LIVRO DO LALAU FANADEIRO


Meu grande sonho sempre foi o de escrever um livro. Porém esta era uma missão para mim quase impossível, pois deparava-me sempre com o obstáculo do apedeutismo de que, confesso, infelizmente continuo vítima.

Além do mais, haveria ainda e de igual forma, uma outra dificuldade, a da carência de meios financeiros para custearem as despesas editoriais, em razão de que, depois de escritos, os meus causos jamais teriam como se verem publicados, entrave este que agora - para minha felicidade- vejo contornado graças ao advento desse grande recurso de mídia chamado "Web".

Contudo, confesso que continuo fraco nas letras mas espero que em nada possa afetar essa condição de minha particular carência gramatical, vernacular ou ortográfica, que já não me assusta tanto, agora que descobri a capacidade de digitar ( muito melhor que a de rabiscar), que me facilita tanto no ato de expor todo tipo de ideia que me vem aos borbotões, ao ritmo e ao compasso dos dedos que vou deslizando sobre as teclas do meu computador.

E Isto, para mim, vejo como se fosse música - uma outra terapia a que me recorro de forma lúdica, pois agora posso também "compor e executar" nesse instrumento
que nunca antes nesse país (como assim diria um outro apedeuta, muito mais importante e mais famoso) pude eu adquirir para os meus enlevos.

Portanto será este BLOG o meu providencial recurso para dar forma a meu livro tão sonhado, o qual, mesmo se não for prestigiado por mais de um único leitor (além de mim mesmo), ainda que assim se apresente neste formato digital, para mim já será o bastante para apaziguar-me no enorme desejo de botar para fora tudo o que carrego dentro de mim, desde aqueles breves e distantes tempos em que, nas aulas da saudosa mestra Dona Maria Lopes, eu sonhava dar vida e voz a meus personagens, naqueles únicos bancos escolares que pude frequentar, dos quais guardo as mais ternas recordações e que me trazem tanta saudade, lá do meu querido Grupo Escolar Coronel José Bento.

Não tenho pretensões literárias, nem espero sucesso editoral, mas tenho agora os meios necessários para a vazão daqueles meus ímpetos de contador de "causos" os quais passo a apresentar sem qualquer planejamento ou ordem cronológica (ou em capítulos como seria normal ocorrer em um desses livros concebidos dentro dos tradicionais padrões editoriais).

Sendo assim, irei publicando páginas, diariamente, simplesmente registrando os fatos que forem surgindo na medida em que puder formatá-los de maneira a ser minimamente entendidos pelo leitor eventual, a partir de tudo aquilo já registrado em minha memória.

E será desta forma que espero, ao longo do tempo que me resta, ir deixando consignados, neste espaço, os contos que produzi na companhia alegre dos meus compadres e comadres, através dos intermináveis caminhos espinhosos, empoeirados, íngremes e tortuosos por onde andávamos em busca do nosso sustento, de nossas convivências, de nossas amizades, contando a doce alegria de nossa vida fanadeira, com a qual aprendemos a carregar as esperanças e ilusoes pelos destinos traçados neste chão da simplicidade, do companheirismo, da solidariedade, da amizade e de tudo que for em direção do nosso Bom Deus, justo e maravilhoso que permite a sobrevivência de todos que nele crêem e até mesmo daqueles que o rejeitam.


Agradeço-lhes, na humilde expectativa do acolhimento e também pelas críticas.

domingo, 26 de dezembro de 2010

JOVELINO DO MACUCO

A VIOLA DE JOVELINO


“ o melhor da galinha é o ovo e a miséria   do  mundo é o povo!”

- Eu é quem não sabia
  que a ave sabiá
  era assim tão sábia...

Jovelino, além de carapina - dos melhores que já vi - era um pensador que matutava sobre tudo e que, para tudo que havia em riba da terra, tinha ele uma sábia resposta. 

Às vezes, no meio da labuta de um desengrosso, ele largava a tora de pau bruto, deixando-a ali de lado, assuntava o tempo, matutava na sua cachola, chamava Rosa para junto de si, pedia-lhe  um gole de café, agarrava-se da viola e ali ficava, como se tivesse enfiando nas cordas os pensamentos que tinha, estes que, como os circuitos de relâmpagos distantes, sem trovão,  estavam de repente ali traduzidos, como em transe,  lhe atormentando ou lhe cutucando a lembrança, a cisma, o banzo, a vontade de "num sei o quê" ou aquele formigamento íntimo que ele não sabia de onde vinha, sem explicar o porquê de ali estar, e  que, dentro dele - um preto e pobre analfabeto - tinha de ficar ali parado,  remoendo na cabeça o que queria sair mas que tinha dificuldade de entender, querendo saltar pra fora, como se ele é que devesse de ter a sina de advinhar, de ser o portador de mensagens esquisitas e descabidas mas que, logo logo, ia clareando e permitindo-lhe começar, com os dedos, a traduzir em ponteados e sonoridades, no formato de canções que faziam calar até o barulho do tempo e que tudo, em sua volta, quedava-se  para admirar o recado que nascia daquele rústico instrumento que ele mesmo, um dia, fabricou a partir de um pedaço de cedro.

