VELHAS ÁRVORES DESCUIDADAS
ARTUR QUIRINO, nos seus tempos de glória foi jovem galante, moço fino e educado, bom aluno e rapaz elegante que fazia sucesso em suas conquistas amorosas. Filho único de mãe solteira, graciosa moça e prendada amante que seu pai escondia de todos moradores, com o maior cuidado (por zelo, ciume ou preconceito?) foi ele, assim, criado entre os filhos legítimos do Coronel Osório, rico fazendeiro e comerciante que, de tão vaidoso, aspirava ser “general” muito embora a patente fosse inacessível aos oficiais da argentária “guarda nacional”.
Era o Artur, dentre todos os rebentos bem nascidos da Vila do Fanado, considerado o primogênito do velho Osório que, para com ele dispensava o mesmo zelo e carinho com que tratava a grande prole, a quem se concedia a atenção e a realização de todos os gostos e fantasias.
A República de Deodoro, porém, derrubou a Monarquia, eliminou o sonho do velho Osório de chegar ao generalato e para sua maior desdita, já no alvorecer do século 20 teve seus litros de ouro em pó e em pepitas serem surrupiados por um cometa vivaldino que, antes de se evaporar, hospedava-se nos aposentos especiais da botica, enquanto se apresentava apaixonado como pretendente por uma de suas filhas (também ilegítima) que, além do prejuízo daquele rico dote, amargou o encalhe, como solteirona e mal falada, pelo resto da vida.
O declínio se instalava na Vila do Fanado e, com ele, a derrancada das antigas fortunas.
Os ares da república não faziam bem ao lugar fazendo agravar-se, ainda mais, com a chegada do novo juiz de fora que instalara processo de rigorosa arrecadação, em nome do novo regime, taxando todos os espólios civis, comerciais, profanos, sacros e políticos, remanescentes do tempo imperial, sobre os quais decretava multas cumulativas, custas exorbitantes, implacáveis arrestos e liquidações judiciais com o único fito de vê-los falidos e depois, via de suas decisões espúrias, repassá-los para a propriedade do único arrematante, coincidentemente o seu sogro, antigo morubixaba que – pelos vínculos recém assumidos com aquela autoridade – repudiou as tradicionais convicções monarquistas e se encantou com as intenções daquele a quem concedeu as mãos de sua filha, a Sinhazinha que já demonstrava seus pendores de Sinhá Brava e Mandona.
Aos herdeiros legítimos, dessas antigas fortunas, restaram as patentes, as dragonas e os títulos de sesmarias sobre glebas de campos de criar, chapadas e matas de transição, grotas escalavradas e cabeceiras d’água distantes para onde se viam obrigados a deslocar aqueles que se convenceram da necessidade de assumi-las como nova fonte de seus sustentos.
Aos deserdados da monarquia, a exemplo de Artur de Lara, restaram-lhes as artes e os ofícios, se acaso deles tivessem vocação, preparo e aptidão.
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ZÉ D’ODÍLIA – Filho de Odília e de Vicente Cunha (antigo acendedor de lampiões), era rapaz de muitas artes, como alfaiate, desenhista, pintor, lapidário e músico, além de mestre na boemia e nas mesas de jogos de azar. Vivia na esbórnia, de taberna em taberna, de seresta em seresta, de festa em festa e, nesse itinerário de libertino, atravessou sua curta existência sem juntar poupança, sem segurar amores ou encontrar um lar e nele conhecer sua descendência. Era, contudo, respeitoso em seus relacionamentos de amizade, muito cortês e tratável em qualquer lugar, sendo querido e bem recebido nas casas de parentes e conhecidos que, mesmo sem ser procurados, ainda assim procuravam socorrê-lo naqueles instantes da vida desregrada de menestrel. Era o companheiro predileto dos rapazes ricos da Vila do Fanado, aos quais, porém, faltavam os dons da música, da poesia e do bom humor, talentos que sobravam no filho da velha Odília.
