não podiam atuar fora de suas jurisdições respectivas, os fujões tinham apenas o trabalho de pular para o outro lado do córrego, onde ficavam impunes até que se providenciassem as tais de cartas-precatórias, entre os juízes, que só se cumpriam se a captura do criminoso fosse de interesse dos chefetes locais, também chamados de “cabos eleitorais”, “quarteirões” ou de “bate-paus”, que faziam, e ainda fazem, destes recursos várias barganhas no interesse dos coronéis, dos prefeitos e de alguns políticos mais graduados.
BARRA DO FANADO
Comunidade rural que fica na confluência dos rios Fanados e Araçuaí, demarcando a tríplice divisa dos municípios de Minas Novas, Leme do Prado e Chapada do Norte, onde lideravam os agricultores Alcides (também raizeiro e benzedor) e a matriarca Gorete, uma mulata forte e cantadeira de terço, que rodopiava e dava pulos enormes, no meio do terreiro, ao som dos batuques de tambus, tendo um litro de cachaça equilibrado na cabeça, durante o tempo todo, bem como nas evoluções do Congado de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário.
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BARRAGEM
Comunidade rural formada nas proximidades da Barragem das Almas, no Rio Fanado, que se beneficiam da energia gerada na antiga usina hidrelétrica da prefeitura e que antes da CEMIG atendia também as casas da cidade.
Localizada a 6 km . do centro da cidade, é servida com um acesso todo asfaltado, tem uma razoável estrutura utilizada como balneário e ponto turístico principal do município, carecendo, entretanto, de uma melhor administração para adequar o funcionamento, aproveitando todo o potencial, dentro de critérios de higiene, segurança, urbanidade e de proteção/ preservação do meio-ambiente.
É famoso o carnaval que ali tradicionalmente acontece, atraindo foliões de todo estado.
BARRAGEM DE SANTA RITA
Acampamento e canteiro de obras que restou da época. local em que se iniciou a construção do complexo daquela que seria a Usina Hidrelétrica de Santa Rita, hoje totalmente abandonada, na confluência dos rios Fanado e Araçuaí, cujo lago abrangeria uma extensão de 45 km2, inundando terras improdutivas localizadas nos municípios de Minas Novas, Leme do Prado e Chapada do Norte.
Chegou-se a construir uma ponte enorme, de cimento armado, que lá está, sem as cabeceiras, sobre o rio Araçuaí, sem dar acesso, de ambas as margens, para nenhuma das localidades, obrigando os habitantes da região a darem imensas voltas para o acesso às cidades próximas, sendo que esta estrada, se tivesse hoje concluída, encurtaria de 110 km . para 23 km . a distância entre Minas Novas e Leme do Prado, aproveitando-se boa parte da estrada que vai para Chapada do Norte, já recebendo o capeamento asfáltico, o que facilitaria o transito no sentido de todas essas cidades.
Encontram-se abandonados, desde o fim do governo de Newton Cardoso, os equipamentos da pequena usina termoelétrica para apoio da obra, as linhas de transmissão até a subestação da Cemig, em Minas Novas , bem como as casas da administração, alojamentos de engenheiros e operários e outros caros investimentos que ali ficaram como demonstração do descaso do Governo de Minas para com o dinheiro público.
BATEIA QUEBRADA
BATIEIRO
BAÚ
BEIRA DO RIO
BEMPOSTA
BENTINHO
BERILO
BOA VISTA
BOM SUCESSO
BONITO
BRITO
BURACÃO
BURACO D’ÁGUA
BURITI
BURITIS DO PARAÍSO
BURITIZINHO
CABECEIRAS
CAÇARATIBA
CACHOEIRA DA BEMPOSTA
CACHOEIRA DO FANADO
CACHOEIRAS DO NORTE
CAITITUS
CAJAMUNUM
CAMPO
CAMPO ALEGRE
CAMPO DE AVIÃO
CANELA DEMA
CANSANÇÃO
CANTINHO
CANTO DO BURITI
CAPÃO SÃO FRANCISCO
CAPÃO DO SERRO
CAPELA
CAPIVARI
CAPOEIRINHA
CARAMBOLA
CATOLÉS
CAVA FUNDA
CAXAMBU
CHAPADA DO NORTE
CONTENDAS
COQUEIROS
CÓRREGO DA CECÍLIA
CÓRREGO DA HELENA
CÓRREGO DAS ALMAS
CÓRREGO DO BREJO
CÓRREGO DO BURACO
CÓRREGO DO CHIQUEIRO
CÓRREGO DO ENGENHO
CÓRREGO DO GOMES
CÓRREGO DO GONÇALO
CÓRREGO DO INDAIÁ
CÓRREGO DO LULU
CÓRREGO DO MOINHO
CÓRREGO DO OURO
CÓRREGO DO OVAIADE
CÓRREGO DO PAPAGAIO
CÓRREGO DO PARÁ
CÓRREGO DO SÍTIO
CÓRREGO DO SUCURIU
CÓRREGO DOS BORGES
CÓRREGO DOS CORDEIROS
CÓRREGO DOS FIGUEIREDOS
CÓRREGO MANOEL LUIZ
CÓRREGO SECO
CRUZ DAS ALMAS
CRUZ DE MANÉ CHAPÉU
CRUZ GRANDE
CRUZ SEM BRAÇOS
CRUZ DE MANÉ CHAPÉU
CRUZ GRANDE
CRUZ SEM BRAÇOS
CRUZINHA
CUPINS
CURRALINHO
DEBAIXO DA LAPA
DERRIBADINHA
EMÍLIA DA SILVA
EMPAREDADO
EMPOEIRAS
ESPANTA MOLEQUE
ESPANTA MOLEQUE
FANHA
FARINHA SECA
FÁTIMA
FAZENDA DA FÁBRICA
FAZENDA DO MIRANTE
FAZENDA DO BAU
FAZENDA DO PAPAGAIO
FAZENDA DO CANSANÇÃO
FAZENDA DA BANDEIRA GRANDE
FAZENDA DO BURITIS
FAZENDA DO CAPIVARI
FAZENDA DO SÍTIO
FAZENDA DAS GRANJAS
FAZENDA MACAÚBAS
FAZENDA MUMBUCA
FAZENDA DO PADRE
FAZENDA DAS CANDONGAS
FAZENDA DOS REIS
FAZENDA DOS FRANÇAS
FAZENDA SÃO MIGUEL
FAZENDA DAS GONDINHAS E FIRMIANAS
FAZENDA DO RIACHO
FAZENDA DO CAMPESTRE
FAZENDA DO SETÚBAL
FAZENDA DA FÁBRICA
FAZENDA DO MIRANTE
FAZENDA DO BAU
FAZENDA DO PAPAGAIO
FAZENDA DO CANSANÇÃO
FAZENDA DA BANDEIRA GRANDE
FAZENDA DO BURITIS
FAZENDA DO CAPIVARI
FAZENDA DO SÍTIO
FAZENDA DAS GRANJAS
FAZENDA MACAÚBAS
FAZENDA MUMBUCA
FAZENDA DO PADRE
FAZENDA DAS CANDONGAS
FAZENDA DOS REIS
FAZENDA DOS FRANÇAS
FAZENDA SÃO MIGUEL
FAZENDA DAS GONDINHAS E FIRMIANAS
FAZENDA DO RIACHO
FAZENDA DO CAMPESTRE
FAZENDA DO SETÚBAL
FAZENDA DOS MARTINS
FAZENDA SÃO JOSÉ
FAZENDA SÃO ROBERTO
FAZENDA VELHA
FLORESTA DO PARAÍBA
FLORZINA
FORCA
FORQUILHA
FRANCISCO BADARÓ
FUNDAÇÃO PIETRO SALINI
GAMELEIRA
GANGORRAS
GOIABEIRA
GOUVEIA
GRANJAS
GRAVATÁ
Ex-padre Paulo Toffolleti, hoje raizeiro, curador e artesão.
