- I -
Sadalina, a boa vovó Dadá.
VOVÓ DADÁ
Ainda sonho contigo,
oh, minha hilária vovó,
Fazendo doces de figo
Preparando o pão-de-ló.
E a Mãe-Ana, a Pepeta,
Cheirando o pó de rapé,
Enquanto a Tia Riqueta
Sorvia seu amargo café,
Numa estranha etiqueta
Em um nigérrimo cuité
E quem não fazia careta
Certamente era um lelé!
E do caldeirão borbulhante
Lembra-me aroma do feijão
Numa fornalha flamejante,
Nela um fumegante buião!
E a couve, carne de porco,
Arroz pilado com açafrão
Sobrava, nem um pouco,
Da traíra, ou piau, o pirão!
Do quibebe, das fressuras,
Da geleia e do requeijão,
Com farinha e rapadura,
ou do mascavo com limão!
E, lá no quarto, Santo Antônio,
Santo querido de sua devoção,
Guarde esse lindo patrimônio,
Minha vovó, aqui, no coração!
* * * * * * * * * * * * * * * *
Construção muito antiga, talvez uma das poucas moradias remanescentes da época da fundação da cidade, a casa era de altíssimo pé direito e tinha, na parte da frente, uma pesada porta e apenas uma janela.
Depois da sala vestibular que era provida de um único aparador com quatro cadeirinhas articuladas, também havia alguns retratos antigos pendurados na parede caiada a alvaiade e, deste cômodo, passava-se a um corredor ladeado por um comprido e luzidio banco, o qual servia, a um só tempo, de arca e de cama, além de uma cômoda grande, com chaves, onde eram mantidas as roupas brancas, os cobertores e os poucos guardados da casa fazendo-se, através daquela passagem, a ligação da sala à pequena copa. Essa cômoda era eventualmente convertida em cama de hóspede.
Com acesso ao corredor, havia um quarto escuro, sem qualquer janela, que invariavelmente permanecia fechado e suscitando curiosidades e fantasias.
Na copa, onde havia uma enorme mesa e bancos de madeira, havia um armário envidraçado, do tipo guarda-louças por onde se viam as enormes compoteiras e licoreiras de vidros coloridos com o conteúdo das iguarias que eram a principal razão da minha freqüente visita àquele casebre sombrio e silencioso.
A esta dependência ligava-se a cozinha de fogão de lenha, a pequena despensa com as prateleiras e o quarto de dormir de minha bisavó, onde existia apenas como móveis um catre de madeira com tiras de couro cruzadas e, sobre esta cama, afixado no meio do oitão, ficava um oratório com imagens sacras aonde pontificava um vistoso e paramentado Santo Antônio, belíssima imagem de madeira policromada com seu Menino Jesus e suas jóias.
A vovó, no meu tempo de menino, quando ela já passava dos oitenta, tinha na sua vida, como razão de seu viver, o seu neto Rui Miranda, além de mim - seu bisneto predileto - a quem carinhosamente chamava de "meu rei" e, naturalmente com seu maior apreço o seu verdadeiro "rei e senhor" o idolatrado santo casamenteiro ao qual jamais lhe faltavam flores, velas e orações.
Desde que a minha tia-avó Candinha faleceu, justamente em decorrência do parto do único filho (Rui), há muito tempo acontecido, a saudosa Sadalina passou a dividir sua morada apenas com o neto e, a partir de algum tempo, quando este já estava adulto e se mudou para ganhar o mundo, ela preferiu viver sozinha e não aceitava a companhia nem mesmo de ajudantes ou de empregadas, sendo ela mesma que cuidava pessoalmente de todos os afazeres e só se recorria aos parentes para o suprimento daquilo de que ela carecia para o cumprimento de sua rotina diária. E era ela própria que se apresentava, nos dias avençados, para recolher na casa de cada parente aquilo que a cada um ficou convencionado de lhe fornecer: era assim que lá na nossa casa ela ia buscar o grosso do seu consumo (¹), isto porque meu pai era vendeiro (²) e mantinha, a débito dela, uma caderneta onde se lançava item por item, cujo pagamento ao final de certo tempo, ela procurava acertar a seu modo e com a mesada em dinheiro que religiosamente lhe enviava o neto Rui, a essa altura, já muito bem encaminhado como funcionário público, de lá de uma das diversas cidades por onde residiu e exerceu suas funções como coletor estadual.
