OS PANTAS
Os "pantas" moravam nas diversas grotas do Macuco, Mata-Dois, Gravatá, Paiol, Misericórdia, Maluaí, Bateia Quebrada e, principalmente nas proximidades da Fazenda da Bandeira Grande, onde - certamente - naqueles idos da mineração era o núcleo maior em que atuavam como garimpeiros.
Conheci, nas preoximidades da Bandeira Grande, quando ainda era criança, e para aquele agradável sítio era levado por meu pai e meu avô Durval, um casal de negros, já idosos, que vivia numa casa antiga e bem ampla, junto de diversos outros parentes, filhos, noras, genros, netos, bisnetos, sobrinhos e outros "aderentes" que formavam uma razoável comunidade de costumes bem definidos que os faziam muito unidos e dependentes entre eles, dentro do próprio grupo e, ao mesmo tempo, diferentes das demais famílias do lugar.
Eram eles, também, arredios e isolados, como um verdadeiro bando de caititus, que não perdoavam qualquer provocação ou ameaças.
Primeiramente eles se mostravam sempre muito desconfiados de tudo, indo aos rodeios se aproximando mas que preferiam se movimentar e trabalhar somente para eles mesmos, nos mutirões de suas roças, nas construções e reformas das suas próprias casas e instalações e demais atividades das quais dependessem suas mais primárias necessidades.
Desta forma prevalecia entre eles o costume do escambo. Quase não se tinha, entgre eles, notícia da circulação de qualquer tipo de outra moeda vinda de suas mãos e, no máximo, quando tinham necessidade de adquirir no comércio local o que lhes era imprescindível, e sem qualquer possibilidade de consegui-lo internamente, aí sim, é que apareciam com o valor em dinheiro, pagando sempre à vista, pela mercadoria ou serviços demandados por eles.
E era sempre um verdadeiro mistério a origem desse dinheiro que surgia, nessas horas, já que aquele grupo não tinha qualquer remuneração por comércio de alguma coisa que produzissem, para vender, ou de algum trabalho que tivessem prestado para terceiros.
De qualquer forma, no meio daquela comunidade estranha e impenetrável, onde não havia ostentação e abundância, mas que permitia-se que todos levassem uma vida razoável, sem as carências e as limitações às quais se impunham a grande maioria das demais famílias que viviam na mesma cidade, de fato era curioso, porque não existiam, naquela época, os programas assistenciais que hoje existem e que são mantidos por governos e instituições, e era esse um tempo em que os pobres, realmente sofriam a miséria absoluta, pior do que aquela em que sofreram os cativos, no tempo do carrancismo. E, neste caso eles, mesmos não escondiam a ascendência africana, não só pela cor da pele e dos traços marcantes da raça, mas também pela prática de usos e costumes exóticos, tanto na culinária, quanto nos modos domésticos e nos cultos religiosos, tudo muito reservado, mas que nem sempre evitavam de se exteriorizar.
Poucas pessoas da cidade, além de nós que éramos da família de Durval Coelho, privavam de alguma intimidade com eles, naquele meio tido quase como se fosse inacessível aos curiosos.
Eram eles conhecidos como os "Pantas", dos quais ainda existem alguns remanescentes que se denominam com variações de nomes relacionados às antigas famílias a que pertenceram no tempo da escravidão, como “felix”, “machado”, "viana", "beia", "vaz", "alves", “bento”, "guanásio", "valentim", "lopes", "rufino", "costa", "abrantes", etc. os quais têm descendência que continua a habitar a região do Capivari, Cansanção, Capoeirinha, Ribeirão do Meio, Macuco e Bandeira Grande.
Tinham eles o hábito de cultivar pequenas roças nas vazantes dos córregos ou nos locais bem próximos onde garimpavam com suas pequenas bateias. Fora disto uma ou outra atividade de tecer cobertas de pavio, esteiras, peneiras, balaios e jacás. Ficavam enfurnados em suas cafuas e de longe se podia perceber, pelo barulho compassado, a movimentação deles moendo cana, fazendo rapadura, raspando mandioca, socando pilões, lascando lenha ou lavrando madeira, pelo fumaça que saía das fornalhas com o cheiro forte caraterísticos dos grãos ou das raízes usuais e, eventualmente, pelo soar dos chocalhos, caixas e tambores cadenciados conforme o que estavam realizando, fosse de tristeza ou de alegria.
Muitos dos que moravam por perto deles, mesmo sem se aproximar das casas onde residiam os “pantas”, entendiam aqueles sons e sinais e com eles não se incomodavam. A alguns, como a mim, por exemplo, exerciam medo e curiosidade, mas no fundo, achava-os muito interessantes.