GROTÁO
IMBIRUÇU
IRAPÉ
ITAPICURU
JACU
JENIPAPO
JOSÉ GONÇALVES DE MINAS
LAGOA GRANDE
LAGOA SECA
LAMARÃO
LARANJA BRAVA
LELIVÉLDIA
LEME DO PRADO
MACAUBAS
MACUCOS
MAGALHÃES
MALUAÍ
MANDACARU
MANDASSAIA
MANÉ CHAPÉU
MARIA GORDA
MARZAGÃO
MATA DOIS
MATINHA
MINAS NOVAS
MISERICÓRDIA
MOÇA SANTA
MOREIRAS
MORRO REDONDO
MUMBUCA
MUNIZ
MURICI
PAIOLZINHO
PALMEIRAS
PALMITAL DA BAIXA
PARAMBEIRA
PAU D’ÓLEO
PAUDOLINHO
PEDRA PRETA
PEIXE CRU
PIMENTEIRA
PONTE ALTA
PONTE DO CAPIVARI
PORTO
POSSES
QUILOMBOLAS
RIBEIRÃO DA FOLHA
RIBEIRÃO DAS CORRENTES
RIBEIRÃO DO ALTAR
RIBEIRÃO DO MEIO
RIBEIRÃO DOS SANTOS
ROÇAS GRANDES
RUBIM
SABARÁ
SAMPAIO
SANTA RITA DO ARAÇUAI
SANTIAGO
SANTO ISIDORO
SÃO BENEDITO DO CAPIVARI
SÃO FRANCISCO
SÃO LOURENÇO
SÃO MATEUS
SÃO MIGUEL
SÃO PEDRO
SERRARIA
SETÚBAL
SÍTIO DO PINTOR
STA. RITA DO JEQUITINHONHA
SUÇUARANA
TABOCAS
TABULEIROS
TAMANDUÁ
TANQUE
TECAD
TICORORÓS
TOCOIÓS
TÓPI
TRIBUNAS
TROVOADAS
TURMALINA
VAI LAVANDO
VALENTINS
VALVERDE
VARGEM DO GUEDES
VARGEM DO GUEDES
VARGEM DO POMBO
VARGEM DO SETÚBAL
VENTANIA
VEREDINHA
VILA SÃO JOÃO
VILA SÃO JOSÉ
-III-
AS IDIOSSINCRASIAS DA VIDA
MOISÉS DA CIRCUNCISÃO CHAVES
era casado com
LEONTINA CARDOSA CLEMENTINO.
Moisés já era pai de dez filhas, todas vivas e graciosas, uma escadinha de meninas, mocinhas, moçoilas e a mais velha, Donana, de vinte e dois anos, que embora a pouca idade já era considerada coroa, apesar de bonita e sapeca, o deus-nos-acuda da família, pois só não namorava com carrapato porque não sabia qual deles que era o macho.
Leontina, já chegava aos quarenta e seis, na sua prenhez bissexta, quando esperava, entristecida, a sua onésima cria, e pressentia, nesse estado, sinais de mau agouro e, sempre às escondidas do marido ateu, rezava para Nossa Senhora do Parto, pedindo-lhe uma boa hora.
A caçula até então, de quase sete anos, já ia sozinha para a escola, que ficava lá na Passagem do Gangorras, sem entender muito dessas coisas da vida, vivendo acabrunhada com a idéia de ter que tolerar uma irmãzinha. Na sua escola, todos especulavam sobre a novidade e a pequena Cachucha, de volta das aulas, matutava triste a sua sina, pois deixaria de ser a florzinha do pai, o xodó de toda a casa.
Nos últimos dias os ares da fazenda estavam carregados, como se a expectativa geral fosse a de uma morte e não o de nascimento de mais uma criança e, de repente, tudo foi paralisado. Na fornalha da varanda de engenho, apenas o resto de tições, ao mormaço e no meio da cinza se acumulavam.
Apesar de tudo, era com o maior cuidado e zelo que todas as meninas se cercavam da mãe, costurando, tecendo, bordando, preparando um novo enxoval, pois as peças que ficaram, do tempo da Cachucha -- tida e havida como a última -- já tinham virado roupas das bonecas ou sido doadas aos filhos das famílias mais pobres da redondeza.
Tudo girava em função daquela espera. Nem mesmo as vacas estavam sendo ordenhadas, soltas, na larga, com seus bezerros se empanturrando de tanto leite Na tenda, várias folhas de cobre aguardando a hora de irem para a bigorna e de se transformarem nos diversos alambiques encomendados, com o pagamento adiantado pelos ansiosos cachaceiros da região.
