XII
CURSO GINASIAL
Há muito que a famosa Escola Normal do Dr. Martiniano, que durante muito tempo funcionara no prédio do Sobradão já tinha encerrado suas atividades e os mestres que ali foram formados, alguns nem moravam mais na cidade, alguns estavam aposentados e muitos já havia falecido.
Aquela antiga escola - pioneira da região- chegou a formar várias turmas de educadores que se espalharam por todo o vale do Jequitinhonha, muitos deles até hoje lembrados como apóstolos da educação em muitas de nossas cidades vizinhas, a exemplo dos irmãos Gomes da Silva (Mestre Zé Gomes, Dona Ritinha e Sinhá de Neco), do professor Jason Morais (Grão Mogol), Dona Maria Elisa Silva, Dona Ester, Jacinto José, Drs. Lindolfo e Ari Jobarcum, Professor João Cândido, Mestra Candinha, Elisa Miranda Costa Mota, Mestre João Lídio, Coronel João André, Major José Benício de Miranda, João Otoni Leite, Epaminondas Otoni, Dr. Bentinho, Coronel Demóstenes César, Coronel Amaral, Professora Laura Abrantes, Fabrício Freire, Monsenhor Mendes, Dr. Nogueira, Dra. Alzira Reis, Francisco Costa, Achilles Reis, José Hemetério, Professora Edith César além daquela que foi o maior exemplo de dedicação e de competência no ofício de ensinar , a inesquecível Mestra Flora Brasileira Pires César e o primeiro bispo de Montes Claros, natural de Capelinha, que foi Dom João Pimenta.
Esse surto de "Iluminismo" estava modificando a mentalidade do povo e este já estava aprendendo não só a ler e a escrever, colocando em risco a hegemonia política do chefe local que, por sua vez, assim entendendo, solicitou do governo estadual o fechamento da vetusta escola, pelo simples fato de estar promovendo a independência, a liberdade, o progresso e a conquista da dignidade no meio de um povo que, ao contrário, segundo o desejo coronelístico, deveria permanecer atrasado e subjugado.
Foi assim que, depois de lacradas as portas da antiga Escola Normal, a cidade de Minas Novas permaneceu no obscurantismo das letras por mais de 50 anos, durante os quais existia apenas uma única escola na sede do município, que era o Grupo Escolar José Bento Nogueira, de primeira à quarta série.
Poucos minasnovenses tinham opção de continuar seus estudos e, quando algum deles era mandado para outra cidade para estudar, depois de formados eles por lá ficavam pois não existiam atrativos, na velha cidade, que os animavam ao regresso. E a cidade, por falta de formação educacional de seus habitantes, já não encontrava os caminhos do progresso.
As poucas famílias de posses que existiam na região, as únicas que podiam custear o ensino de seus filhos em outras localidades, não viam mais no magistério uma profissão ideal para seus filhos, pois muitos eram os casos em que as moças iam, com todo sacrifício para Diamantina, Araçuaí, Itambacuri, Teófilo Otoni ou outras cidades mais distantes e depois, de lá se formarem como normalistas, ao voltarem para sua cidade natal não conseguiam vagas para lecionar ou, quando tinham essa "sorte" teriam que se submeter aos caprichos da politicagem local e de ter que trabalhar num ambiente desfavorável, onde prevaleciam as intrigas, os achincalhes e as imposições praticadas, em nome dos seus mentores, pelas colegas que nenhuma formação pedagógica ou preparo intelectual tinham, mas que ali eram "colocadas" com o objetivo de exercerem patrulhamento ideológico.
Mas não era somente na questão de ensino, pela carência de escolas, que o atraso de Minas Novas se manifestava. O vazio cultural refletia-se na apatia e na falta de esperanças da população.
Os anos se passavam e cada vez mais se aproximava a época de ir-me embora para cursar o ginasial, eu e minha irmã Anália, a exemplo das nossas irmãs mais velhas - Durvalina e Conceição - que já estavam cursando o Ginásio em Diamantina.
Tínhamos uma vaga avaliação sobre a imensa dificuldade que aquele deslocamento representaria no orçamento de nossos pais, já tão sacrificado pelas despesas que tinham com a manutenção e duas filhas em colégio particular, em locais distantes, além do custeio para a criação de todos os demais dez irmãos, todos pequenos e carentes.
Contudo, era grande a expectativa de seguirmos para aquele sonhado "exílio", para o qual nosso pai, um pequeno comerciante, chefe de uma família enorme, já tinha esgotado todos os seus recursos e suas economias custeando aquelas pesadas despesas, um grande sacrifício pelo qual, entretanto, não abriria mão da ideia de nos encaminhar conforme seu desejo.