O entronado e festejado Santo Antônio era tudo na vida da minha bisavó, o motivo de suas freqüentes missas, terços, novenas e festas e pelo menos uma vez ao mês eram convocadas as amigas Pepeta, Henriqueta, Mariana Crochê, Safina, Nenega, Burrucha, Adelaide, Aninha de Chico, Ana de Sabino, Adélia, Breu e tantas outras de igual idade e de diferentes condições sociais, mas que ali eram todas tratadas como iguais, para a reza do infindável terço, após o qual, invariavelmente, degustavam-se, além das compotas e licores, razoável quantidade da boa cangibrina e os mais suculentos e gordurosos petiscos fartamente servidos para aquela seleta confraria de vetustas damas, que se esbaldavam, ao largo do zelo pelas dietas e das restrições cabíveis àquelas bem urdidas extravagâncias.
Além dessa estroinice, arrecadavam-se entre as matronas - sendo Siariqueta a tesoureira - os donativos espontâneos para manter-se o Monte Calvário (4), um compromisso delas de remeterem, periodicamente, ao Padre Victor as espórtulas necessárias para a salvação de suas piedosas almas. Apesar desta louvável e sagrada finalidade, tida como oficial, nem sempre esta era rigorosamente observada, de vez que. Invariavelmente, usava-se daquela economia para finalidades diversas, tais como remunerar serviços extras de que elas necessitassem para a organização de suas pândegas.
Certa vez causou reboliço nas casas de parentes a notícia, no meio da madrugada, de que estava acontecendo, no interior da casa da vovó, alguma coisa estranha a incomodar toda a vizinhança, uma candonga interminável com cantos, choros, soluços e vivas, sendo que as pessoas que lá se encontravam não atendiam aos chamados nas portas e nas janelas, todas muito bem trancadas por dentro.
A minha mãe, a quem todos sempre se apelavam nestas horas, em companhia de outros parentes que para lá se diligenciaram, onde à força de muito custo e acessando-se aos fundos da casa através de escalada dos muros, conseguiram adentrar-se naquele verdadeiro antro, deparando-se com uma cena ao mesmo tempo triste e hilária: a casa estava sob o lusco-fusco bruxuleante de velas, entre muitas flores, copos e garrafas vazias espalhadas pelo chão, várias carpideiras já prostradas e a intrépida Sadalina com uma inusitada mortalha, se remexendo e tentado livrar-se das amarras que a imobilizava dentro de um funesto caixão acolchoado de cetim roxo e de rendas brancas e de onde ela lançava os gritos nervosos de ânsia e pavor, com os quais não lograva socorro por parte das coadjuvantes daquele teatro, todas vencidas pelo apelo realístico ou pelo esforço artístico da peça proposta.
Passados o susto e o nervosismo daquele momento, depois dos procedimentos necessários ao livramento de minha bisavó e à recomposição daquele sinistro e deplorável cenário, apurou-se que tudo não passara de um ensaio no qual foram surpreendidas pela virtuosidade , pelo exagero na performance, ao imprevisto no virtual script quando se ensaiavam o desfecho natural que seria o momento derradeiro esperado para cada uma delas e segundo a versão corrente entre elas, era a de que precisavam conhecer como seria o desempenho individual frente à realidade insofismável que as espreitava a qualquer instante.
O que aconteceu, entretanto, é que não se cuidaram de reservar os necessários papeis de direção, de contra-regra ou de cronometrista, tendo todas se envolvido no desenrolar de uma peça que culminara apoteoticamente em orgia e que felizmente não redundou em conseqüências mais graves além das reprimendas e admoestações que, a todos convinham, em curto prazo já se revelariam ter sido inócuas.
E logo-logo, ela, junto de sua confraria, arranjaria jeito de aprontarem outras peripécias, para não dizer peraltices, que são coisas de crianças, mas quase que era isto o que se transformara, depois dos seus noventa anos.
Minhas tias e minha mãe, que eram netas da Vovó Idalina, embora muito zelosas com a velha, só tomavam conhecimento desses eventos - sacros, profanos e dos festins que eram por ela promovidos, sem qualquer anúncio e prévio aviso, somente depois deles consumados, pelo que viviam todas apavoradas, diante dos imprevisíveis desfechos tráficos que, felizmente, nunca chegaram a se consumar.