A velha Hermenegilda, parteira de mais de mil almas, pela primeira vez se achava assustada e temia enfrentar aquela situação, tendo avaliado bem o caso, chamou Moisés em um canto, falou de seus temores e o aconselhou levar a esposa para parir na cidade.
A barriga de Leontina parecia uma pipa e o peso dobrado, dificultava-lhe a locomoção, obrigando-a quase que se arrastar, como uma anta velha, pelos corredores do sobrado.
O dia do délivrance estava cada vez mais perto e Moisés mantinha de prontidão a canoa nova, amarrada no portinho, a pouco mais de 100 metros da casa. Lá do outro lado, via-se claramente a ladeira imensa até chegar à cidade, bem no cume do outeiro onde o único médico do lugar já esperava, entre preocupado e inseguro, para fazer o que fosse possível para aparar aquela criança, o que seria um parto do mais alto risco.
Leontina, dez partos saudáveis e naturais, todos eles em riba de um catre da roça, contou sempre com a dedicada e experiente ajuda da Hermenegilda, com seus ramos de arrudas, óleos, banhos e bênçãos, nunca tomou remédio de farmácia. Conhecia, apenas de nome, o Dr. Anjo, um médico amigo de todos, empregado do posto de saúde pública, beberrão e pançudo, que não cobrava consulta, receitava mezinhas e garrafadas e os casos de maior gravidade ele próprio os encaminhava para Juca do Porto, um raizeiro e benzedor famoso que atendia doentes vindos até da Bahia.
A expectativa era aflitiva e o no espaçoso terreiro, nas últimas noites, ficavam vários camaradas, vigilantes à beira de um braseiro, contando lorotas e vantagens, bebendo pinga, assuntando o clima e prontos para qualquer emergência, com o cavalo arreado para trazer lá de Santo Isidoro a comadre Hermenegilda.
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Para azedar mais o tempo, que ainda se fazia frio e sacudido por intensa ventania, Leontina começou a se incomodar na noite de quinta pra sexta, era o mês de agosto, véspera do 13, mais temido que o dia de aziago.
E lá pelas tantas, Meia-Noite foi chamado às pressas, e desceram todos quase que correndo levando na padiola de varas e cobertor a imensa mulher grávida que mal coube no fundo da frágil canoa.
Antes de chegarem ao consultório do médico, na subida da ladeira, entre os gemidos alucinantes da mãe, ouviu-se o choro do rebento, aliás, do berro dele, um menino de 55 centímetros e 5,5 quilos conferidos na balança de conchas, de pesar toucinho, na venda de Esperidião Ferrador que só se fechava lá pelas altas horas e para espanto do. Dr. Anjo, que logo aliviado, teve como trabalho apenas o de acompanhar Moisés, até à casa do compadre Teodoro, de onde saíram quando o dia já raiava, depois de secarem uns dois ou três litros de São João da Barra.
Entre um gole e outro, daquela forte cangibrina, estando ambos já bem altos, Moisés discorria sobre suas façanhas, falando com entusiasmo da boa fama de seus tachos e alambiques, dos bons lucros da fazenda, dos dotes maravilhosos de suas filhas, das virtudes da boa esposa e, por último, da surpresa de, quando não mais ter qualquer ilusão ou esperança, surpreender-se como pai de um menino, um rapagão saudável e que, no ademais, nascera parecendo-se que já podia até andar, de tão grande e esperto que era.
Moisés, apesar de solícito e caridoso, gabava-se de ser ateu, não gostava de santo, mas era devoto de Nossa Senhora do Carmo e um dos poucos, naquela região, além de Dr. Anjo, do padre Justo e da mestra dona Jacinta, que sabia ler e escrever e que havia decorado, por inteiros, os versos de cordel da Chegada de Lampião ao Céu, que ele, bêbado, recitava enquanto dava fortes gargalhadas, sob o olhar embasbacado do roliço facultativo.
Contudo, não era supersticioso e ali estava, como a prova de sua propalada descrença no invisível, o parto normal do filho, em circunstâncias tão adversas, cujo sucesso comprovava que não se justificavam essas lendas, relacionadas à sorte ou ao azar, principalmente aquelas tidas pelos ignorantes que temiam, sem qualquer razão, todo o mês de agosto e aos dias de sexta-feira, acima de tudo quando a data caia num dia 13, como era aquele dia cinzento.
O sol já estava alto, entre as nuvens bem distantes, quando atravessaram o largo do mercado e avistaram, lá embaixo, na beira do rio, uma aglomeração aflita e vários homens com canoas e cordas, numa grande movimentação que logo ficaram sabendo ser a tentativa de salvar, das águas do Araçuaí, as vidas dos ocupantes da canoa que voltava para a Fazenda, levando Leontina e o recém-nascido.
Meia-Noite, canoeiro experiente, um caboclo que nadava como um jacaré, agarrado ao robusto menino, conseguira chegar do outro lado. E de lá aprontava uma triste gritaria, como se estivesse em desespero.
Quando Moisés, atordoado pela noitada, sem saber bem compreender o que estava acontecendo, chegou à beira do rio, os canoeiros haviam acabado de salvar Hermenegilda e procuravam, abaixo da correnteza, pelos demais ocupantes da embarcação. Localizaram, deitado no areão da praia, depois da curva da vazante, desacordado mas com vida, o auxiliar de canoeiro, o atoleimado Chico Barulhento, e somente à tarde, após dramática procura e comoção geral, foi encontrado, na barra do Gangorras, o corpo inerte da pobre parturiente.
Moisés entrou em estado de choque, acudiram-no, perplexo e contemplativo, desejando também a morte. Nunca mais atravessou o rio para voltar ao antigo lar. Decidiu viver na cidade, para sempre, onde ficava de venda em venda, ou escornado pelas calçadas. Tornou-se um boêmio, um alcoólatra inveterado, uma figura derrotada que a ninguém ouvia ou acatava.
