Viajando de caminhão, de jeep e pela nave inexorável do tempo, chegamos aos dias de hoje.
À frente de minha televisão, assisto o repórter informar que lá na Patagônia do Chile um lago do tamanho equivalente a 10 campos de futebol desapareceu em poucos dias, misteriosamente, sendo que toda a comunidade científica internacional está indignada – com muita razão – e quer saber as razões de tamanha catástrofe natural que atingiu uma importante região, onde não vive uma só alma.
Eu, cá com os meus botões, fico imaginando como deveria ficar a mesma comunidade internacional se soubessem que no município de Minas Novas, onde as catástrofes sociais são tão avassaladoras como muitas naturais das maiores dimensões, existiam várias lagoas que também desapareceram, sendo que apenas uma delas era maior que a área equivalente a 200 campos de futebol, sendo que o povo do município – sempre sem qualquer direito ou razão – até hoje não pode nem reclamar da ACESITA que é a responsável pela tragédia, conscientemente praticada, que prejudicou e continua prejudicando mais de 5.000 pessoas que ali vivem, na localidade que, por ironia do destino, chama-se de Lagoa Grande e é a terra natal do atual prefeito desse indigitado município..
E, de tão confuso, mudo o canal da TV. Vou passando de programa em programa, viajando neste veículo maluco que nos leva para todas as partes do mundo, sem sair do lugar, vendo o que quer e o que não quer.
Em cada emissora e em todos os noticiários o tema é o mesmo: milhares e milhares de passageiros amontoados nos aeroportos brasileiros aguardando seus vôos para as várias partes do Brasil e do Mundo.
Nos canais exclusivos dos deputados e senadores os diversos parlamentares se revezam denunciando sempre essa tão grande catástrofe que se abate sobre os passageiros e as empresas da aviação de nosso rico país. Os oradores se exaltam, esmurram a tribuna, xingam o Presidente Lula e acusam o seu governo de incompetente e de estar causando essas maldades ao povo do país. As câmaras mostram as filas imensas nos guichês e nas salas refrigeradas de embarque dos confortáveis aeroportos das luxuosas capitais do nosso festejado Brasil.
Exigem que o governo, de uma hora para outra, como se tivesse o poder de agir como os mágicos, resolva a crise do setor aéreo, imediatamente e ao toque de caixas, duplicando os aeroportos e permitindo que vários vôos sejam colocados no ar, ao mesmo tempo, através de pistas seguras que deveriam de ser construídas da noite para o dia. Os controladores de vôos, aproveitando-se da crise e vendo nela a oportunidade de forçarem o governo a engrossar os seus já polpudos contra-cheques, partem para as operações padrões, para o contingenciamento injustificável de seus plantões, fazem corpo mole e anunciam que a crise tende-se a agravar cada vez mais se não houver mais recursos destinados à contração de mais profissionais e exigindo, cada vez mais, vantagens e mais vantagens para que possam voltar regularmente ao trabalho.
A oposição esbraveja, convoca CPIs e chega até a exigir a destituição de ministros e de proporem o imediato impeachment do pobre presidente da república, que, por sua vez, não sabe o que fazer.
Minha bisavó, que só respeitava ao seu Santo Antônio, padroeiro e protetor, dizia que quem não pode com mandinga não deveria carregar patuá. Ela era uma velhinha atrevida, sem cultura, mas que sabia colocar, em cada situação, uma sábia observação, às vezes até muito corriqueira, mas que servia para ilustrar o que ela queria criticar, combater e corrigir. Com ela aprendi que jamais deveria colocar o meu chapéu em cabide que meu braço não pudesse alcançar. E, também, que não deveria dar um passo maior que minha perna, chegando a me proibir de acreditar em rádio, pois, segundo ela, “o radio mente muito”. Imaginemos, então, se ela fosse viva e ficasse vendo essas cenas na televisão. É bem provável que não sobraria nem os cacos de vidro que ficassem com as bengaladas que ela certamente tentaria acertar tanto a repórteres da TV quando aqueles políticos lá em suas augustas tribunas do Senado Federal ou da Câmara dos Deputados.
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