-II-
RECORDAR É VIVER...
Para os pessimistas, entretanto, "recordar é sofrer duas vezes".
Eu, porém, que não acredito nos pessimistas, prefiro o lado positivo da vida, assim crendo piedosamente na grandeza da alma humana, mesmo que para isto tenha que me submeter à proteção dos anjos, dos santos e da clemência de Deus e não me descuidando das fadas, dos duendes e dos gênios, essas benfazejas criaturas etéreas que habitam o reino dos sonhos e das fantasias, no governo dos poetas, pois sob o pálio destes, teremos o refúgio mágico onde dominam apenas os bons fluídos das lembranças.
São, portanto, essas boas lembranças o combustível energético que movem o meu ser no sentido de uma vida simples, mas plena de felicidades, na qual faço renovar, rejuvenescer, sempre que quero, em agradáveis viagens na qual posso escolher o itinerário sem correr o risco de me deparar com os atropelos e as decepções que, no caminho tortuoso da vida, sei que existem.
Escolho bem os meus caminhos e sigo leve e solto os rumos de minha jornada, sorvendo com satisfação o aroma revigorante das manhãs, a luz purificadora do sol nascente, a beleza pura e gratuita que brota da natureza num espetáculo de cores, sons, perfumes e movimentos, indiferente aos néscios e aos brutos que, mal amados, passam ao largo das belezas desse mundo efêmero, sem a ventura de perceberem a importância dos abraços e dos beijos, os dados e os recebidos, sejam da pessoa amada, dos carinhos da mãe, da proteção de um pai, da cumplicidade de um irmão ou, simplesmente, da solidariedade de um amigo sincero e sempre presente.
Não se trata de viver, como se o mundo fosse de fantasias, numa bolha translúcida ou numa dimensão mágica, paralela e virtual, pois o que me aparece na consciência, o que pode ser sentido, mesmo que não possa ser palpável, pode, mesmo assim, ser inteligentemente controlável, administrável, como um simples gesto ou um aperto de mão e, assim sendo, por incrível que pareça, esse é o meu mundo e o tenho como bastante real, tangível e muito humano.
Nele as coisas acontecem, e o tempo flui com a naturalidade de qualquer outra dimensão, onde igualmente seja habitada por mortais.
Sei que nesta nossa nave global a vida é breve e que a própria existência humana é uma imensa arapuca, que se arma em cada curva do caminho onde nos espreita o imprevisível, esperando nosso vacilo, quando num simples piscar de olhos, durante um espirro, no momento de um sobressalto que nos faz tremer ou em cada arrepio que pode paralisar os nossos movimentos.
Por todo o caminho corre-se o risco de uma estrepada nos espinhos que brotam pela estrada, mas onde existem espinhos é porque estes ali estão para protegerem a flor, que é o objeto que nos atrai; e a própria flor se transformará no fruto que também nos atrairá e que atrairá também a serpente; mas, nem a flor nem o fruto e nem a serpente, têm o dom que temos de poder admirá-los, de apreciá-los, de temê-los ou, de, simplesmente, evitá-los.
Mas não será por causa da beleza da flor, do sabor da fruta ou do veneno da serpente que deixarei de seguir o meu destino.
Não perco meu tempo em querer decifrar aquilo que não posso entender ou que posso simplesmente aceitar como algo inevitável e com o qual terei, sempre, que dividir o mesmo ar, a mesma fonte cristalina d'água, o mesmo céu azul e a mesma imensidão do mar. Deixo esta parte tão difícil do entendimento, para os que se interessam pela metafísica ou, senão, para a incumbência dos que têm mais tempo, competência e obrigação de cuidarem dessas atribuições: os poetas, os silfos e as ninfas.
Para o que quero e o que ardentemente desejo, para guiar a minha determinação, sigo o poder e o que me inspira a fé em Deus, único e verdadeiro.
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