Eu, da minha parte, fazia corpo mole continuando nas gazetagens e com o propósito de provocar minha própria repetência, e destarte, não ser preciso ser remetido para um colégio, poupando assim minha família dos sacrifícios que ela teria com as despesas que, eu tinha consciência, ficariam além de suas possibilidades.
Meu pai, porém, que era um chefe de família exemplar e que só pensava no melhor para seus diversos filhos, movido por essa dedicação, não media esforços no sentido de que todos nós tivéssemos uma boa formação educacional e estava determinado, nessa disposição, de cumprir aquele seu compromisso, custasse o que custasse.
A possibilidade da nossa ida para outra cidade maior já era avaliada, sob todos os ângulos e ele já se movimentava para conseguir os meios de preparar o nosso enxoval e arrumar-nos hospedagem onde fôssemos continuar os estudos.
Chegou-se a cogitar, nessa época, a hipótese de nossa mudança para a cidade de Diamantina, juntos de toda a família, quando meu pai, premido pelas circunstâncias, colocou à venda (felizmente sem sucesso) todos os seus imóveis e o seu rentável negócio que, embora modesto, era um dos poucos estabelecimentos comerciais nessa praça.
Haveria, porém, para a efetivação mudança, um outro grande empecilho que era o fato de serem eles, meu pai e minha mãe, os titulares de um cartório que, embora o minguado retorno financeiro, que dele auferiam, de vez que no exercício daquelas funções judiciais, não recebiam salários fixos mas apenas as custas eventuais sobre atos processuais, contudo representando esperança de se tornarem mais rentáveis com a possibilidade de incremento dos trabalhos forences a partir da chegada de um juiz para suprir a eterna vacância daquela comarca que nunca estava servida da direção efetiva de magistrados e promotores, do que resultava aquele desconfortável marasmo.
Era essa situação negativa decorrente de ser a cidade carente das condições básicas para a atração de profissionais mais classificados como juizes, advogados, médicos, dentistas, engenheiros e outros tão necessários ao desenvolvimento do lugar, os quais não se aventuravam aceitar cargos com o sacrifício do conforto de suas famílias, no que muito bem agiam nesse sentido.
Mas havia sempre aquela doce esperança de mudanças e de que tudo se resolvesse da melhor forma. Os projetos se adiavam e o bom senso determinou que o melhor seria esperar por uma melhor ocasião, a qual já se acenava com a nomeação de um juiz para a comarca, um jovem bacharel cuja esposa também era jovem, ambos muito determinados e que se dispuzeram de modificar a realidade para adaptá-la, no que fosse possível, no sentido de melhor viver naquele local tão abandonado pelo interesse dos administradores, dos políticos e dos empresários.
Foi assim que o Dr. José Guaracy de Wasconcelos, tão logo assumiu a direção da Comarca, iniciou sua luta para que a construção do novo forum fosse agilizada, exigindo também que fossem melhoradas as residências onde deveriam morar as autoridades judiciais nomeadas para a cidade, num processo que desencadeou um ciclo virtuoso de ações a favor de diversos melhoramentos públicos, envolvendo a participação de toda a cumunidade que até ali se mostrava apática e acomodada, justamente pela falta de ânimos e de incentivos como aqueles que se despertavam com a chegada daquele novo juiz, homem de visao empreendedora e de sensibilidade social que se revelava, cada vez mais, simpática e decisiva para novos rumos da comunidade.
A cidade era um verdadeiro caos com suas ruas descuidadas, escuras, esburacadas, empoeiradas e tomadas pelo entulho, como se fosse um único monturo. As vacas e os porcos transitavam pelas vias públicas como se estas fossem extensões das propriedades rurais de uma meia dúzia de fazendeiros que assim agiam com a complascência do político dominante. O prédio do Sobradão estava em ruínas e não servia nem mesmo para o funcionamento dos cartórios e do Salão do Juri. As contruções do novo forum e da agência dos Correios estavam paralizadas e já apresentavam comprometimento em suas estruturas, sem que houvesse qualquer preocupação em finalizá-las e dar-lhes os encaminhamentos que se faziam necessários. Os demais prédios públicos viviam trancados, por falta de expediente regular, assim como não havia linhas de ônibus para atender os interesses da população.
Os cartórios, nesta época, dentro deste contexto de desorganização comunitária, funcionavam a título precário na casa de cada um dos titulares e onde compareciam as partes interessadas, os advogados, os oficiais de justiça e, de vez em quando, o próprio juiz que ali teria que dar o acompanhamento, dos processos. As reuniões, as audiências judiciais e as seções do Tribunal do Juri se realizavam no antigo teatro municipal e, quando este já se apresentava inadequado, passaram aquelas atividades a se realizarem no salão da Liga Católica.
