O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA
Somente nos dias da Festa do Rosário, 23, 24 e 25 de junho, quando a irmandade está reunida, é que se retiram dos cofres as jóias de Nossa Senhora, um razoável acervo de medalhas, moedas, broches, cordões, brincos, diademas e coroas, de prata, ouro e pedrarias, todo esse tesouro, mais histórico que pelo seu valor sonante, que fica depositado em custódia especial do Banco.
De todas as jóias, entretanto, a mais valiosa e mais digna de admiração é, sem dúvida, o maravilhoso rosário todo confeccionado com pedrarias encastoadas de ouro.
Este rosário foi um dos presentes ofertados à irmandade pela Princesa Isabel, bem antes da abolição da escravatura, pois também foram presentes da Família Imperial muitos dos objetos de prata de lei que compõem o acervo, como pálios, tocheiros, ostensórios e âmbulas que durante as cerimônias sacras são utilizadas solenemente.
O vistoso rosário por um bom tempo ficou desaparecido, fazendo recair em várias pessoas do lugar a suspeita de roubo, causando grande sofrimento não só às famílias dos acusados, mas em toda a irmandade que congregava, praticamente, toda a população da cidade, naquela época.
A cada festa sentia-se aquele constrangimento geral em razão daquele o extravio da importante peça. Os festejos já nem eram comemorados com tanta pompa e entusiasmo.
As investigações não cessavam até que certa vez resolveram apertar um dos suspeitos, levando-o até à delegacia policial onde ele, aos prantos e jurando sua inocência, pediu clemência a Nossa Senhora do Rosário, rogando-lhe clemência, pedindo fervorosamente à Santa Padroeira que apontasse, de alguma forma, o verdadeiro culpado.
Como estava muito velho e doente, deixaram-no solto e ele retornou a sua casa, onde já acamado e delirante, afirmava que o larápio seria encontrado, a qualquer momento, morto e seco junto do precioso objeto desaparecido.
Passado algum tempo e aproximando-se o dia da festa, quando a irmandade, segundo os costumes, se reúne para a Lavação da Igreja, na Quinta-Feira do Angu, ao mandarem corrigir uma goteira no teto, encontraram um ninho de coruja na cumeeira do telhado, bem escondida entre velhos ovos não eclodidos, com a ossada podre e as penas da ave, onde reluziam, entre aque imundicie, as lindas contas de brilhantes do Santo Rosário.
Correram todos à casa do principal suspeito, para dar-lhe a boa nova: Ao chegarem, encontraram-no a tempo dele ser informada daquele achado, porém, já agonizante, mas sorridente e com a expressão serena e calma das pessoas de bom coração e de consciência tranqüila, tendo sobre si uma velha bandeira azul e vermelha com a qual durante muitos anos fazia na zona rural o "giro" da Folia de Nossa Senhora do Rosário, um rito antigo que os padres atuais ainda teimam em proibir, por julgá-lo profano, encontrando nele laivos do candomblé -- esse o motivo da injusta perseguição por parte das autoridades, utilizando-se deesse moribundo como "bode expiatório"- durante toda aquela triste e injusta situação.
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