Donana, na fazenda, diante da tragédia e do novo cenário de dificuldades que se estampava pela sua frente, assumiu o controle de tudo. Além das nove irmãs mais novas, tinha agora a chegada do irmão, que seria, a partir daquela data e da estranha decisão do pai, o único homem da casa. Tornou-se, pois, com o peso e a firmeza de sua resolução, a mãe dedicada e carinhosa do pequeno-gigantinho Francisco, o caçula, único e derradeiro irmão.
Pouco tempo depois, casou-se Donana com Meia-Noite, que desde o fatídico dia do afogamento, afeiçoou-se tanto ao menino, de quem era o salvador e a quem passou dedicar-se totalmente, tornando-se o pai adotivo daquele a quem se ligou pelos mais fortes laços, desde o primeiro dia de vida, ainda dentro daquela pequena canoa, que se constituiu como o primeiro berço da criança e na mortalha da sua mãe.
O casamento, porém, era o artifício encontrado para tornar-se o guardião do menino. Não houve ali o impulso de um amor, de uma paixão, pois entre eles nunca existiu qualquer desses interesses, até mesmo devido à grande diferença de idade e das condições sociais díspares. Donana, que se surpreendeu com a resolução do ex-canoeiro, aceitou de bom grado a proposta, mas a vida conjugal, ao que parece, não era o objetivo principal daquela união. Viviam em harmonia e cada um cuidava de seu canto e de suas coisas, sem se incomodarem, ente si, tanto o marido como a mulher.
E a vida, assim como as águas frias e volumosas do rio, corria indiferente ao tempo, sem saber o destino e sem imaginar, nem mesmo, como lá chegar. A natureza, entretanto, aonde o tempo vai desenhando sua aquarela eternamente inacabável, foi aos pouco enchendo de novas luzes e cores aquela fazenda, que cada vez mais progredia, agora sob o comando alegre, previdente e empreendedor do Meia-Noite.
Moisés viveu ainda por muitos anos, até morrer de tanto embriagar-se e de fazer arruaças, sem jamais ter voltado a sua linda e valiosa propriedade, vendo as filhas somente quando estas vinham à cidade para visitá-lo, quando tudo se fazia, em vão, no sentido de convencê-lo a voltar para a sua fazenda. Nem mesmo uma boa casa que lá na rua foi providenciada pelo genro Meia-Noite, convenceu aquele homem apaixonado a retomar o seu gosto pela vida,
O menino Francisco, cada vez mais empenado e tomando a curiosa forma de um pelicano, foi crescendo e se instruindo lá mesmo na roça, onde nada lhe faltava, porém viu-se sempre privado do contato direto com o pai biológico, de quem todos sempre falavam, pois jamais estivera com ele, de perto, vis-à-vis, pelo mesmo motivo de nunca ter atravessado o rio, permanecendo na fazenda, sem ir à cidade.
Quando Moisés morreu, seu corpo foi trazido de canoa para ser enterrado na fazenda, contrariando sua própria vontade, mas os familiares assim preferiram, primeiramente para que o seus restos mortais se juntassem ao da querida esposa e, em segundo lugar, porque o Trixis, intransigente e durão, se negava a ir até à cidade assistir o enterro do pai.
E foi, nessa oportunidade, a única vez que o menino viu o pai, podendo tocá-lo já defunto, dentro do caixão, pouco antes do sepultamento, sendo que, durante todo esse tempo de separação, com ele eventualmente se comunicava, mas do terreiro da casa, de longe, vendo-o sobre os rochedos, lá do outro lado do rio, quando ficavam gritando e acenando, um para o outro, aos gritos, como se os dois estivessem loucos.
O trauma do naufrágio deixou no Meia-Noite verdadeira fobia pelas águas do rio, o que foi imediatamente transmitido ao filho adotivo.
Desde aquele dia deixou o caboclo de ser canoeiro e nem mesmo chegava à margem do Araçuaí, ou permitia, levado pelo exagerado zelo, que o seu menino das águas se aproximasse.
E o temido rio, que matou a mãe do Francisco, passou a ser intransponível barreira a separá-lo, também, do seu alucinado e ébrio pai.
-IV-
TRIXÍS
Francisco, que logo ao nascer ficou órfão de mãe e foi apartado do pai, realmente foi marcado para ser um menino diferente. Do acidente, do qual se salvou por milagre de Deus, por intercessão de São Francisco Xavier, o santo de devoção do Meia-Noite, e pela perícia deste como canoeiro que se fez seu salvador, na verdade não saiu completamente ileso, pois, com o decorrer do tempo, foram-lhe aparecendo deformações físicas que eram atribuídas ao afogamento, cujos resultados eram as seqüelas que lhe ficaram.
De fato, o seu porte físico, para um menino cujas medidas já eram consideradas exageradas enquanto recém nascido, foi-se desenvolvendo também de forma atípica e resultando, quando jovem e adulto, em um homem comprido, de pouco tórax, pernas e braços descomunais, tendo um longo e delgado pescoço, sobre o qual se sustentava uma enorme cabeça, com o formato de melancia, conferindo-lhe assim, ares de um pelicano desengonçado.
E para completar a singular figura, quando chegou ele à época de sua matrícula na escolinha rural da Barra do Gangorras, descobriu-se, pela certidão tirada no Cartório Civil, que o registro de seu nome foi grafado de forma incorreta, pelo escrivão, o mestre Olinto, que costumeiramente, desleixado e de poucas letras, anotava os nomes sem a menor preocupação com as regras do vernáculo pátrio, aliás, como ocorrera com o registro de sua pobre mãe, que ao invés de ser Cardoso, ficou sendo Cardosa e o seu sobrenome, que deveria ser Chaves, ficou agora como Xaves e, assim, ficou sendo chamado de Francisco Xavier Xaves, com o apelido, em casa de Xico, e na escola de Trixís, de Xico Xavier Xaves.
Todas essas contradições, entretanto, não impediram de ser o menino até inteligente, alegre, bem resolvido, sem complexos, sempre muito amigo dos moradores do lado esquerdo do Araçuaí, que lhe contavam as aventuras e as novidades que viam na cidade e sobre as quais ele ficava sonhando, imaginando como eram, mas que não lhes despertavam qualquer interesse de conhecer, pois não havia para ele qualquer possibilidade de atravessar o rio, por nado e nem mesmo se utilizando de uma embarcação.