“  Oi, Jovelino, eu vim aqui pra passear,
    Oi, Jovelino, eu vim aqui pra passear.”

Mas Jovelino vivia mesmo era de seu serrotão traçador, de sua velha e afiada enxó, dos formões e do trado.

Fazia portas, janelas, travamentos, pilão, canga de boi, roda de carro, moendas de descaroçar cana, algodão ou mamona, almanjarras de engenhos, trempes, teares, coronhas de trabucos e polveiras, pilão de gangorra, caixotão de purgar açúcar, esteios e  assoalhos , barrotes de casas e de pontilhões, tábuas para fazer esquife de defunto e, com a sobra das madeiras, fazia violas, rebecas, tambores e reco-recos.

Mesas, camas, cadeiras, armários e guarda-louças ele até que sabia fazer e às vezes fazia, mas não gostava de fazer, não porque isso era coisa pra gente de luxo, freguês que gostava de dar palpite na arte o que para ele a paciência era pouca. 

Escolhia o pau, lá dentro da mata, e ele mesmo o derrubava, se a fase da  lua assim  o permitisse, arrastava o tronco para a tripeça que ele armava ali perto, e o desfiava com o traçador, na medida exata da encomenda, naquele vai-e-vem  do seu velho e bem untado serrotão que há mais de quarenta anos era a fonte de ganha-pão de toda sua  imensa e unida família.

Contudo, como um legitimo ‘panda’, toda vez que se dirigia à mata, para buscar uma tora de madeira, antes ele alisava o tronco daquele pau escolhido, ficava ali por muito tempo acariciando-a, a admirar-lhe o porte, como se estivesse conversando com a arvore, justificando-se perante à natureza, para dela receber a autorização de ser o encarrecado daquele sacrifício, e , segundo o que ele mesmo confessava, era para ele uma dor imensa quando ele ouvia o som da arvore, ao cair. E, com o coração aos pedaços, reunia mais forças para pedir o perdão, também aos passarinhos desalojados, e recomendar-lhe, e às suas sementes, para não se esquecerem de cuidar da sombra no descanso dos viajantes, e também que jamais se negassem de servir-se como a fonte do calor, no inverno, e como fornecedores de flores e de frutos para alegrar e para nutrir o homem, o filho mais amado de Deus, ao qual todos os outros seres foram criados apenas para servir.

“ Ai, que saudades dos violeiros
Lá do meu tempo de menino,
Já não existem mais carpinteiros
como o nosso saudoso Jovelino!.”

A perfeição milimétrica das esquadrias, os encaixes, os cachimbos, as espigas e os alongamentos que ele produzia na peça de madeira, era algo de causar-se espanto, principalmente quando se tinha em conta que, alem da precariedade dos recursos que ele dispunha, e  também a ausência dos cálculos, das planilhas e das escalas, das quais, geralmente fazem uso os engenheiros e construtores,  aquele trabalhador, alem de analfabeto, faltava-lhe as forças de um dos braços, atrofiado que era esse seu membro superior, que mal lhe permitia segurar o garfo para comer ou o para firmar, contra o ombro, a sua viola na hora de a executar os ponteios.

Como ele se arranjava, disto não se sabe, e nem ele próprio explicava, esquivando-se até quanto as indagações da origem daqueles seus conhecimentos.

Sua casa, no Macuco, era sempre cheia de parentes e de amigos que ali iam para buscar o calor de sua amizade, de vez que era esta a única coisa que sobrava para dar, pois as bocas eram muitas e iam sempre aumentando, na medida que ali todos eram acolhidos da melhor forma possível. 

Por lá, passei diversas vezes, vindo da Bandeira Grande, no tempo de meu avô Durval.

Hoje, fico matutando e avaliando sobre tudo aquilo e me convenço de que, após tanto tempo, foram-se com Jovelino os segredos que continham as suas reflexões, o que ele queria repassar através de suas cantorias, em uma língua esquisita que poucos, ali do Macuco, entendiam e das quais foi impossível guardar qualquer registro.     

Tenho na lembrança, porém, de como que era emocionante de se ver, sob o luar soturno do Macuco, talvez ali a remanescência de um velho quilombo, o carpinteiro Jovelino, com sua esposa Rosa, convidar os presentes para acompanhá-lo, na improvisada e repentina “dança dos nove”, quando, recitando seus versos, onde dizia da labuta diária, da vida de sua gente, da sina de seu povo, ele se esmerava na sonoridade de sua viola, de uma forma tão dolente e maviosa, transmitindo tanto sentimento e tanta beleza, que eu me vejo diminuído como fruto de uma cultura que se diz mais civilizada.

“ Oi Jovelino, eu vim aqui pra passear,
Oi Jovelino, eu vim aqui pra ti louvar.”

“ Oi Jovelino, eu vim aqui pra passear,
Para vê-lo com a Rosa, nesse belo Mangangá”

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