XIII
MAIS UM POUCO DE HISTÓRIA
O município de Minas Novas, sendo um dos mais antigos de Minas Gerais, era também sede de uma das primeiras comarcas, instalada ainda no tempo do Império.
A Vila do Fanado das Minas Novas foi fundada pelo bandeirante paulista Sebastião Leme do Prado, oficialmente no dia 02 de outubro de 1.730, data em que foi efetivamente instalada, por ordem do vice-rei, Dom Vasco Fernandes Cezar de Menezes.
Entretanto, tem-se notícia da povoação, no mesmo local, denominada de Bom Sucesso, já no ano de 1.715 conforme descreve o historiador Pe. Manuel Aires de Casal in "Corografia Brasílica" (publicação de 1.817):
"A Vila do Bom Sucesso, vulgarmente mais conhecida pelo nome de Fanado, criada no ano de 1.715 é medíocre, e bem situada num terreno levantado, e lavado de ares salutíferos entre as ribeiras, que lhes deram os nomes, e unindo-se entram no Rio Arassuaí, que passa 6 milhas arredado pelo norte, ornada com uma igreja matriz dedicada ao príncipe dos Apóstolos, as capelas do Senhor do Bonfim, de Nossa Senhora do Amparo, dos pardos, de Nossa Senhora do Rosário, dos pretos, de Santa Ana, de São José, de São Gonçalo, e uma ordem terceira de São Francisco. Tem Juiz de Fora, e Professor régio de Latim. Nenhuma casa é de pedra. Seus habitantes são mineiros, criadores de gado vacum, e lavradores de víveres, algodão, e canas-de-açúcar: alguns procuram pedras preciosas: os negociantes são os mais abastados e independentes. Fica 63 léguas ao nordeste de Mariana, 60 ao mesmo rumo de Sabará, 36 ao nordeste de Vila do Príncipe, 135 ao norte do Rio de Janeiro. Pertence ao Arcebispado da Bahia".
A paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso das Minas Novas do Fanado foi criada por Alvará Régio datado de 1.728 e conforme Diogo de Vasconcelos, o governo de Portugal, a 21 de maio de 1729, já havia mandando que se criasse a Vila de N.S. do Bom Sucesso de Minas Novas do Araçuai, o que se deu a 02 de outubro de 1.730; e que as mesmas Minas ficassem sujeitas ao governo da Capitania da Bahia.
O município de Minas Novas passou a contabilizar, oficialmente, a sua produção de ouro, (muito ouro, mais de 200 arrobas somente no ano de 1756), sob a administração civil da Vila do Príncipe (Serro) quando as demais lavras, chamadas de "minas velhas" localizadas no Ribeirão do Carmo (Mariana), Vila Rica (Ouro Preto), Sabará, Caeté, Santa Luzia e outras já estavam se esgotando, tornando-se a Vila do Fanado como o novo "eldorado" a região que passou a ser conhecida como das "minas novas".
As colheitas anteriores, quando era indefinida a jurisdição dos descobertos, ora dependendo da Bahia, ora da província das Minas Gerais, foram desencaminhadas para os bolsos particulares dos intendentes e dos arrematadores das cartas-patentes.
Mas não era só ouro a riqueza que os aventureiros passaram a buscar na região: havia, também, muitas pedras coradas e principalmente diamantes, crisoberilos "olhos de gato" e os chamados "pingo d'água", que nem mais existem em estado natural, mas com o nome de "minas novas" fazem parte das pedrarias do Alhambra, de Mafra, em coleções de jóias, nos grandes museus europeus, em tesouros da Índia, do império japonês e dos palácios do Kremlin.
Naquele tempo não existia cimento nem ferro, como se usa hoje, e na construção civil a base para as edificações era a madeira.
Era essa época o período em que se construíram as imensas igrejas e palácios, em todos os lugares que começavam a se expandir, que além dos andaimes, escoramentos, soalhos, portas, janelas e esquadrias de toda ordem, necessitavam também de muitos móveis, cofres, carruagens, etc.
Portanto as madeiras nobres eram tão necessárias (e portanto cobiçadas e lucrativas) como as minerações, as explorações em lavras de pedras coradas e o garimpo de diamantes.
E foi assim que pelo trabalho calculado de mais de 20.000 escravos, dispensados das antigas minas e garimpos do ouro, passou-se à exploração predatória de madeiras de lei, a base da nova economia da Vila do Fanado, desbravando as florestas de jacarandá, peroba, jequitibá, bálsamo, baraúna (e outras raras e não menos nobres como maria-preta, mogno, maria-mulata, pau-sangue, pau-ferro, vinhático e carvalho), hoje extintas na região, além de outras que ainda bravamente resistem com a chegada do terrível eucalipto, como o angico, a aroeira, a sucupira, a candeia, o pequizeiro, o jatobazeiro, etc.
Liquidadas as matas virgens do Vale, entrou a região de Minas Novas na fase agrícola, primeiramente com o cultivo em larga escala do algodão, uma monocultura intensiva que exige muito do solo e que logo determinou sua substituição pelas pastagens de capim e leguminosas exóticas e alienígenas.