E assim, além da dedicação e do gosto tomado pela escolinha, sua diligência em cumprir as tarefas da fazenda, que eram várias, ele desenvolveu suas habilidades como tocador de sanfona, violeiro, artesão, raizeiro benzedor e de mulherengo. Do pai herdou a bigorna, a marreta, a forja e o ofício de fabricar tachos e alambiques, o que, no princípio, teve que ser exercido como auxiliar do Meia-Noite, que da noite para o dia, por força das contingências, teve que abandonar seu antigo ofício de canoeiro para se tornar ferreiro e assumir a responsabilidade de dar conta da tenda e atender às diversas encomendas que foram abandonadas pelo Moisés.
Lá da antiga oficina de ferreiro. acionando o fole de sua forja e martelando os arrebites nas chapas de cobre, observava os demais meninos pulando e nadando no rio, lançando suas redes e anzóis e outros pilotando como mestres as suas frágeis jangadas de bambu, enquanto os homens, do outro lado, enchiam seus botes de areia para as construções que espichavam as ruas da cidade, que ele não conhecia. Aquela alegria, ele observava, sem inveja e até mesmo com certo contentamento, pois se sentia bem apenas imaginando as suas fantasias.
Nenhum fazendeiro da região tinha canavial e roças de algodão tão viçosas e produtivas como as de Donana, Meia-Noite e Trixís. Dos seus teares saiam os mais bonitos e aconchegantes cobertores de pavios e das fornalhas da varanda saiam os afamados requeijões morenos e as deliciosas geléias de mocotó, que aos sábados, não chegavam a abarrotar o mercado, porque a produção não era suficiente para atender à crescente demanda.
Trixís, trabalhador, honesto e habilidoso, de longe via a cidade, do outro lado do rio, ouvia o barulho dos carros, o sino da igreja da Conceição, o alto-falante do Sindicato, o apito do jogo de futebol, o som dos bailes lá no salão de festas e até a barulheira alegre das crianças ao saírem da escola. Para ele a cidade era um mundo proibido, distante, inacessível, de onde a frágil canoa, num certo dia 13 de agosto trouxe a morte e em cujas ruas morava, ao léu, o seu pobre pai, cada vez mais se afogando em uma água produzida pelos diversos alambiques que suas próprias mãos fabricavam.
Lá da rua vinham os rapazes para namorar suas irmãs, para dançar ao som de sua sanfona e deliciarem com a fartura da fazenda. Também vinham os compradores, as encomendas dos fregueses e muitos bilhetes das moças da cidade, que mesmo sabendo de sua feiúra, tudo faziam para conquistá-lo, de olho nele como bom partido para um casamento. Trixis, entretanto, sem jamais se amarrar pelos laços matrimoniais, com sua viola ou sua sanfona, como um bardo bisonho e capenga, espalhava a alegria pelo lado esquerdo do rio e enchia de filhos as casinhas ao longo dos diversos córregos que davam barra na sua fazenda, tendo em cada canto uma amante, todas fiéis e acomodadas, que aos sábados iam à feira em seus próprios botes, levando o que produziam durante a semana e com o dinheiro das vendas, traziam as novidades para enfeitar suas moradas e suas proles, que viviam em paz e harmonia, sob o comando seguro de um solteirão, comprido e mal enjambrado, mas rico, amável e bonachão.
As meninas, suas irmãs, foram todas bem encaminhadas na vida, tendo cada uma, depois de educadas, encontrado bons esposos. E em cada casamento era uma festa de arromba na Fazenda, e em cada batizado, o casarão centenário ficava pequeno para abrigar tanta gente. Donana não teve filhos com o Meia-Noite, não quiseram, não puderam ou sabiamente preferiram não tê-los, e nem se justificava o sacrifício, pois logo-logo a fazenda estava fervilhando de tantos netos, pois era nessa condição que ambos viam os filhos que iam nascendo nas casas das irmãs e eram eles os avós atentos e cheios de mimos, enquanto o Trixis era o padrinho de todos, que a todos protegia e presenteava.
Trixis era o eterno meninão, que para o Meia-Noite era o seu filho adorado, e o pai adotivo, para o grandalhão e desconforme menino, era a criatura mais doce e querida, o anjo de bondade que jamais permitiu qualquer contratempo, além, é bem verdade, do desgosto que todos tinham com a mania e a birra do pobre Moisés, que mesmo com o dinheiro que lhes mandavam lá da fazenda, vivia como um mendigo na cidade, sem se cuidar, sendo molestado pelos moleques e aproveitadores.
Trinta e cinco anos se passaram sem que o Trixis pusesse seus pés na rua, do outro lado do rio, assim como nunca tinha ido a qualquer uma das cidades, nem mesmo ali por perto.
Mesmo depois de inaugurada a ponte de madeira, ele relutou para nela atravessar, tendo sido quase que empurrado, só se conformando em ir à cidade porque para lá já tinha ido, carregado, o seu pai adotivo, o Meia-Noite, que já bastante velho e doente, teve que ir morrer sob os cuidados do também decadente Dr. Anjo.
Foi para ele um dia de descobertas e surpresas.
Quando passava, admirando, olhando as casas, os prédios maiores – da prefeitura, do mercado e da igreja -- além dos postes de luz, os carros enfileirados, era como se tudo aquilo fosse mágico e maravilhoso, pois ele apenas imaginava como eram, e as pessoas, entre curiosas e assustadas, viam seguir a sua bizarra figura pelas ruas, um gigante desengonçado, parecido com um ser de outro planeta, sem saberem, porém, que aquela era uma aventura dolorosa, um grande sacrifício que o estranho rapaz da roça cumpria apenas para visitar o pai adotivo, que tão logo o recebeu, na cama do hospital, sorriu, abençoou-o, despediu-se e fechou definitivamente os olhos, tendo ao lado a esposa Donana e a infinidade de filhas e de netos.
Trixis, que não pôde chorar a morte da mãe, que chorou a morte do pai biológico no mesmo dia em que o viu de perto pela primeira vez, naquele dia pôde sentir, com toda intensidade, a dor de perder uma pessoa tão boa e querida, que sempre esteve presente e que se tornou o seu pai de verdade, aquele que, embora não tenha lhe dado a vida, foi o que lhe salvou da morte, lhe protegeu desde o primeiro instante e lhe acompanhou em todos os momentos de sua existência. E chorou copiosa e dolorosamente, como antes nunca fizera, junto de suas irmãs, aquela grande perda do querido Meia-Noite.
