UM BALCÃO DE JACARANDÁ, POR UM CHAPÉU DE MASSA:
A casa “Três Irmãs” era a vistosa loja do Coronel João André, onde a sociedade local comprava as novidades trazidas da capital pelos “cometas”. Era a loja da moda e o “point” onde se reunia, à tardinha, a “boa roda” que era convidada para degustar uma xícara de chá, uma chávena de café quente com manteiga de garrafa , um cálice de licor ou apenas para as amenidades de um dedo de prosa.
O coronel era por todos muito estimado e, diferentemente da prática política que era a da opressão e do mandonismo, ele exercia uma liderança alicerçada na amizade, na camaradagem e no convívio harmônico, sem impor exigências de dominação, a todos acatando com muita paciência e aquela sua característica conselheira e paternal.
Não se interessou pela carreira política, nela militando apenas a nível local, onde, por diversas vezes, chegou a ocupar a presidência da Câmara Municipal, que naquele tempo era o órgão responsável por todos os assuntos afetos à administração, tanto na área legislativa como no executivo.
Nas prateleiras de sua loja, protegidas pelos vidros de correr, exibiam-se variedades como as estamparias e os tecidos finos os, chapéus, os calcados, brinquedos, armarinhos , perfumarias, artigos nacionais e importados
O nome do estabelecimento era uma homenagem às três filhas do Coronel João André da Costa, com sua esposa, Dona Maria Herculana de Figueiredo, de nomes Rosinha, Rosarinha e Celuta, donzelas formosas, prendadas, elegantes e muito bem educadas em colégios de freiras
O enorme balcão de jacarandá era a mesa de trabalho do coronel e era ali, sobre aquele antigo móvel, que o velho comerciante fazia a sua cesta, após o almoço, mesmo que o estabelecimento estivesse com suas imensas portas abertas e, dentro dele, ainda que restasse algum freguês, este teria que aguardar o atendimento, pois aquele horário era sagrado, em toda a cidade, quando todas as atividades eram, normalmente, suspensas para o tradicional descanso, pois, afinal, ninguém era de ferro, como hoje em dia.
O Coronel João André, antes da política, colocava acima de tudo o seu lado empreendedor e se apresentava, com muito orgulho, como “negociante”, esse termo que é hoje substituído pelo de “empresário”, palavra que não tem o alcance daquela outra, na importância que se dava à profissão, por parte daqueles que a exercia, em um tempo e numa região onde as dificuldades, de toda ordem, eram bem maiores que as atuais.
O comerciante, muito mais que hoje, era uma figura da maior importância na comunidade e, no papel de seu titular, conferia-lhe o maior respeito e a mais valorizada notoriedade.
Aos domingos, era comum abrir-se as lojas, pela manhã, após a santa missa matutina, para receber e atender aos fazendeiros e as visitas que vinham de longe conhecerem as novidades.
Sobre o velho e lustroso balcão da tradicionalíssma “Casa Três Irmãs”, mandava a Dona Cula estender-se uma toalha de linho, muito bem engomada, primorosamente vasada em crivo e ornada com rendas portuguesas, para serem servidos os quitutes da Ritinha, com o bule de café pelando de quente, além do queijo e do requeijão moreno, que naquele dia, era sempre mandado vir da fazenda do Setúbal. Sendo o portador, invariavelmente, o próprio Quincas do Riacho, velho compadre, rico fazendeiro, solteirão convicto e um dos maiores capitalistas da redondeza, que emprestava dinheiro a juro, fazendo daquele local, e daquele dia santo, o seu ponto e o expediente tão favoráveis, com o ambiente ideal para os acertos financeiros, tendo, ainda, a possibilidade de contar com a participação, nessas empreitadas, com a atividade experiente e honorável do seu compadre coronel, a quem depositava confiança absoluta.
Os negócios iam-se avolumando, e para auxiliá-los, nessas complicadas tarefas, tornou-se imperioso contratarem o trabalho de um escriturário competente para aquelas funções, que fosse inteligente e dedicado, recaindo essa escolha no jovem Gabriel Borges, afilhado de Dona Herculana, um rapaz muito bem recomendado e que havia chegado, vindo da zona rural, para completar os seus estudos na Escola Normal do Dr. Martiniano.
E foi o próprio “Tio” Gabriel que me contou esta passagem:
Certo dia de domingo, quando o movimento da “banca” estava mais intenso que os dias normais, e que os dois compadres faziam contas, refaziam os cálculos e trocavam suas impressões, ao consultarem uma ou outra caderneta, de cliente duvidoso, talvez preocupados com possíveis caloteiros que rondavam a praça ultimamente, viram-se, mais que nunca, mas sem querer admití-lo, que já era a hora de aposentarem-se naquele complicado ramo.
Conversa vai, conversa vem, um gole de café, um biscoito de goma, uma lambida na palha de fazer cigarros e, estava lá o compadre Quincas picando seu fuminho “terra-de-feijão”, sobre o famoso balcão de jacarandá, e o distinto coronel, muito mais preocupado com o seu balcão, vendo-o displicentemente sendo riscado pelo canivete afiado do compadre, tendo nas mãos, nervosas, o chapéu de massa do compadre e, na medida que um picava o fumo sobre o móvel, o outro picotava o referido chapéu com a tesoura da loja.
E cada um ficou olhando o “trabalho” do outro, até que, dando-se conta do que ocorria, o compadre Quincas, vendo o coronel picotando seu chapéu, levantou-se, de repente, e disse, já meio que assustado:
“- Uai, meu compadre, por que qui o “ coroné” tá cortando a aba do meu chapé?
Ao que o coronel, muito calmo e solene, retorquiu:
- Pudera, homessa , ‘ora meu compadre Quincas, pois veja vosmecê, por um acaso, que não estaria, também, danificando o pobre do meu balcão?
- Cáspide! ... irra ... ... ...”
E os dois, apaziguados e sem qualquer mágoa, e já de braços dados, foram procurar um local mais adequado para administrar suas transações financeiras e empresariais, conscientes de que nada haveria, para eles, de mais importante no mundo, do que um lindo balcão, um chapéu Cury, mas acima de tudo, uma boa e sincera amizade.
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