A VIOLA DE JOVELINO
“ o melhor da galinha é o ovo e a miséria do mundo é o povo!”
- Eu é quem não sabia
que a ave sabiá
era assim tão sábia...
Jovelino, além de carapina - dos melhores que já vi - era um pensador que matutava sobre tudo e que, para tudo que havia em riba da terra, tinha ele uma sábia resposta.
Às vezes, no meio da labuta de um desengrosso, ele largava a tora de pau bruto, deixando-a ali de lado, assuntava o tempo, matutava na sua cachola, chamava Rosa para junto de si, pedia-lhe um gole de café, agarrava-se da viola e ali ficava, como se tivesse enfiando nas cordas os pensamentos que tinha, estes que, como os circuitos de relâmpagos distantes, sem trovão, estavam de repente ali traduzidos, como em transe, lhe atormentando ou lhe cutucando a lembrança, a cisma, o banzo, a vontade de "num sei o quê" ou aquele formigamento íntimo que ele não sabia de onde vinha, sem explicar o porquê de ali estar, e que, dentro dele - um preto e pobre analfabeto - tinha de ficar ali parado, remoendo na cabeça o que queria sair mas que tinha dificuldade de entender, querendo saltar pra fora, como se ele é que devesse de ter a sina de advinhar, de ser o portador de mensagens esquisitas e descabidas mas que, logo logo, ia clareando e permitindo-lhe começar, com os dedos, a traduzir em ponteados e sonoridades, no formato de canções que faziam calar até o barulho do tempo e que tudo, em sua volta, quedava-se para admirar o recado que nascia daquele rústico instrumento que ele mesmo, um dia, fabricou a partir de um pedaço de cedro.
Às vezes, no meio da labuta de um desengrosso, ele largava a tora de pau bruto, deixando-a ali de lado, assuntava o tempo, matutava na sua cachola, chamava Rosa para junto de si, pedia-lhe um gole de café, agarrava-se da viola e ali ficava, como se tivesse enfiando nas cordas os pensamentos que tinha, estes que, como os circuitos de relâmpagos distantes, sem trovão, estavam de repente ali traduzidos, como em transe, lhe atormentando ou lhe cutucando a lembrança, a cisma, o banzo, a vontade de "num sei o quê" ou aquele formigamento íntimo que ele não sabia de onde vinha, sem explicar o porquê de ali estar, e que, dentro dele - um preto e pobre analfabeto - tinha de ficar ali parado, remoendo na cabeça o que queria sair mas que tinha dificuldade de entender, querendo saltar pra fora, como se ele é que devesse de ter a sina de advinhar, de ser o portador de mensagens esquisitas e descabidas mas que, logo logo, ia clareando e permitindo-lhe começar, com os dedos, a traduzir em ponteados e sonoridades, no formato de canções que faziam calar até o barulho do tempo e que tudo, em sua volta, quedava-se para admirar o recado que nascia daquele rústico instrumento que ele mesmo, um dia, fabricou a partir de um pedaço de cedro.
“ Oi, Jovelino, eu vim aqui pra passear,
Oi, Jovelino, eu vim aqui pra passear.”
Mas Jovelino vivia mesmo era de seu serrotão traçador, de sua velha e afiada enxó, dos formões e do trado.
Fazia portas, janelas, travamentos, pilão, canga de boi, roda de carro, moendas de descaroçar cana, algodão ou mamona, almanjarras de engenhos, trempes, teares, coronhas de trabucos e polveiras, pilão de gangorra, caixotão de purgar açúcar, esteios e assoalhos , barrotes de casas e de pontilhões, tábuas para fazer esquife de defunto e, com a sobra das madeiras, fazia violas, rebecas, tambores e reco-recos.
Mesas, camas, cadeiras, armários e guarda-louças ele até que sabia fazer e às vezes fazia, mas não gostava de fazer, não porque isso era coisa pra gente de luxo, freguês que gostava de dar palpite na arte o que para ele a paciência era pouca.