Naturalmente que elas não aprovavam, de forma alguma, mas jamais se negavam de contribuir, fornecendo os ingredientes requisitados e que eram ali consumidos, mesmo que o fizessem involuntariamente e levadas pelos ardis e estratagemas recorridos pela peralta anciã. Isto porque, eram elas que se encarregavam do provimento dos víveres, e também de promoverem a incrível aceitação dos produtos culinários daquela esperta velhinha, iguarias como ambrozias, choriços, doces de figo e compotas de mamão curtido, cidra, toranjas ou laranja-da-terra que a ela, subsidiariamente à mesada recebida, rendiam mais alguns bons trocados.
Eram, de fato irresistíveis. o apelo e o fascínio que aquelas guloseimas exerciam sobre o restrito e privilegiado grupo de consumidores e. prova maior disto, é que, até nos leilões das festas tradicionais, eram suas compotas as mais disputadas e atingiam os melhores lances ao serem arrematadas como preciosas prendas.
Embora fossem fartas as reservas dos doces que ficavam nas prateleiras da despensa, não era costume de minha bisavó preparar sua comida, dentro dos padrões normais, daquela época, em que o trivial sempre foi o famoso feijão com arroz e eventuais misturas. Para ela o básico se consistia do conteúdo gorduroso de um caldeirão de ferro que ficava constantemente fervente, ao lado dos tachos de cobre e sobre um fogão de lenha que jamais se apagava. Daquele caldeirão fumegante é que saíam suas refeições. Nele, ela misturava feijão preto com pedaços de toucinho, pé de porco, lingüiças, costelas, carne seca, tripas, miúdos de boi e outros pertences da culinária extravagante, aos quais se acrescentavam, no prato, os condimentos, os quibebes e as raízes. Essas refeições não obedeciam a horários e eram intercaladas com o consumo de cachaça, de frituras de peixes, de molhos diversos ou de café muito amargo, no qual ela adicionava farinha de milho, pedacinhos de queijo ou de requeijão envelhecido, preparando o que ela chamava de capilé. Também era comum, entre elas, o consumo do escaldado, uma associação de farinha de mandioca com o caldo de ossos de boi, que ela reservava durante a confecção, de outra sua especialidade, que era a geléia de mocotó.
Devido ao referido cardápio, ao qual tinham acesso todos quantos pela cozinha transitassem, minha mãe exercia severa vigilância, proibindo-me de apreciá-lo, sob o pretexto de que poderia ser prejudicial à minha saúde, o que não me parecia ser uma razão plausível, até mesmo pelo fato de que, toda aquela gororoba nenhum mal fazia a seus contumazes consumidores, inclusive à própria Sadalina que, apesar de sua idade já bem avançada, de nenhum mal jamais se queixava, tanto é que só veio a falecer, beirando seus cem anos, assim mesmo em decorrência de fraturas ósseas provocadas por uma queda no quintal de sua casa.
De qualquer forma, porém, não me apetecia provar nem um pouco daquela comida, pois, mesmo não censurando os métodos pouco assépticos, considerava-os um tanto quando ortodoxos. O café, esse era obtido de grãos não selecionados e que, além do mais, eram triturados no pilão, após serem torrados em tachas de ferro e juntos de sementes de fedegoso e de aroeira, passava pela infusão dentro de um boião de barro, numa cocção, e depois em coador de pano que nunca se lavava, e que na trempe permanecia em constante fervura, o que tornava a bebida de gosto intragável para o meu paladar, mormente pelo fato de que era aquela beberagem servida em cumbucas de coité e, jamais em xícaras de louças ou em copos de vidro como ocorria em outras casas.
Entretanto, às vezes eram tentadores o requeijão amolecido no melaço quente de rapadura, o pirão de peixe ou o angu-liso de milho verde com taioba e farinha de lambari torrado. E a estes, como forma de se escapar da vigilância da minha mãe, a minha bisavó espertamente os acondicionava dentro de um bornal que estrategicamente escondia e reservava para mim debaixo de um pacato urinol novo (8) que ficava guardado dentro do armarinho de cabeceira, no seu quarto de dormir.