Certa vez foi o médico Dr. Marcos chamado em seu consultório para atender ao amigo “Zé Cunha” que estava febril, em sua crise de abstinência diagnosticada como “delírius tremens”, na qual ele tinha a visão de uma Nossa Senhora que descia pelo fio de luz, numa lâmpada elétrica que pendurava do teto de seu quarto. Segundo seu relato, dessa aparição o delirante se dizia diante daquela bela e divina figura que o recomendava salvar os amigos daquele terrível vício da bebedeira. Algum tempo depois, já curado daquela thistórica e memorável carraspana que o deixou vários dias imobilizado sobre o catre, tendo ele voltado com muita sede, os potes das inúmeras vendas, foi-lhe indagado se não haveria de seguir as recomendações da Santa, com referência ao exagero na ingestão dos líquidos etílicos, pelo que ele emendou que o pedido, que de fato lhe for feito, era a favor dos amigos e não dele, que nem mesmo católico era e, por força desta razão, não estaria entre os agraciados dessa bênção, da qual, porém, ele haveria de tirar bom proveito, pois quanto menos bebessem os amigos, menor consumo da manguaça haveria e, por conseqüência, não havendo outros fregueses, os vendeiros seriam forçados a diminuir o preço de seus produtos alambicados.
De outra feita, foi o mesmo Dr. Marcos, bom e atencioso facultativo, chamado para socorrer o amigo que estava, então, segundo seu “delirium”, abduzido por estranhas criaturas aladas, as quais o ameaçavam afogá-lo num imenso poço de leite, cercado por rochedos fumegantes. Convalescente, afirmou que as criaturas, na realidade, eram pulgas e muriçocas gigantes que lhe sugavam litros e litros de sangue, enquanto o poço era uma simples chávena de leite e no pires algumas broas quentes que lhe foram trazidas pela bondosa mãe dona Odília, tudo deixado no tamborete de seu quarto.
Embora se apresentasse, diuturnamente, vestido de terno e gravata, suas roupas de baixo, que normalmente deveriam ser brancas, eram encardidas pelas manchas deixadas pelos insetos parasitários, tantos que eram no seu catre, dos quais ele dizia serem cada um deles do tamanho de uma lâmpada, contendo várias garrafas de sangue sugado de suas veias.
Mesmo embriagado era capaz de sustentar, no seu virtuoso piston, a execução de suas partes musicais em dobrados e marchas, garantindo o sucesso das apresentações da Euterpe Conceição nas barraquinhas de leilão, nas quermesses, nos cortejos, em dias de festas e procissões.
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MILITÃO, eterno solteirão e avesso à vida social equilibrada na existência de uma família bem constituída, a exemplo da maioria dos músicos e mestres do Grêmio Litero Musical, além da arte da música, tinha por oficio a profissão de alfaiate. Seu instrumento, na Euterpe Conceição era um enorme e brilhante baixo de campânula no qual ele, não somente fazia exemplar marcação da harmonia, como executava longos trechos, solando diversos compassos que, devido à carência eventual daqueles titulares, deveria estar a cargo do trombone, do bombardino ou da trompa. Essa virtuosidade porém, na medida em que o vicio da bebida corroia-lhe os reflexos e a saúde, também se deteriorava o humor e o colocava em situações beirando ao ridículo. Nos últimos tempos da famosa Banda, era triste de se ver o seu estado de quase impotência sob o peso daquele pesado instrumento, obrigando-o a se atrasar nos desfiles pelas procissões e reinados. Nas quermesses a meninada traquina, movida pela pilheria, entupia a campânula do seu instrumento com buchas de laranja, bagaços de cana e milho de pipoca. A esse tempo o excesso etílico já concorria, de forma crescente, para evidenciar precocemente os sintomas da senilidade, tais como o abalo dos nervos e da memória, sendo folclóricos os casos em que se envolvia nessa situação.