Escolhia o pau, lá dentro da mata, e ele mesmo o derrubava, se a fase da lua assim o permitisse, arrastava o tronco para a tripeça que ele armava ali perto, e o desfiava com o traçador, na medida exata da encomenda, naquele vai-e-vem do seu velho e bem untado serrotão que há mais de quarenta anos era a fonte de ganha-pão de toda sua imensa e unida família.
Contudo, como um legitimo ‘panda’, toda vez que se dirigia à mata, para buscar uma tora de madeira, antes ele alisava o tronco daquele pau escolhido, ficava ali por muito tempo acariciando-a, a admirar-lhe o porte, como se estivesse conversando com a arvore, justificando-se perante à natureza, para dela receber a autorização de ser o encarrecado daquele sacrifício, e , segundo o que ele mesmo confessava, era para ele uma dor imensa quando ele ouvia o som da arvore, ao cair. E, com o coração aos pedaços, reunia mais forças para pedir o perdão, também aos passarinhos desalojados, e recomendar-lhe, e às suas sementes, para não se esquecerem de cuidar da sombra no descanso dos viajantes, e também que jamais se negassem de servir-se como a fonte do calor, no inverno, e como fornecedores de flores e de frutos para alegrar e para nutrir o homem, o filho mais amado de Deus, ao qual todos os outros seres foram criados apenas para servir.
“ Ai, que saudades dos violeiros
Lá do meu tempo de menino,
Já não existem mais carpinteiros
como o nosso saudoso Jovelino!.”
A perfeição milimétrica das esquadrias, os encaixes, os cachimbos, as espigas e os alongamentos que ele produzia na peça de madeira, era algo de causar-se espanto, principalmente quando se tinha em conta que, alem da precariedade dos recursos que ele dispunha, e também a ausência dos cálculos, das planilhas e das escalas, das quais, geralmente fazem uso os engenheiros e construtores, aquele trabalhador, alem de analfabeto, faltava-lhe as forças de um dos braços, atrofiado que era esse seu membro superior, que mal lhe permitia segurar o garfo para comer ou o para firmar, contra o ombro, a sua viola na hora de a executar os ponteios.
Como ele se arranjava, disto não se sabe, e nem ele próprio explicava, esquivando-se até quanto as indagações da origem daqueles seus conhecimentos.
Sua casa, no Macuco, era sempre cheia de parentes e de amigos que ali iam para buscar o calor de sua amizade, de vez que era esta a única coisa que sobrava para dar, pois as bocas eram muitas e iam sempre aumentando, na medida que ali todos eram acolhidos da melhor forma possível.
Por lá, passei diversas vezes, vindo da Bandeira Grande, no tempo de meu avô Durval.
Hoje, fico matutando e avaliando sobre tudo aquilo e me convenço de que, após tanto tempo, foram-se com Jovelino os segredos que continham as suas reflexões, o que ele queria repassar através de suas cantorias, em uma língua esquisita que poucos, ali do Macuco, entendiam e das quais foi impossível guardar qualquer registro.
Tenho na lembrança, porém, de como que era emocionante de se ver, sob o luar soturno do Macuco, talvez ali a remanescência de um velho quilombo, o carpinteiro Jovelino, com sua esposa Rosa, convidar os presentes para acompanhá-lo, na improvisada e repentina “dança dos nove”, quando, recitando seus versos, onde dizia da labuta diária, da vida de sua gente, da sina de seu povo, ele se esmerava na sonoridade de sua viola, de uma forma tão dolente e maviosa, transmitindo tanto sentimento e tanta beleza, que eu me vejo diminuído como fruto de uma cultura que se diz mais civilizada.
“ Oi Jovelino, eu vim aqui pra passear,
Oi Jovelino, eu vim aqui pra ti louvar.”
“ Oi Jovelino, eu vim aqui pra passear,
Para vê-lo com a Rosa, nesse belo Mangangá”
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