A essa altura, porém, a sede da Vila do Fanado, pela força da lei 163, de 09 de março de 1.840, foi elevada 'a condição de Cidade de Minas Novas, figurando como "uma das mais importantes cidades médias do Brasil", conforme fazem referência SPIX e VON MARTHIUS in "Viagem Pelo Brasil - 1817 - 1820 (Ed. Itatiaia- BH))
É sabido que durante a exploração intensa dos garimpos de ouro e das descobertas de diamantes e pedras coradas, não se permitia que o trabalho escravo fosse utilizado nas lavouras o que as tornavam inviáveis, situação que só se modificou quando da introdução do cultivo de algodão em larga escala, cuja área depois de exaurida pela monocultura exigente de manejos e cuidados não observados pelos inexperientes produtores, também pouco esclarecidos, foi cedendo lugar às pastagens que iam incorporando na medida em que aumentavam-se os rebanhos bovinos.
A fabulosa Igreja de São Pedro, o príncipe dos Apóstolos, demolida na primeira década do século passado, foi construída para ser a catedral-sé do bispado o que não chegou a ser concretizado devido a sérias divergências instaladas na luta de interesses contrariados entre os chefes da política local com a Igreja, sediada em Mariana, em prolongada demanda pelos bens que foram confiscados do inconfidente tenente-coronel Domingos Abreu da Mota Vieira, cujo processo judicial, sem julgamento até hoje, desapareceu de um dos cartórios no fórum da cidade, mas do qual existem algumas certidões.
O próprio edifício do Sobradão, cuja obra foi terminada em 1.811, que é hoje um ícone da arquitetura colonial, era destinado a ser o centro administrativo da Província do Jequitinhonha, conforme projeto do Deputado Antônio Gabriel de Paula Fonseca que somente foi apreciado em 22-08-1856, quando já se inviabilizava a antiga proposta dada a decadência da mineração, naquele momento em que já estava em curso todo um processo de esvaziamento político da cidade, além das gestões do comando local favorecendo os interesses do liberal Teófilo Benedito Otoni, político que por alguns anos ficou confinado na Vila do Fanado cumprindo pena de degredo (usando o nome fictício de Dr. Magalhães) e que, já anistiado, passou a ser privilegiado com fartos investimentos no seu acalentado projeto ligado ao desenvolvimento da região do Mucuri, transferindo-se para o distrito de Filadélfia, recém criado e logo depois desmembrado como município autônomo, para lá indo a totalidade dos recursos oficiais que deveriam ser aplicados na antiga Vila do Fanado, ficando a abandona Vila do Fanado praticamente a "ver navios" a partir de 1860.
Contavam as pessoas mais antigas da cidade como meu bisavô Domingos Mota, vovó Idalina Pinheiro Sena, Mestre Frederico Roxo, Dona Naná Costa, Sinhá Fina Santos, Benedito Mendes e muitos outros com os quais convivi na minha infância, que a partir dos meados do século dezenove a cidade de Minas Novas chegou a tal ponto de decadência que os fazendeiros, comerciantes e profissionais liberais iam abandonando-a, aos grupos e em caravanas, deixando para trás seus antigos imóveis com as chaves na porta e nas porteiras, levando tudo o que lhes pudessem ser útil e o que podiam carregar, aqui ficando apenas o lixo e o que não se prestava para mais nada.
Não por mera coincidência, mas com o fito determinado de bisbilhotar a janela do passado, procurei conhecer, na cidade de Teófilo Otoni, durante o final dos anos sessenta e início da década de setenta, quando trabalhava naquela região, a figura simpática de um velho morador, conhecido por “seu” Abel, já com 92 anos, que naquela cidade havia chegado, ainda muito jovem (18 anos), no final do século XIX, quando aquele era ainda novo município,.
Segundo este peioneiro ele ali chegou e se estabeleceu com a profissão de sapateiro, segundo seu próprio relato, e que dentro de pouco tempo viu sua pequena tenda crescer e se transformar em um dos mais movimentados e lucrativos estabelecimentos comerciais do florescente lugar, sendo que, a partir de uma determinada época, a venda de calçados, de chapéus e de arreios, que era a principal atividade mercantil da loja, teve que ceder lugar às operações financeiras que passaram a ser mais vantajosas, que eram as de desconto de títulos e de empréstimos aos demais comerciantes, que a cada dia vinham se instalar naquela nova praça, localizada no Vale do Mucuri.
Segundo este peioneiro ele ali chegou e se estabeleceu com a profissão de sapateiro, segundo seu próprio relato, e que dentro de pouco tempo viu sua pequena tenda crescer e se transformar em um dos mais movimentados e lucrativos estabelecimentos comerciais do florescente lugar, sendo que, a partir de uma determinada época, a venda de calçados, de chapéus e de arreios, que era a principal atividade mercantil da loja, teve que ceder lugar às operações financeiras que passaram a ser mais vantajosas, que eram as de desconto de títulos e de empréstimos aos demais comerciantes, que a cada dia vinham se instalar naquela nova praça, localizada no Vale do Mucuri.