E era assim, participando ativamente desse fantástico cotidiano, que fui levando minha incrível infância. Toda tarde, após minha saída do grupo escolar logo ali nas imediações, ao retornar para nossa casa antes passava na casa da vovó para tomar-lhe as bênçãos e dela receber as melhores goiabas, figos maduros, mangas sapatinhas, laranjas baianas ou até mesmo os mimos escamoteados com os quais nos deliciávamos às escondidas, mas diante do olhar matreiro, conivente e paternal do sorridente Santo Antônio lá de cima do seu lindo oratório, rodeado de tantos outros santinhos e anjos, todos compenetrados, silenciosos e olhando para todos nós, abençoando-nos, rezando e lambendo os lindos beiços divinos.
Depois do frugal almoço, invariavelmente, descansava a boa velhinha, estirada sobre o catre, sempre cochichando suas intermináveis ladainhas e cofiando o seu imenso rosário de contas negras, elevando silenciosamente suas devotas orações dedicadas ao santo predileto e invocando por seu intermédio a proteção divina para mim e a defesa constante dos passos do seu neto distante, principalmente para que jamais ele se olvidasse de remeter-lhe, pela Caderneta de Poupança, a tão esperada mesada de cada mês.
De dentro do seu quarto, com a porta aberta para a copa, de lá de sua cama, ficava ela rezando e olhando, lá no quintal, e de vez em quando gritando com os sanhaços, sofrês e sabiás que adoravam também visitar o seu bem cuidado pomarzinho, onde eles se deliciavam no banquete predileto que ali os aguardava.
No final da Rua do Curral, iniciava-se um caminho de terra batida, pelo qual se chegava ao ribeirão do Bonsucesso. Não muito distante dali, no poço da Gameleira, Sinhá Ana de Sabino diariamente lavava as imensas trouxas de roupas, que ela ia buscar em nossas casas. E era para lá que a vovó, ainda pela manhã, dirigia-se levando o dicumê (9) da comadre e, no alforje de lona, além do caldeirão de alumínio, a inseparável licoreira de vidro cor de rosa, e em forma de mulher nua, não contendo licor, mas o líquido branco de que os passarinhos nunca fazem uso.
E era sempre, sem qualquer cerimônia, que ali naquele recanto do riacho, em plena luz do dia, ela se despia completamente e se banhava nua, nas águas frias, como se fosse uma antiga iara, ou para quem a visse, ao passar pela estrada da Chapada, uma inofensiva ondina que ali estava buscando, saudosa, a juventude distante e a inocência perdida que somente a sabedoria do tempo pode entender e resgatar.
Aquela velhinha, de longos cabelos brancos e nem sempre enrodilhados sobre a cabeça, tinha um andar curto, mas esperto, de pequenos passinhos dados com os pés descalços ou com as chinelas de pano, como se estivesse deslizando sobre uma areia escaldante.
Trajava sempre um vestido longo, inteiriço, sem cintura, com vários bolsos, feito de tecido escuro e estampadinho de mimosos ramos, em tons mais claros, um aconchegante xale negro de lã e o indispensável rosário em volta do pescoço. Na mão, a inefável bengala, muito mais destinada aos amáveis cocorotes, do que para golpear animais ou firmar-lhe os passos. Em qualquer lugar da rua eram os carros, animais ou transeuntes que tinham de se desviar dela, pois jamais se arredava da direção em que seguia, nem mesmo para urinar, quando para isto tinha de fazer, não por incontinência, mas por costume, apenas afastando as pernas e, de pé, como uma fêmea de qualquer outro animal, ali mesmo satisfazia sua premente necessidade, sem qualquer cerimônia ou constrangimento.
Ai daquele, porém, que lhe dirigisse qualquer censura, fosse criança ou adulto, pois era logo ameaçado pela indefectível bengala, com a qual ela se investia, ficando, entretanto apenas na ameaça, ao que logo seguia seu caminho, com os passos miúdos e aos pigarros e muxoxos.
Tudo isto, sem lhe causar a menor afetação, era motivo de grande carinho e por todos, era ela muito querida e respeitada.