Era em ocasiões que muito dificilmente apareciam eles na feira do mercado ou no comércio, somente o fazendo quando estava se aproximando as datas dos festejos juninos, quando um ou outro, dos mais jovens, comparecia numa loja para adquirir tecidos e aviamentos, para fazer uma roupa nova, para comprar um par de sapatos ou um chapéu, comprando, também, pregos, fitas e encordoamentos de viola. Apareciam, assim, em um único e compacto grupo, no dia da Festa de Nossa Senhora do Rosário, quando não entravam na igreja, pela porta da frente, mas pelas laterais, senão nos intervalos em que o movimento religioso normal da festa era menor.
Tinham, pois, sua participação bem particular, discreta e rápida, voltando eles, imediatamente, para sua comunidade, tocando seus tambores e lá em suas casas, acendiam fogueiras e ficavam cantando, dançando e bebendo, ainda por muito tempo.
Nessas datas, combinavam de receber os parentes que vinham da zona rural, para os batizados e casamentos, tudo organizado entre eles mesmos, quando preparavam o que chamavam de "fonção" e na qual permitiam a participação de algumas pessoas estranhas do grupo, geralmente negros como eles mesmos, quando dançavam ao redor da fogueira, batendo tambu e cantando cantigas em que misturavam uma linguagem que só eles entendiam:
" Atoête calunga: Viva Nossa Sinhora do Rosário?"
Aos tambus batiam eles, então, com mais ênfase, sacudiam-se freneticamente e gritavam:
"Vivas!"
Repetiam várias vezes, a mesma saudação, a que os presentes respondiam com muitos outros "vivas" e continuavam com as saudações, danças e canções:
"Viva o povo de ingoma?
Viva o povo de inhomi?
Viva o povo de agoerê?”
Ao que os presentes, em coro, respondiam num canto agudo e comprido, num crescendo lamurioso:
"erê-ê... -ê...-ê... ê-ê-ê... ê-ê... ê...
E começava-se tudo de novo, intercalando-se vivas aos donos da casa, aos presentes, aos santos diversos, ao tempo que iam saltitando, fazendo piruetas, rolando-se pelo chão, contorcendo-se, gemendo, suspirando, assobiando como bugios, cacarejando como aves, bufando como bodes, pulando como macacos, dando voltas, acenado como se estivessem jogando beijos para todas as direções, para em determinado momento, como se estivessem sob o comando de uma única batuta parava tudo, de uma só vez, quando lá longe, dentro de casa ou no meio do mato ouvia-se um grito estridente, seguido de muitos vivas:
"Viva Ianhã-ã-Inhã?
"Viva Inhô-inhô
"Viva quituquim
"Viva aracati -i-i-i
araçá... aracê... iriri...
E, novamente, todo o grupo repetia:
"Eça... aça... ecë... ecê...
Ici... Ici... ici...
E iam repetindo a última sílaba até sumir-se na entonação da voz...
Depois, quando já haviam consumido bastante cachaça, faziam uma grande roda, com alguns rodopiando no centro e com os litros equilibrados na cabeça, batendo palmas e cantando;
"Essa roda aqui é de preto só
"Se branco entrá, cai no cipó...
“Sinhô rei, sinhora rainha
"Só guarda pra mim
Sobrecu de galinha
“Tá serranu... tá serranu...
Tá serranu de serrote:
Muié tem força na língua
Como boi tem no cangote. "
"Cê pica a cana, ispinica o bagaço
Minina bunita, me dá um abraço:
"Engenho novo, tá moendo tá...
"Engenho novo, tá moendo tá...
E era justamente nesse interim que o carpinteiro Jovelino, um dos donos da casa, dando um pinote no meio da roda, ponteando sua viola, entoava assim os suas cantigas::
"Oia o atoête, calunga:
Viva o povo de ingoma?
Viva o povo de inguerê?
Viva o povo de imburerê?
Esse tambu é de pau, ou é de ferro?”
E os presentes então respondiam:
É de pau... É de pele
É de bambu... É de osso
É de força e pregado de ferro
É de nervo e batido no couro
Mas num é de ouro
Num é de ouro,mas é de couro
O tambu é de couro,
como ouro... ouro... ouro ...!
rou - rou - rou - ou... ou...
Ao que os outros continuavam, todos em coro:
E nós, somos é de ferro?
E nós inferruja?
E o Candombi, bebe ou num bebe?
Candombi... candombi...candombi...
Candonbibi... bibi... bibi...
E o tatu trepa pau?
É mentira muleque...
É mentira muleque...
É mentira muleque... muleque...
E caxinguelê tem couro?
Cumé o couro do caxinguelê?
Caxinguelê-caxinguelê- lelê... lelê
Caxinguelê- lalá...
Caxinguelê - lalá...
Eu pus meu cará no fogo
Mandei Maria oiá
Maria mexeu virou
Deixou meu cará queimá
Balaim de fulô
Balaim de fulô
Balaim de fulô,
Mexeu, virou
Mas o cará queimou
Xou meu zabelê
Xou meu sabiá
Toda madrugada em sonho cum você
Se oncê num acredita eu vou
Sonhá que proncê vê.
