XIV
DONAS FIRMIANA E GONDINHA
(A VEREDA DA DONA)
O Tambuá (que ainda nos tempos da mineração passou a se denominar de FANADO) nunca foi caudaloso a não ser nas suas cheias, mas milagrosamente ainda corre espumante sobre suas betas e hoje não conta, nem mesmo, com as minguadas águas do ex-tributário Aracati (ribeirão do Bonsucesso), pois seus mananciais, que eram as jurássicas chapadas e veredas, foram todos criminosamente drenados pela ACESITA.
As cabeceiras principais eram aquelas águas, vindas pela infiltração das extensas veredas das Donas - terras de ninguém que eram ocupadas por milhares de jacarés, maçaricos, marrecos , saracuras, ariris e patos bravos, que iam, também, paulatinamente umidecendo o solo das chapadas para ali brotarem as flores do campo, os frutos sacrados das caatingas e se aflorarem as gemas coloridas nas encostas e grupiaras, de onde escorriam e rolavam para os leitos de pequenos córregos a jusante Fanado, carreando o rico metal a fecundar os leitos e a jorrar águas cristalinas que perenizavam a abundância.
Primeiro vieram os mineradores que reviraram nossas grotas, e depois de se fartarem, de minarem nossas encostas, secaram nossas minas, revolveram as calhas de nossos rios e logo depois partiram levando nossas imensas riquezas.
Depois foi a vez dos escravistas - os coronéis, grileiros , carvoeiros, madereiros e políticos desonestos que se locupletaram, à custa de nosso povo.
Por fim, vieram as grandes empresas de reflorestamento que se apoderaram de nossas chapadas, caatingas e cerrados, drenaram os mananciais, mataram a nossa fauna e extinguiram a nossa dadivosa flora que era virgem, desconhecida e bela.
Envenenaram os campos de criar com o fedorento eucalipto e eliminaram a vida nas grotas e nas vazantes.
O que poderia ter sido um bom sucesso, já que fanaram o ouro, transformou-se numa vila pobre e sem esperanças.
Do breve lapso do eldorado fanadeiro restaram-nos as crateras daquelas Minas, que eram Novas, hoje tão antigas e ainda mais singelas, continuamente espoliadas, depauperadas e iludidas:
Era 02 de outubro de 1730, quando lá de cima do Capão Escuro - onde o serro matinal era denso - a bandeira de Sebastião Leme do Prado divisara, lá embaixo, no encontro das águas do Tambuá com o Aracati o reluzir do tapete dourado, tesouro aluvial ali sedimentando desde priscas eras.
O dia era de São Gonçalo do Amarante:
Apressaram a marcha e no mesmo dia fizeram a primeira e a maior colheita:
Um assombro! Um ror de ouro!.
Levantaram-se as tendas.
Firmaram-se acampamentos.
Ergueram-se as casas, os sobrados, as igrejas, outeiro acima, muitos e importantes monumentos.
Formaram o “V” de uma vitória inatingível com o formato das ruas que subiram as ladeiras.
Silenciaram, porém desde o começo, sobre o descoberto.
Acobertaram o acontecido:
Os Leme do Prado se digladiavam.
As lavras novas, que surgiam em Minas, partiram inseguras pelas brenhas em busca do mar, no sentido oposto da lei.
Ficaram na Bahia, com os pés acorrentados no Serro Frio.
E as colheitas continuaram imensas, incalculáveis...
E as remessas se repetiam e se multiplicavam...
O eldorado, porém, foi efêmero.
E as lavras, já sugadas e espoliadas, voltaram às Minas e desde então permaneceram esquecidas nas gavetas burocráticas das Gerais.
Da Bahia viram-se, tão-somente, os navios partirem levando nossas riquezas.
Restaram-nos as crateras, um rio todo fanado, um barroco pobre e tardio em igrejas de poucas rezas, muito terços e de santos desiludidos e de poucos milagres.
Quando ainda na ilusão perdulária e do fausto ganancioso sonhava, engalanou-se a Vila do Fanado para ser a sede da idealizada Província das Minas Novas do Jequitinhonha.