Muito embora de parcos recursos, pois se mantinha da mesada do neto Rui e da assistência dos parentes, em sua casa sempre acolhia os amigos que vinham da zona rural em dias de festa ou de busca de algum recurso na cidade, bem como não se furtava de socorrer aos mendigos, aos necessitados e também aos desocupados que a ela, indistintamente, recorriam na certeza de acolhimento. Os doidos de rua, os mendigos, os bêbados e os idosos abandonados tinham nela verdadeira protetora e esta, para exercer sua caridade, se não dispusesse de condições de fazê-la, partia em busca do socorro necessitado junto de quem pudesse, não faltando mãos caridosas para praticar, através dela, o amparo da solidariedade e do amor fraterno.
Dentre os fatos marcantes, que ilustram a memória de minha querida bisavó, um se destaca pela imensa carga poética e de exemplo da fragilidade humana, quando se evidenciam as mazelas, as fraquezas e também se revela a capacidade de entendimento e de superação. Foi justamente, no dia 21 de abril de 1961, um feriado, data em que também se comemorava o primeiro aniversário de Brasília, a nova capital brasileira, construída por JK no planalto central, assunto que era o motivo do orgulho nacional estampado no rosto de todos.
Na loja de meu pai, onde toda noite se reunia um grupo de amigos para escutar o noticiário, todos estavam atentos e com os ouvidos ligados ao rádio. De repente, minha bisavó foi chegando, inesperadamente, ao balcão e iniciou a distribuição de bengaladas, a torto e a direito, ela se esbravejando contra os presentes e dizendo impropérios contra os médicos, os santos e muito mais ainda contra os políticos, a esses culpando, naquele momento de sua ira, pela terrível desgraça que se abatia sobre todos, naquele momento. Meu pai, surpreso e atônico, foi o primeiro a escapulir, pois já conhecia de perto os rompantes e o temperamento belicoso daquela velhinha, quando ela estava assim tão brava. Saiu correndo, e minha avó tentando, sem sucesso, alcançá-lo com sua inusitada arma. Acomodados os ânimos, é que todos foram certificados da razão daquele desespero, ao saberem que havia acabado de falecer a sogra de meu pai, a mãe de minha mãe, a minha avó materna, Loura Sena que, por sua vez, era a filha da minha bisavó.
Foi uma consternação geral, pois embora estivesse doente já há bastante tempo, não se esperava um desfecho mortal, assim tão rápido, como o que acontecera. Minha bisavó, porém, era a mais exaltada e não aceitava, de forma alguma, aquele fato consumado e clamava aos céus que não era justo morrer a sua filha, quando, o mais natural, seria que ela, muito mais idosa, é que deveria ter sido a escolhida para morrer. Tentaram acalmá-la, sendo que um dos presentes, que por uma feliz coincidência era farmacêutico, conseguiu aplicar-lhe um tranqüilizante que logo a sedou e a fez adormecer, o que permitiu que todos se dirigissem com mais calma, para a residência da defunta, onde iria iniciar-se o velório.
A inconformada anciã permaneceu na nossa casa e sob o efeito do medicamento que lhe fora aplicado, somente voltou à consciência no outro dia, quando já havia acontecido o enterro de minha avó. No decorrer do dia, a mesma foi recobrando suas forças e, quando ninguém estava atenta, ela conseguiu sair pelos fundos da casa e se dirigiu ao cemitério e ali se pôs a cavar, com as próprias mãos, removendo a terra ainda sem compactar, da cova em que estava o corpo enterrado da falecida.
Acorreram ao local para impedi-la, lá deparando todos, a um quadro dantesco, de minha pobre bisavó já arrancando de dentro do esquife destroçado, a mortalha de sua própria filha.
Tiveram que usar da força para demovê-la daquele intento e conseguiram voltar com ela para casa, onde ela ficou sob cuidados médicos durante muitos dias, nos quais ela não queria aceitar, nem alimentos, nem remédios, nem qualquer conversa.
Permaneceu assim no mais completo mutismo, só desejando também a morte. Para mim, devido ao fato de ter com ela laços de grande afeição e entendimento, era doloroso e ao mesmo tempo difícil de entender, pois tinha então apenas 10 anos, uma idade que não permitia, ainda, uma maior compreensão dessas passagens tristes da vida.
Contudo, a minha presença perto dela, parece que foi aliviando-lhe o seu estado, e pouco a pouco, ela concordou em tomar um novo rumo e voltar à normalidade, na medida do possível, chegando-se, enfim, o dia em que todos concordaram em deixar que ela voltasse para sua antiga casa, vencidos pelos seus constantes apelos de retomar a rotina, o que até mesmo, parecia ser uma saudável recuperação.