Oi sussa, sussa Açucena
Oi Sussa’eu, cená...
Oi sussa, sussa Açucena
Oi Susseu, cena...
Bota fogo na giranda,
Quero ver queimá
Ocê tá doido, mangangá.
Bota fogo na giranda,
Quero ver queimá
Ocê tá doido mangangá...
Taquei fogo na giranda
E a Coivara já subiu
Se oncê ainda me ama
Zumirão, porque sumiu?
O besouro é vem ‘o danado,
Ele vem pretinho ‘o meu bem,
Chuleia esse besouro ‘o danado,
Bem chuleiadinho, ‘o meu bem.
E Felão vem?
Num vem não...
Pru quê qui num vem?
Num sei não...
E a roda vai rodando, poeira vai subindo, e o povo vai chegando e o dia vai raiando..
Galo cantou
No raio da madrugada
Felão mandou
Parar com a batucada.
Segundo o que se sabe, pela crônica popular, é que esse tal de Felão era um sargento reformado, mas muito temido, por ser "bate-pau" ou pau-mandado dos políticos locais e, investido dessas funções, achava-se no direito, como uma verdadeira autoridade, de se intrometer em tudo que ele achava que tinha de interferir, e o povo tremia de medo só de falar o nome dele. Ninguém gostava desse "quarterião" mas só para não serem perseguidos por ele é que todos atendiam suas ordens.
Felão na casa pobre
Sinal de mais misera
Num come orapronobi
Nem canguçu na panela.
E o fato é que toda essa cantoria vai dizendo coisas do dia-a-dia daquela gente, a exemplo desta que descreve as mandingas, que preparavam para fazer dormir as pessoas quando estas estivessem atrapalhando a “fonção”, cujo segredo consistia em raspar a raiz torrada do canguçu-preto, para "derrubar", e o pó de canguçu-branco para "levantar", sedo estas mesinhas as que eles adicionavam à comida, a ser servida ao folião indesejado, na cachaça, ou então aquele pozinho que eles carregavam junto com a cornija de rapé e davam à pessoa escolhida para cheirar. Trata-se esse pó, de um sonífero preparado adredemente, a partir de certas raízes encontradas nos pés de chapada, que em doses maiores torna-se perigoso veneno e, sabendo-se dosar, dizem que funciona também como remédios e contraveneno de cobra e outras peçonhas.
“Um pouquinho só que eles trazem dentro das unhas e sacodem perto das ventas, de um desses infelizes, coloca-o fora de combate por um dia.”
“A raiz do carapiá, que no cigarro faz a fumaça ficar agridoce e com gosto de mel de jataí, se torrada junto do mandubi de aroeira, é mesmo que preparar estriquinino ou a manaíba do rei do sono. (Chico Louro).”
“Prá curar verruga é só rapar (friccionar) o olho de boi na lapa, até esquentar, e encostar a bage quente no lugar que quer ficar liso”. (Maria Cutuca)
“Chá das folhas de jalapa, casca do pau de babatimão, resina de jatobá, tudo adoçado com rapadura de picumã, mais farinha de casco de teiú torrado, cabelo de orelha do guará (também torrado e moído), cura tudo que é corrimento de mulher e doença de rua no homem, e até mal dos peitos, seja em velho ou gente nova. Só num pode é logo depois tomar banho em lugar aberto durante um mês.”(Menã)
“Na verdade, trata-se de poderoso depurativo do sangue. Em doses cavalares, já vi serem aplicados em leitões, nos chiqueiros, que, quando não acontecia de matar os filhotes eles colocavam pra fora montes de lombrigas, tênias e solitárias.” (Zé Louro)
O raizeiro Zé Louro castrava a qualquer animal com muita eficiência, fosse macho ou fosse fêmea, sem lhes deixar cicatrizes, e fazendo na virilha deles uma pequena incisão com um canivete bem afiado e esterilizado no fogo que ele acendia em uma resina que ele obtinha tirando-a de um barranco. Essa resina parece que era a mesma hulha preta que os Panta usavam dentro dos candeeiros para alumiar o terreiro. De noite a claridade fica meio prateada e a fumaça tem forte cheiro de enxofre queimado. Quando eu era menino tive a oportunidade de comparar, colocando fogo na metade de um isolador de poste do telegrafo que achei jogado no morro do caçador. Somente a cor do fogo era um pouco diferente, mais azulado do que prateado, que saia da louça do isolador, mas o cheiro da fumaça era idêntico, provocando náuseas e vômitos.
Segundo o próprio Zé Louro, todo casco duro de animal que arrasta (tatu, teiú, jacaré e cágado) contém também bastante carbonato, enxofre e outros “ingridiente” que servem de vitamina e fortificante, tanto para menino inguiçado, franzino ou apirriado, como para gente grande, velho perrengue, e mulher de entojo ou parida, pra todas as pessoas que sofre malacafenta.
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