Ergueram-se as casas senhoriais, os belíssimos templos e o primeiro "arranha-céu" de Minas Gerais, o incrível sobradão com centenas de janelas e uma enorme porta por onde adentraria o garboso Imperador, sem necessidade de se apear da sua real montaria.
Sobre a Rua Direita cingiu-se uma curiosa ponte alteada fazendo a ligação do edifício com a rica igreja de São Pedro, também inaugurada para ser a Sé Episcopal.
Já o ouro, porém, que antes servira para reconstruir Lisboa arrasada pelo terremoto, que permitira cumprir-se a promessa em Mafra, não era mais suficiente para garantir os mimos e as vassalagens devidas à Marquesa Santista.
O segundo imperador, ganancioso e iludido nos quintos da Vila do Fanado, mandou dizer que não viria e que a criação da província estava desprovida.
O sonho acabou-se fanado!
Melou-se a Província e bispou-se a cúria diocesana.
Mais uma vez a Vila do Ouro Fanado fica a ver navios.
O belo sobrado se encheu de fantasmas e de cupins roxos e coloridos de outras cores e o imenso vazio ali pairou, como um caos, por muitas décadas.
A invejável e rica igreja dedicada ao Príncipe dos Apóstolos, que seria destinada às glórias de uma catedral, foi colocada abaixo pela incúria iconoclasta do antigo Ferrabrás.
A ponte constantina foi-se embora pelas águas do Fanado, levada até ao Araçuaí. Até lá, pelas margens do rio recolhidas, as talhas douradas seguiram novos destinos.
Por testemunha, sobrou um único pilar daquela ponte criminosa, no fundo do antigo solar do constantino que depois virou cadeia e até puteiro.
A porta do templo virou porta de Cabaré.
Sabedoria de Salomão ou castigo do Porteiro do Céu?
Novas Esperanças:
Um belo dia chegou à Vila do Fanado um jovem bacharel pernambucano, muito culto, inteligente, empreendedor e edealista, que encantou à plebe e assombou o coronel desejoso da falência daquela Vila. Apiedou-se o Dr. Martinioano pelo sofrido povo e resolveu que poderia ajudar a reerguer a comunidade desorientada.
Providenciou a criação da Santa Casa de Misericórdia, reorganizou a Irmandade do Santíssimo Sacramento, fundou a Conferência Vicentina, instalou no Sobradão a famosa Escola Normal de Minas Novas, criou teatro, jornal e biblioteca.
Desafiou, com os ímpetos de sua juventude sadia e sua visão progressista o obscurantismo daquele indigitado coronel.
Inquietou-se o retrógrado morubixaba que se apressou a expulsar o intruso de seus domínios.
Enxotado da Vila, como um cão sarnento, transferiu-se o nobre benemérito para a longínqua Comarca de Jacuí. E com o grande benfeitor de Minas Novas, pelas ladeiras do Morro da Contagem, lá se foram as últimas esperanças de um povo martirizado e oprimido.
Em 1980, completaram-se os 250 anos da Vila.
A efeméride teria que se justificar com alguma inauguração.
Colocaram, com a presença de muitas autoridades, inclusive do ditador João Figueiredo, uma placa de bronze na parede do Sobradão, com o nome do Presidente General, do governador estadual e do senador local, todos biônicos de um regime boçal.
Hoje, 25 anos depois, desta vez com a presença do ilustre Governador de Minas Gerais, novamente repete-se a reinauguração, mais um vez, desse mesmo e recorrente Velho Sobradão.
A armação deste palco iluminado, painel de ilusões e fantasias, é fato que já vem se repetindo a cada necessidade que se apresenta para os Badarós mostrarem o que não se tem e de se ver o que não se produziu, como um troféu bisonho conquistado a troco de nada, em nome da inércia e do engodo.
Para o Vale do Jequitinhonha este prédio tem sido símbolo do atraso, o ícone do abandono e das agruras impostas ao povo sofredor.
Para os fanadeiros representa a vergonha de ver sua querida terra, de tantas tradições, estagnada e deixada para trás, tristemente humilhada no cenário regionalizado do progresso.
Para os fanadeiros representa a vergonha de ver sua querida terra, de tantas tradições, estagnada e deixada para trás, tristemente humilhada no cenário regionalizado do progresso.
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