A partir de então, tudo passou a ser diferente, naquela casa. O silêncio era completo; o fogão vivia apagado; as plantas do quintal não mais recebiam qualquer cuidado e os passarinhos, com o tempo, todos se debandaram; as compoteiras e as licoreiras, dentro do abandonado guarda-louças, que se transformara em refúgio das formigas, que aproveitavam os últimos resquícios açucarados; na porta da rua e na sala da casa foram-se acumulando feixes de garranchos que por força do costume todo dia ali depositava o doido manso Modesto (9), um dos poucos companheiros que continuou fiel a uma criatura no seu momento mais frágil e que mais necessitava do apoio moral e da mão amiga estendida.
Aquela desolação, que a mim causava mal estar e medo, passou a exercer também em mim a tendência de afastamento, daquele local e, sem perceber, já não mais passava para ver minha bisavó, nem mesmo para receber dela os antigos mimos. E este novo comportamento não foi percebido, ou talvez, até mesmo, tenha sido estrategicamente ignorado pelos lá de casa, para poupar-me de um sofrimento maior, se eu continuasse a compartilhar daquele sentimento avassalador, que estava a aniquilar os poucos dias que restavam para aquela boa e indefesa criatura.
E o tempo, que cicatriza todas as feridas, quase que conseguiu, por completo, fazer-me esquecer da vovozinha, até que, em certa manhã, descendo a rua em direção ao grupo escolar fui abordado, com certa rispidez, pela mão truculenta, suja e calosa de Modesto, que me obrigou a acompanhá-lo, atônico e apavorado, até ‘a casinha da Rua do Curral.
Como se estivesse hipnotizado, deixei-me conduzir pelo doido manso e rapidamente, chegamos e passando por entre o caos em que se transformara a casa, deparamo-nos diante do quarto de dormir onde, toda ensangüentada e lívida, estava Sadalina agarrada à imagem do Santo Antônio, e a ele pedindo perdão, entre rezas e soluços, por não ter confiado nele, e a ele ter atribuído os desenganos que vinha sofrendo nos últimos tempos.
Quando notou a nossa presença, ela me chamou para perto de si e, com firmeza e incrível lucidez, pediu-me para ajudá-la a recompor o oratório e a reorganizar toda a casa, ao tempo em que o solícito Modesto já acendia o fogo da fornalha, retirava da casa os entulhos e quando já foram comparecendo, uma a uma, as antigas companheiras já convocadas pelo mesmo doido de rua.
Depois de tudo esclarecido é que ela, já com o curativo que lhe fizeram na testa, relatou com minúcias, o seu estado de espírito naqueles tenebrosos dias e fazendo com que todos tomassem conhecimento do motivo daquela maravilhosa retomada de ânimo o que, de fato, representa a importância de um simples gesto a favor de quem esteja no fundo do poço, e já sem esperanças de qualquer recuperação.
O fato é que, desde o dia em que a vovó retornou a sua casa, em lá chegando, por vingança que ela julgava ser justa, quis descarregar toda sua ira no pobrezinho do Santo Antônio, a quem ela culpava pelo não atendimento de suas ardentes preces, tendo ele permitido a morte de sua filha, pelo que ela, no seu magoado e equivocado entendimento, tirou-lhe o Menino-Jesus dos braços, colocou-lhe de ponta-cabeça e virado contra a parede, dentro do seu oratório. E nesta posição incômoda, e no meio daquele completo abandono, com o lixo que foi se acumulando na casa, tudo indica que o passeio de um rato distraído, em busca de alimento, tenha provocado o desequilíbrio da pesada imagem e esta, lá de cima, precipitou-se sobre a cabeça da velhinha, levando-a ao incrível nocaute que lhe provocou aqueles ferimentos na cabeça.
Naquele mesmo dia, após o mutirão que se organizou para recompor o ambiente, tudo voltou à alegre normalidade e a boa Sadalina, tendo ela ainda vivido muito tempo para alegrar aquela confraria, tempo suficiente para fazê-la perceber como continuava amada por todos nós, e que ainda hoje, temos nela uma referência de fortaleza e de sabedoria, no transformar coisas e momentos simples em tesouros, que são descobertos apenas com o poder da amizade, do amor fraternal, do trabalho e da solidariedade.
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