E o povo do lugar, que antes não conhecia pessoalmente o Trixis, foi dele se aproximando e, dentro de pouco tempo, era ele visto na cidade como uma pessoa completamente normal, familiarizado com todos, como se fossem eternamente conhecidos.
As crianças o respeitavam e dele recebiam carinhos. Passou a ser uma das pessoas mais queridas de toda a região, a todos ajudando, tornando-se um benfeitor generoso e despreendido. Chegou a ser lembrado para candidatar-se a prefeito, convite pelo qual se sentiu lisonjeado mas que humildemente dispensou, pois sua vida era a fazenda e o povo do lado de lá do rio, onde além dele, também havia os saguis-de-cara-branca que jamais se deixaram misturar com os saguis-de-cara-preta que, desde os tempos da Arca de Noé, contemplavam-se de longe, uns da banda de cá e os outros da banda de lá do Araçuaí.
A partir do pontilhão, naquele dia, o mundo, para todos eles, deixou de ser dois hemisférios eternamente separados pelo dadivoso mais traiçoeiro rio.
-V-
BEBE ÁGUA, PAI...
O velho Meia-Noite tomou gosto pelas coisas da fazenda e foi cada vez mais melhorando o seu plantel.
No meio do considerável rebanho, já amealhado, tinha um apreço, muito especial, por uma vaca holandesa que era a sua alegria, a única, também, que se deixava ordenhar pelo inexperiente pecuarista, que tinha as mãos calejadas pelo remo das canoas. De manhã, antes mesmo do café, ia até o curral, levando pela mão o Trixis, para beberem o leite quentinho, tirado na hora, e era emocionante de se ver o carinho que existiam entre eles e a Malhadinha, como eles a chamavam.
E esta ficou tão mansa, que parecia conhecer o dono e às vezes até o acompanhava, saindo do curral e o seguindo quando ele voltava para casa.
E devido esta relação afetiva, mandaram construir um estábulo especial, onde ela e sua bezerra tinham tratamento diferenciado, recebendo ração e cuidados que não eram dispensados ao resto do gado.
Certo dia o Trixis vinha lá das bandas do açude, onde tinha ido buscar umas frutas, quando, apavorado, viu a Malhadinha morta, na beira do caminho, onde ainda chocalhava o seu terrível guiso uma enorme cascavel, ameaçadora e pronta para atacar quem dali se aproximasse.
O menino, que já era bem esperto e que nada temia, com o facão que conduzia para cortar a bananeira, desferiu nela um golpe certeiro, partiu em disparada para casa para levar a triste notícia. Pelo caminho, entretanto, pensava como iria contar ao pai o acontecido, sem que este passasse pelo susto e pela dor que certamente podia até matá-lo, tamanho era o seu gosto pelo animal.
Chegando à sede da fazenda, primeiramente passou pela cozinha, apanhou um imenso balde d’água, pegou um caneco, foi até à tenda do pai e foi-lhe oferecendo o líquido para beber, repetidamente, enchendo novamente a caneca e gritando sempre, ofegante, obrigando-o a engolir mais outras canecadas, preparando o espírito do fazendeiro que, cada vez mais curioso e assustado, perguntava, engasgando, o quê que estava acontecendo de tão grave, que o fazia beber tanta água, naquela consumição:
-- O quê qui foi, menino, que aconteceu?
Foi Sua irmã, a Cachucha, que caiu no açude?
-- Não pai, foi uma coisa bem pior...
Bebe mais água, pai!
-- Então diga, meu filho, foi sua irmã Irene que
caiu no tacho de melado?
-- Foi não, pai, foi coisa bem pior...
Bebe mais água, pai!
-- Foi o sobrado que pegou fogo, minino?
-- Não foi não, pai, bebe mais água...
-- Ou danado de menino, desembuche, diga
logo o que aconteceu, foi a sua mãe Donana,
que morreu?
-- Quê que isso pai, foi uma coisa muito mais
terrível ainda... Bebe mais água, pai!
...
E o velho Meia-Noite, cada vez mais impaciente e já nervoso, no meio de toda aquela gente da roça que se reunia em seu redor, todos curiosos e também assustados, já saía correndo em direção ao açude, quando, enfim, resolveu se desembuchar o Trixis lhe deu a informação tanto esperada, sendo que a barriga do pai, àquela altura, já não cabia nem mais uma gota que restava no balde.
E para lã seguiram chorando, os dois, abraçados, para providenciarem o enterro da estimada vaquinha Malhada, deixando-os, mais uma vez, atordoados pela imensa dor.
-VI-
CALANGO
Trixis não se ligava pelos apelidos que lhe colocava a meninada da região, mas seu pai adotivo, indignado, dizia-se ser capaz de matar aquele que, porventura, ele ouvisse dirigir-lhe qualquer pilhéria. E todos tinham medo do Meia-Noite, pois sabiam do imenso zelo que ele dedicava ao menino.
Certo dia chegou um vaqueiro novo na fazenda, que vendo o garoto, sem saber da fama do velho, logo o apelidou de Calango. Foi a conta, para que o fazendeiro o chamasse lá na varanda, onde, sobre a imensa mesa, colocou em sua frente um trabuco, e argüiu ao empregado:
-- Pois então, camarada da gota serena, como é mesmo o nome que você colocou no meu menino?
E o vaqueiro, vendo o revólver e os olhos faiscantes do Meia-Noite, suava frio, tremia de alto a baixo, esfregava as mãos, cada vez mais apertado, procurando uma saída daquela enrascada que se havia metido e nada de encontrar um jeito de fugir daquela situação, quando o próprio Trixis, para salvar o atrevido, saiu em sua defesa, dizendo ao pai que os dois eram amigos e que o pobre do moço apenas o havia chamado para irem ao galinheiro para matar um calango que lá estava dando conta dos ovos.
