CÔCA E SALIA
"Benzim dos outros,
Benzim, faz favor de me querer
Benzim, dinheiro eu não tenho
Benzim,
Mas o carinho sei fazer
Até demais ...."
Quando se fala em folclore e nas festas populares da região de Minas Novas, vêm-nos imediatamente à memória as cantigas de roda e os famosos mangangás que, com a dedicada preocupação de minha irmã Sãozinha, tento agora através deste humilde blog preservar e divulgar, além destes registros escritos, também no formato de gravação em estúdio fonográfico, de uma forma bem primária, mas que é a que posso me valer neste momento.
E, da mesma forma que existe, em cada arte um artista que nela se destaca, foi justamente nessa arte de entoar cantigas de roda que se destacou a insuperável dupla formada por Socorro de Nazaré e Salia de Donata. Pois eram essas, essas duas maravilhosas criaturas, figuras populares muito queridas em nossa cidade, pessoas simples, cujas vidas - tão breves - foram marcadas de muita alegria e de calor humano, essas riquezas fundamentais que milagrosamente podem usufruir somente as pessoas dotadas de bom coração, as que nada pedem e que tudo doam, que tudo que têm querem dar aos que precisam e aos que delas se acercam.
Côca - como era carinhosamente chamada - e Salia, tinham em comum um porte físico atarracado, de uma compleição pouco favorecida pelos padrões normais da beleza que geralmente se espera no gênero feminino, o que em nada lhes afetava, contudo, a vaidade e a boa disposição quando se apresentavam em qualquer lugar, nas festas populares da cidade.
Apesar de baixinhas, desengonçadas e pobres, por esses atributos não demonstravam elas qualquer tipo de complexo, pelo contrário, faziam questão de se mostrarem como de fato eram, de corpo inteiro, com naturalidade, usando no máximo suas roupas bem características delas, nas quais combinavam os detalhes nos babados, nas pregas, nas cores vivas e alegres como elas mesmas, quando iam à igreja ou às festas, em que geralmente eram sempre receptivas e destacadas.
Faziam isto com gosto e com o melhor senso de humor, jamais agredindo ou desrespeitando as pessoas, pois eram elas, também, exemplos de comportamento social, tendo recebido de suas famílias uma boa formação e, por isso mesmo, eram bem-vindas e consideradas em todos os lugares.
Não havia serviço honesto dos quais as duas se esquivassem: eram ótimas cozinheiras, incríveis doceiras, lavandeiras, lenhadeiras, aguadeiras, varredeiras, bóias frias, engomadeira, parteiras e até carpideiras e em todo evento social elas estavam presentes sem nada exigir, sem nada pedir, mas espalhando dedicação, desejo de servir, como exemplo de companheirismo, de caridade, de simpatia e, acima de tudo e em grande escala, de muita sabedoria popular traduzida nas brincadeiras de roda, do movimentado mangangá e das cirandas, com seus passos e cantigas ora alegres, ora tristes e às vezes nostálgicas.
Ambas viveram pouco tempo nesse mundo de Deus, vitimadas que foram pela exploração irresponsável de seus empregadores numa empresa de reflorestamento que jamais soube respeitar as características humanas dessas e de tantas outras criaturas frágeis, debilitadas e carentes pessoas de nossa cidade, essa terra que foi assaltada pela incúria dos aproveitadores e dos grilheiros de tantas terras.
Tiveram elas, essas duas brincantes e trovadoras, as suas existências encurtadas pelo exercício de um trabalho exaustivo e degradante no meio de agro-tóxicos, da poeira, da fuligem, do transporte penoso sobre carroceria de caminhão, sem merecerem os cuidados a que tinham direito, segundo as leis trabalhistas, tais como a disponibilidade de alojamentos adequados, cantinas, plano de saúde, mas, ao contrário, ambas foram submetidas a toda sorte de situações desfavoráveis, durante o longo tempo em que trabalhavam em pé de igualdade com os demais peões, bóias-frias, tratores-giricos e máquinas de arrasto. Mas disso tudo elas - de tão humildes - nunca souberam reclamar, pois não sabiam e nem mesmo tiveram tempo de fazê-lo.
E a bondade delas, nada em troca pôde beneficiá-las.
A ausência delas deve ser até hoje, um amargo suplício para seus familiares que, de repente, viram-se privados, não só da bondade, da ternura e da presença delas, esteios firmes e seguros que representavam para todos, tanto nos momentos alegres como nos momentos de seriedade ou de tristezas, como uma firme proteção que sabiam construir através da solidariedade e do companheirismo.
A triste partida, delas, embora saibamos, com toda certeza de que tiveram a melhor acolhida lá na Casa Celeste de Nossa Senhora do Rosário, deixou aqui entre nós um vazio imenso, que vai sempre ser percebido no meio do povo e nos principais lugares onde se reúne a irmandade, mais ainda quando se aproximam os dias da Festa do Rosário na qual elas tanto gostavam de participar e abrilhantar.
A lembrança dessa inolvidável dupla é para alertar a todos da grande necessidade que todos nós devemos ter, da obrigação que temos de preservar a arte, não só porque é preciso louvar sempre à Mãe de Deus, com orações e cantos, mas pelo fato de que é importante, também, valorizar o cantar, o canto simples que nasce do coração das pessoas simples, sofredoras e desamparadas pela justiça e, muito mais importante ainda, é valorizar-se a fé como instrumento de amor e de esperanças no bem e no esforço de se pugnar pela cidadania e pelas possibilidades de uma vida digna para todos.
VIVA NOSSA SENHORA DO ROSARIO!
OIA O TULETE KALUNGA:
VIVA NOSSA SENHORA DO ROSARIO!
VIVA SOCORRO ALECRIM!
VIVA SALIA, A SAUDOSA ROSÁRIO DE
DONATA...
DONATA...
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