Certa vez, depois de ter participado de uma quermesse, compareceu Militão à sede do Grêmio sem conduzir o seu instrumento, pelo que foi cobrado pelo maestro, ao que lhe respondeu “ ter esquecido o beco de Dona Nana La na ponta do baixo”, enquanto que sua namorada, de nome Alzira, lhe pedia para “segurar o mamão no qual haveria de trepar para tirar uma escada”e, ainda, que estava certo quanto ao fato de haver engolido o sol que estava no fundo do pote, de cabeça para baixo na torre da igreja e, depois de urinar na roupa, sacudia o correão da cinta e o enfiava novamente nas respectivas traquetas da calça.
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FREDERICO NETO (DICO) não foi músico e nem alfaiate, pois tinha por profissão a rendosa arte de ourives, atributo que lhe era natural, talvez em razão atávica que lhe fora transmitida pelo avô paterno, o inolvidável Frederico Roxo, este o grande mestre de vários ofícios, entre eles os da ourivesaria e da música em todas as claves, bemóis, colcheias, sustenidos e andâncias.
Pelo lado materno era o Dico neto do maestro João Benedito e, na residência deste, que funcionava como pousada e também sede do Grêmio Litero Musical, ocupava ali o quartinho da frente, que dava para a Rua do Curral. Essa acomodação, assim independente das demais daquela ampla moradia, facilitava o livre acesso dos seresteiros que daquele local se valiam para o uso dos instrumentos, que no cômodo anexo os havia em abundância, usados e utilizados pelos aprendizes com o consentimento do morador, este que era – a essa altura - muito dado à manguaça, vicio compartilhado pela récua que ali freqüentava.
Pelo lado materno era o Dico neto do maestro João Benedito e, na residência deste, que funcionava como pousada e também sede do Grêmio Litero Musical, ocupava ali o quartinho da frente, que dava para a Rua do Curral. Essa acomodação, assim independente das demais daquela ampla moradia, facilitava o livre acesso dos seresteiros que daquele local se valiam para o uso dos instrumentos, que no cômodo anexo os havia em abundância, usados e utilizados pelos aprendizes com o consentimento do morador, este que era – a essa altura - muito dado à manguaça, vicio compartilhado pela récua que ali freqüentava.
E o grêmio, que durante o expediente normal formava os músicos para a Banda, nas horas notívagas fornecia seus instrumentos para a pândega, para as esbórrnias e para os forrós da rua do Fogo e da Mil e Quarenta, sem que o maestro disto tivesse qualquer conhecimento, pois a estas horas já se transitava pelo quinto sono, junto de sua esposa Ana Carvalho, carinhosamente apelidada de Mamãe Santa.
Alem do privilegio desse referido quartinho, onde seria o lugar de dormir, o ocupante desse quarto se valia, para suas escapulidas, da infeliz condição de ser quase surda a sua mãe, Dona Lalada, que nada percebia dos ensaios e arranjos musicais que ali se desenvolvia m até altas horas. E, sendo assim, era o grêmio transformado no estúdio onde se preparavam os cantores - colegas de Dico - que abrilhantavam os programas de auditório, no Salão da Liga Católica, os saráus em casas de família, os corais das igrejas, alem dos bambas que se apresentavam no Jazz Fá-Lá-Si-Mi Queres, no Teatro Municipal e mesmo no Salão de Molas.
Frederico Dico foi, e seguiu dessa forma enviesada e a seu modo, um incentivador dos seresteiros da Vila do Fanado, cuja fama se firmou através da boemia espalhada pelas demais paragens dela originadas.
Alem de ourives e seresteiro, é de fato incrível o fato de que esse fanadeiro, mesmo afetado pelas conseqüências adversas de sua incúria etílica, encontrasse ânimo, fôlego e vocação para o futebol, participando com entusiasmo das fileiras do Vasco Fanadeiro, nas quais atuava como meia-esquerda e enfrentando com galhardia o adversário rubro-negro comandado pelo violonista Álvaro Freire que embora festeiro, sabidamente preferiu enveredar-se pelo mundo das letras e das artes de salão, não fazendo parte dessas pândegas que infelicitaram o destino de muitos jovens, entre eles o Dico, que gozou de curta temporada no cenário de nossas artes, como de resto sói acontecer aos que na vida desregrada se deixam ceifar precocemente nessas curtas carreiras de muitos jovens fanadeiros.
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