-- Pois vá correndo lá no galinheiro, pegue vivo o calango, traga-o aqui para eu ver, peque aqui o dinheiro que lhe devo e se escafeda daqui da Barra, pois num quero vê-lo nem pelas redondezas, pois odeio quem maltrate meus bichos, principalmente meu Calanguinho, ou melhor, o meu querido Chiquitinho.
O vaqueiro partiu em disparada, deixando tudo para trás, não sem antes dar um abraço agradecido e arrependido no Trixis, que mandou que ele seguisse em paz o seu caminho, não havendo mais qualquer motivo dele se preocupar, nem mesmo com o danado do trabuco do pai, que por sinal, estava, como sempre, descarregado, pois o Meia-noite era, na verdade, um coração mole, incapaz de matar, sequer, uma única mosca.
Mesmo assim o Trixis, na escola, também ficou conhecido como Calango.
* * * *
-VII-
A folhinha do Posto Esso.
TRIXIS tocava bem sua juriti de oito baixos, mas sua predileção era a viola, da qual tirava as modinhas apaixonadas que faziam o encanto das morenas do rio acima. E assim como a viola, também gostava demais era das mulatas sacudidas, de beiço carnudo, bastante peito e canela fina.
Mas namorar mesmo, para casar de verdade, era coisa difícil para ele, deixando cada vez mais preocupado o velho Meia-Noite.
Este queria vê-lo, bem arranjado, com uma bela família, tudo direitinho, de papel passado e na igreja, como seria o desejo, igualmente, da falecida Leontina.
Mas o velho, que era mulato, não via com bons olhos o namoro do filho adotivo, com as mulatinhas do lugar.
Desejava para ele uma linda branquela, se possível uma daquelas loiras cheirosas, como aquela, do Projeto Rondon, uma alemoa estudante da Universidade Católica que por ali passou há uns tempos atrás, quando o rapaz ainda era menino pequeno. E tanto pelejou e insistiu, que mandou buscar lá em Teófilo Otoni uma garota, da qual teve notícia através de um peão que por ali apareceu amansando cavalos. Prometeu ao moço um bom dinheiro pela façanha e a dita cuja, escolada e bem instruída, até que se interessou pela idéia e certo dia chegou à Fazenda da Barra, trazendo mala e cuia, para se casar com o pretendido.
Não era linda, mas tinham olhos claros, oxigenada, cabelo igual ao de uma espiga de milho. O noivo, entretanto, até que se esforçou para agradar, tanto ao pai, como ã pretensa noiva.
Foi feita a festa de noivado e o dia do casório já estava pra ser combinado, quando apareceram no sobrado cinco mulatas, convocadas que foram pelo próprio Trixis, cada qual com um xérox do pescoço comprido no colo, para serem apresentados ao avô, que, sem outro recurso, teve que abençoar e dar acolhida a todos, acrescentando-os ao rol dos demais netos, cujo número a cada dia aumentava na mesma proporção dos bezerros que se espalhavam pelos pastos da fazenda.
E a sapeca da Creuza Zerbini, entre assustada e aliviada, para não voltar de mãos abanando, tomou logo o rumo de Teófilo Otoni, já casada, mas com o peão, este que, pelo serviço de cupido, embora não terminado, cobrou e recebeu o preço de uma boa boiada, tendo ficado ela, de sua parte, muito agradecida pelo fato de ter sido recusada, pois de fato não havia agradado muito do porte físico daquele que seria o seu noivo, sendo que mais nunca se falou no caso, contentando-se o velho Meia-Noite com um poster enorme, do Posto Esso, que o malandro do peão esqueceu, de propósito, no alojamento dos empregados, com um bilhetinho convidando-o a ir passear lá em Teófil
O Trixis, a quem nada passava despercebido, velhaco como sempre, lembrava perfeitamente daquela loirinha, do Projeto Rondon, que passou pela fazenda quando ele era bem um rapazinho, com uns onze anos, cuja lembrança ele tinha bem viva, de tê-la visto tomando banho, lá na bica do Ribeirão, ela uma “Eva” e o pai-adotivo um “Adão”, ambos assim bem caracterizados, mutuamente se envolvendo com a espuma do sabão.
Por isso, nunca gostou de moça muito branca, mantendo sua convicção de que, todas elas, sem exceção, sendo pervertidas, jamais poderiam ser fieis e confiáveis como aquelas tantas, simples e rudes, ali mesmo de seu meio, com as quais já se afeiçoava e queria.
E tendo colocado os olhos sobre a Creuza, imaginou, com sabedoria, que no fundo, bem no fundo, o Meia-Noite poderia estar é querendo arrumar alguma tentação.
E assim sendo, não era bom nem mesmo arriscar.
Afinal, para que ficar na beira de precipício?
-VIII-
Quem caça, acha...
A Fazenda da Barra era uma lindeza!
Uma mina de dinheiro, onde tudo se produzia da melhor maneira, de forma organizada e metódica, onde todos trabalhavam honestamente, ajudando todos da redondeza.
Havia escola para a garotada, que crescia saudável e bem encaminhada, dentro dos melhores princípios, resultado talvez da desconhecida força atávica, que despertava no mancebo os costumes vindos lá dos sefarditas, de que nem mesmo o velho Moisés, seu pai, nos tempos de lucidez, jamais tivera qualquer notícia ou informação, qualquer dado ou referência que lhe pudessem ter sido transmitidas pelos antepassados pois, com eles, tinha como perdido o elo, desconhecendo-se por completo a história de sua gente, ele próprio chegado ali na fazenda, ainda menino, vindo por canoa, trazido por garimpeiros de diamantes que, aventureiros, fussavam o fundo dos rios, desde a passagem do Jequitinhonha, lá pelas bandas de Grão Mogol.
Era, ali, o mundo encantado do Trixis, de onde ele por nada se ausentava, nem aos domingos, contando dentro de seus domínios tudo de que precisava, tendo, no máximo, que se deslocar nas furtivas escapulidas que diariamente dava em direção de uma das cinco grotas, aonde ia para supervisionar as atividades que ele distribuía entre as namoradas, cada uma com uma obrigação, fosse no tear de pedal, numa bem cuidada horta e um pomar, uma roda de fiar, uma moenda de cana, um moinho de fazer fubá, um forno de assar broas, uma casa de farinha, uma pocilga repleta de capados, um bonito e perfumado jardim ou uma máquina de costura.