O novo ritmo de trabalho imposto pela ação revigorante desse juiz, assim determinado de levar adiande uma reforma geral em todos os setores, trazia esperanças que se traduziam em realizações a partir de simples decisões tomadas em grupo com seus auxiliares e de mais algumas pessoas da comunidade que, na medida do incentivo, iam se convencendo da necessidade de mostrar serviço e de aderirem àquele mutirão liderado pela benfazeja autoridade.
Movido pelo seu espírito empreendedor e sempre bem assessorado pela esposa, percebeu que teria muito trabalho pela frente e passou a fazer rotineiras visitas aos cartórios, não só os fiscalizando, mas dando aos serventuários as diretrizes necessárias no sentido de melhor exercerem suas funções com presteza e profissionalismo, orientando a todos e auxiliando-os na organização dos trabalhos, possibilitando, inclusive, a melhoria dos rendimentos financeiros de cada um, trazendo, ainda mais, um grande entusiasmo para a vida social e comunitária.
Todo dia útil o diligente juiz percorria os cartórios e pelo menos uma vez por mês convocava uma reunião geral, com todos os serventuários, para tratar de assuntos relacionados aos trabalhos forenses e também para discutirem temas relevantes, no interesse da comunidade, além de promover confraternizações, atividades cívicas e comemoração de aniversários e outros eventos motivacionais, sempre com o com o intuito de promover um clima agradável e favorável a seu projeto.
Foi numa dessas reuniões que, não por acaso, meu pai reclamou daquilo que tanto o estava incomodando, que era o dilema em que se encontrava em relaçao à questão de ensino local desfavorável às famílias desejosas de dar melhor encaminhamento a seus filhos.
Naquela conversa, grande parte dos presentes se despertou pela gravidade da situação, tendo o juiz a todos escutado e demonstrado interesse por aquela questão. Tendo ele, naquele mesmo dia, convocado uma reunião com o prefeito e outros líderes com os quais acertou-se da criação de um curso ginasial, lançando as bases necessárias ao funcionamento do Ginásio Minas Novas, sob o espanto e o descrédito de algumas autoridades retrógradas que se sentiam ameaçadas diante daquelas ideias favoráveis ao interesse do povo, como adiante se confirmou.
Naquele mesmo ano de 1962, iniciaram-se as aulas para a primeira turma do curso ginasial, tendo-se apresentado como voluntária a esposa do juiz, que passou a lecionar francês e desenho artístico, juntamente de outros professores, também voluntários e que nunca antes tiveram oportunidade de serem úteis como educadores, marginalizados que eram, como o sexagenário Mestre José Gomes da Silva (professor de latim), o advogado Dr. Ataliba Pires César (professor de inglês), a professora Zélia Afonsina Coelho (professora de história) a professora Elisa Mota Borges (professora de português), o estatístico Álvaro Pinheiro Freire (professor de geografia), além do próprio Dr, Agostinho (médico sanitarista, ensinando ciências naturais) e do Dr. Vicente (cirurgião-dentistas) que se revelou um dos mais extraordinários professores da difícil arte de ensinar matemática, uma disciplina para a qual, até hoje, há carência de bons mestres.
Portanto a fundação do Ginásio Minas Novas foi o despertar da comunidade, uma atitude de reação frente ao caos ja instalado e para o qual não surgia a ação das lideranças locais, dos quais bastava apenas a boa vontade e um pequeno impulso, um empurrãozinho como aquele usado pelo Dr. Guaracy.
E foi este honrado juiz, ao lado de sua esposa, que convocou outros líderes como Dr. Agostinho da Silva Silveira e Dr. Vicente Mário Silva, que percebendo a situação beirando ao desespero social, deram encaminhamento ao projeto que tantos benefícios trouxe a favor da cidade, tendo ele buscado o apoio necessário junto à CNEG (hoje CNEC), sigla original que significada Campanha Nacional de Educandários Gratuitos, cuja ação era apenas a de mobilização institucional, pois não contava com dotação orçamentária própria e nem pessoal remunerado para alocar no interior.
Entretanto, graças à abnegação dos professores pioneiros e voluntários, voltou Minas Novas a ter um curso, além do insipiente primário, atraindo para esta cidade a juventude esperançosa das cidades vizinhas, como Turmalina, Chapada do Norte, Berilo e Francisco Badaró, localidades que também sofriam pela falta de oportunidades de progresso e de desenvolvimento, assim permanecendo até a decisão do Estado, muitos anos depois, de autorizar às escolas públicas a instalarem as chamadas "extensões de séries" em seus Grupos Escolares que passaram a ser chamadas, não de ginásios, mas de Escolas Estaduais de Primeiro Grau com turmas de primeira à oitava séries, utilizando-se as professoras do seu quadro remunerado, que para lecionar nas novas classes podiam dobrar turno e mesmo que não fossem habilitadas, para lecionarem aquela matéria específica, iam, na medida do possível, fazendo, durante as férias, o curso de adaptação nas delegacias regionais da Secretária de Educação.
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