A antiga sapataria de “seu” Abel, por muito tempo, era o estabelecimento financeiro a operar quase um banco, onde se faziam volumosas e importantes transações de crédito, as quais porém, jamais admitiu serem qualificadas como agiotagem, mesmo que essas, como não se escondia, fossem ao arrepio da legislação reguladora da atividade bancária, cujos fiscais, porém, somente lá pelos idos de 1965, quando o velho Abel já estava afastado do estabelecimento, é que resolveram tomar alguma atitude repressiva, culminando com o fechamento daquela antiga “banca”.
E um detalhe, que me foi revelado nesse tempo, é que aquela atividade de agiotagem o “velho” Abel havia trazido de sua terra natal, Minas Novas, de onde veio como empregado de um dos membros da família Badaró, a mando dos chefões daquela cidade, com a missão de ser o representante dos interesses daqueles patrões, instalados no florescente município recém emancipado, garantindo para eles o novo filão de lucros que já se anunciava, sendo aquele estabelecimento, em Teófilo Otoni, o balcão onde se realizavam os negócios mais lucrativos, sempre com a parceria daques que, às escondidas, eram os principais capitalistas, justamente os Badarós de Minas Novas, que ali mantinham um batalhão de prepostos (hoje chamados de “laranjas”) sempre atentos nas oportunidades de lucro que surgiam a cada instante.
Em Teófilo Otoni, onde quase ninguém nem mesmo sabe do fato de que aquela cidade, um dia não muito distante, já foi um distrito que se emancipou de Minas Novas , lá,até hoje alguns se lembram de que as pessoas mais influentes, tanto na política local como na economia, eram estreitamente ligadas à família dos Badarós, e que estes eram os principais financiadores de todas as atividades rentáveis, em toda a região, como os fazendeiros de café, os pedristas (ourives, joalheiros e lapidários), os madeireiros, construtores, empreiteiros de estradas (rodovias e ferrovias), além dos capitalistas que bancavam as importações e as exportações, usufruindo-se da força política para monopolizar até as atividades de jogos e outras atividades ilícitas que se instalavam, a reboque do crescimento econômico que ali se verificava.
Nesse particular, como fonte dessas informações, é importante citar-se as referências dessas figuras importantes, no cenário da cidade de Teófilo Otoni e da região, como o Dr. Petrônio Mendes, o Dr. Geraldo Landi Paulino, Tiago Luz, Juca Quaresma, Monsenhor Otaviano Magalhães, Dr. Osorito Colares, Antônio Esteves Vieira, Bamberg, Meuzinho Gazinelli, Alexandre Mattar, Pedro Abrantes, João Barreiras, Silvio Ganem, Professor Geraldo do Norte, Amintas Guedes, Inhô Figueiredo, Antônio Figueiredo, Né Soares, Joaquim Rodrigues, além de Dona Maria Rosa Pimenta e Serafim de João Antônio e tantas outras fontes que irei lembrando os nomes, no curso dessas memórias, e das quais, sempre eu as indagava sobre os fatos que elas possivelmente sabiam e que poderiam me repassar, sobre a história comum entre essas cidades e o município de Minas Novas, de onde se originaram no final do século XIX, com os desdobramentos que se sucederam, a partir do início do século XX, sendo que, por diversas vezes, com alguns deles, mantinha longas entrevistas, como uma delas, foi que realizei, durante um final de semana em que passamos juntos e a convite de Rubens Costa, na aprazível “Fazenda do Convento”, no início da Rodovia do Boi (Teófilo Otoni-Carlos Chagas) no ano de 1971, quando foram anotadas estas notícias.
Aquela concentração de investimentos, longe de Minas Novas, demonstra de certa forma o desinteresse que esses chefes políticos tinham pelo progresso desse município, pois para eles era muito mais interessante, sob o aspecto lucrativo, investir numa “praça nova e rica”, até porque na antiga cidade, em vias de liquidação, onde o povo permanecia desinformado e alheio a tudo, todo o eleitorado já estava devidamente sob seu controle e nenhum risco eleitoral podiam representar, diante do novo cenário, inclusive político, que se acenava em Teófilo Otoni.
E assim, de abandono e descuido, de desmando em desmando, permaneceu Minas Novas neste ostracismo e neste atraso vistos ainda hoje, o que tanto me incomoda diante do comportamento dos filhos ingratos que a comandam, e que continuam agindo da mesma forma degradante que lhes ensinaram os seus imprevidentes antepassados e gurus da arte de mal governar.
E o nosso bom povo, tão sofrido e tão carente, não merece continuar nesse castigo, que já vem de tanto tempo!
É preciso que cada minasnovense, plagiando a idéia de um outro brasileiro, que sugeriu uma nova constituição para o Brasil com apenas dois artigos, também votem uma nova lei orgânica municipal e que assim deveria ser redigida:
“Artigo 1° - Todos de Minas Novas devem tomar vergonha na cara.”
“Artigo 2° - Revoguem-se a as disposições em contrário”.
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