Em cada casa havia muita fartura e em nenhuma delas viam-se motivos de desavenças, reinando uma paz absoluta entre todas, como se as mulheres fossem irmãs, até mesmo quando se viam trabalhando num mesmo mutirão. Teciam juntas, presenteavam-se mutuamente e cuidavam, como se fossem seus, os filhos das outras, quando tinha que eventualmente de ir à cidade.
Aquela inusitada cooperativa, entretanto, espalhou sua fama, despertando a curiosidade de algumas pessoas da cidade e a ira do padre, um português sisudo e moralista, que diante daquele fato, chamou lá na igreja, para uma conversa, o referido cristão.
O rio, porém, era sempre a barreira e, assim sendo, não podendo Maomé ir à montanha, o jeito era ir ele próprio, na pele do vigário, na sua missão evangelizadora, ter-se, na montanha, com o jovem Trixis.
Em lá chegando, na Fazenda, pelo curto percurso que fizera de lancha motorizada, foi tão bem recebido e cordialmente tratado, que foi convencido pelo Meia-Noite de, aproveitando-se daquela boa oportunidade e da honrosa visita, celebrarem-se um batizado coletivo, recebendo na comunidade cristã todas aquelas crianças pagãs, carentes do santo sacramento, pelo que o humilde e bondoso cura, todo alegre e satisfeito, receberia, como recompensa pela sua prestimosa caridade, vários bezerros a serem leiloados em benefício das obras de reforma da Casa Paroquial que estava quase caindo.
Nunca se viu, antes, tanta euforia e alfarromba.
O banquete foi servido, sem que antes, como não poderia deixar passar a oportunidade, a Donana, que era muito católica mas que também defendia o filho-irmão, como uma onça defende a cria, deixou escapar a corrosiva insinuação de que a ninguém era dado o direito de corrigir a casa dos outros, principalmente aquele que, até ali, deixava em ruínas a sua própria moradia, quando, assim determinada, abria sua bíblia em uma das famosas parábolas, lendo em voz alta justamente aquela que diz, com toda força dos argumentos, sobre o cisco no olho alheio, quando o seu próprio está com uma trava.
O recado, assim como foi bem dado, foi também melhor recebido, mormente pelo fato de ter sido acompanhado dos bezerros que encheram de alegria o coração do velho pároco.
E tudo voltou, como dantes, ali no feliz quartel dos Abranches.
E o Trixis, que a tudo atento observava, sem esboçar qualquer palpite, de seu canto, assim resmungou:
-- Quem mandou mexer no que está quieto?
- IX -
As Dez Filhas de MOISÉS:
- MARIA DA PIEDADE (DONANA) – Depois que se enviuvou, casou-se novamente com um cometa e com ele foI morar em Turmalina
- MARIA DA CONCEIÇÃO – Casou-se com um mestre alfaiate e foi morar em Berilo.
- MARIA DA CRUZ – Resolveu virar freira e se internou no Convento de Nossa Senhora do Vale de Lágrimas, na vizinha Vila de Santa Cruz de Chapada.
s
- MARIA DO ROSÁRIO – Foi para Sucuriu ser professora e ensinar artesanato nos teares de pedal, instrumento desenvolvido na Fazenda de seu pai. á se casou com um comprador de ouro e que ali era estabelecido como rico ourives.
- MARIA DO SOCORRO – Formou-se em Araçuaí e foi ser professora em Jenipapo, transformando-se na protetora do Rio Setúbal.
- MARIA DAS GRAÇAS – Casou-se com um rico comerciante lá de Capelinha e mandou buscar em São Paulo as primeiras mudas de Café..
- MARIA APARECIDA – Casou-se com um primo e foram morar na Fazenda das Contendas, de onde fundaram Cangorras, hoje a cidade de José Gonçalves de Minas, ensinando ali a arte de fazer os mais deliciosos requeijões morenos que são vendidos pelas feiras do Vale.
- MARIA DO PATROCÍNIO – Casou-se com um garimpeiro e se mudaram para a Fazenda Tamarandiba, de onde fundaram Veredinha.
- MARIA DO BOM SUCESSO - Casou-se com um oficial de justiça e foram morar na Vila do Fanado, hoje a abandonada cidade de Minas Novas.
- MARIA DE JESUS (CACHUCHA) – Fugiu com um cigano, que aprendeu fazer tachos e alambiques na Fazenda de seu pai e, depois de percorrer o país, foram estabelecer-se no Gomes, onde se empenharam para o progresso de Leme do Prado e nessa terra foram felizes para o resto da vida.
Como se vê, ao contrário do que afirmam os Cururus, nenhuma das 10 filhas do “Seu” Moisés acabou-se em morte trágica, pois cada uma seguiu feliz a sua vida e sua fé, instalando-se todas bem perto uma das outras, tendo muito colaborado para povoar, educar e desenvolver a maior parte da população do Médio-Jequitinhonha.
Os Cururus eram uns capiaus que moravam rio abaixo, muito velhacos, com os quais o Meia-Noite não permitia qualquer envolvimento na fazenda, muito menos que eles tentassem namorar com as cunhadas.
Irene, uma menina alegre, de pele quase negra, era bem diferente das filhas do Moisés, estas todas muito claras e esguias. Era filha do Meia-Noite, não com a Donana, mas de uma relação dele com outra mulher negra lá de Santa Rita, anterior a seu casamento, mas todos eram como se fosse uma única família.
O Trixis considerava somente a Irene como sua irmã, e cresceram juntos, pois as outras todas, já mocinhas, é que de fato o eram, porém ele as considerava e as respeitava como suas tias, de vez que a mãe que ele conheceu foi a sua irmã mais velha, a Donana.
Segundo consta, a Donana, após a morte de Meia-Noite, reatou um romance antigo que tinha com um caixeiro-viajante (cometa), com ele se casou e foram morar em Turmalina. Assim como a mãe que deu à luz o Trixis, quando já ultrapassava os 46 anos, ela também, tendo ficado viúva sem filhos do Meia-Noite, ainda conseguiu ter filhos com seu segundo marido.
“Calango tango,
Oh, Calango da lacraia
Não demoro nem me mango
E meu cavalo tá na baia”
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