LIVRO DO LALAU FANADEIRO


Meu grande sonho sempre foi o de escrever um livro. Porém esta era uma missão para mim quase impossível, pois deparava-me sempre com o obstáculo do apedeutismo de que, confesso, infelizmente continuo vítima.

Além do mais, haveria ainda e de igual forma, uma outra dificuldade, a da carência de meios financeiros para custearem as despesas editoriais, em razão de que, depois de escritos, os meus causos jamais teriam como se verem publicados, entrave este que agora - para minha felicidade- vejo contornado graças ao advento desse grande recurso de mídia chamado "Web".

Contudo, confesso que continuo fraco nas letras mas espero que em nada possa afetar essa condição de minha particular carência gramatical, vernacular ou ortográfica, que já não me assusta tanto, agora que descobri a capacidade de digitar ( muito melhor que a de rabiscar), que me facilita tanto no ato de expor todo tipo de ideia que me vem aos borbotões, ao ritmo e ao compasso dos dedos que vou deslizando sobre as teclas do meu computador.

E Isto, para mim, vejo como se fosse música - uma outra terapia a que me recorro de forma lúdica, pois agora posso também "compor e executar" nesse instrumento
que nunca antes nesse país (como assim diria um outro apedeuta, muito mais importante e mais famoso) pude eu adquirir para os meus enlevos.

Portanto será este BLOG o meu providencial recurso para dar forma a meu livro tão sonhado, o qual, mesmo se não for prestigiado por mais de um único leitor (além de mim mesmo), ainda que assim se apresente neste formato digital, para mim já será o bastante para apaziguar-me no enorme desejo de botar para fora tudo o que carrego dentro de mim, desde aqueles breves e distantes tempos em que, nas aulas da saudosa mestra Dona Maria Lopes, eu sonhava dar vida e voz a meus personagens, naqueles únicos bancos escolares que pude frequentar, dos quais guardo as mais ternas recordações e que me trazem tanta saudade, lá do meu querido Grupo Escolar Coronel José Bento.

Não tenho pretensões literárias, nem espero sucesso editoral, mas tenho agora os meios necessários para a vazão daqueles meus ímpetos de contador de "causos" os quais passo a apresentar sem qualquer planejamento ou ordem cronológica (ou em capítulos como seria normal ocorrer em um desses livros concebidos dentro dos tradicionais padrões editoriais).

Sendo assim, irei publicando páginas, diariamente, simplesmente registrando os fatos que forem surgindo na medida em que puder formatá-los de maneira a ser minimamente entendidos pelo leitor eventual, a partir de tudo aquilo já registrado em minha memória.

E será desta forma que espero, ao longo do tempo que me resta, ir deixando consignados, neste espaço, os contos que produzi na companhia alegre dos meus compadres e comadres, através dos intermináveis caminhos espinhosos, empoeirados, íngremes e tortuosos por onde andávamos em busca do nosso sustento, de nossas convivências, de nossas amizades, contando a doce alegria de nossa vida fanadeira, com a qual aprendemos a carregar as esperanças e ilusoes pelos destinos traçados neste chão da simplicidade, do companheirismo, da solidariedade, da amizade e de tudo que for em direção do nosso Bom Deus, justo e maravilhoso que permite a sobrevivência de todos que nele crêem e até mesmo daqueles que o rejeitam.


Agradeço-lhes, na humilde expectativa do acolhimento e também pelas críticas.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

TRADIÇÕES COMO AS DA FESTA DO ROSÁRIO

Carta enviada pelo Prof. Francisco Valentim ao Prof. Manoel Ramiro:
Pirenápolis, 02-IV-2007

Meu prezado primo e conterrâneo: 

Como é do vosso conhecimento, estou residindo atualmente em Pirenópolis, aqui no Planalto Goiano, onde acabei me esbarrando depois de uma peregrinação de teimoso professor em diversos educandários católicos.

Aposentei-me e hoje ainda vivo só, contudo sinto-me saudável e feliz, no meio de meus livros, preces e recordações.

Aqui é uma antiga e aprazível cidade, de muitas tradições, a exemplo da nossa querida Minas Novas, sendo que identifico, entre essas duas localidades, algumas curiosas e singulares coincidências, principalmente com referência a suas festas religiosas, como também aos usos e costumes populares.

Naturalmente que aqui, mercê do incentivo que se observa em abundância, por parte das autoridades locais – percebe-se que há uma nítida determinação no sentido de sua preservação, com o maior respeito e carinho, sendo esse magnífico patrimônio histórico e artístico defendido por todos, com unhas e dentes, com o esforço conjugado de administradores, políticos, empresários e toda a população, sem medirem os esforços, mas com muito critério e profissionalismo, de cuidar, valorizar e divulgar o acervo e a realização dos eventos, tudo bem escalonado num admirável calendário que contempla atividades sacras e profanas no decorrer de todo o ano. Diria, porém, que em relação à qualidade do artesanato, à originalidade do folclore e até mesmo quanto à hospitalidade dos moradores, é bem provável que temos lá em nossa velha terra algo insuperável e que, talvez por milagre de Nossa Senhora do Rosário, nem o tempo e nem o descaso de alguns governantes ainda não se conseguiu destruir.

Movido pela nostalgia de um velho solteirão, no clamor de uma curiosa saudade, tenho observado -- com acurado zelo – essas incríveis semelhanças que me remetem, às vezes com certa revolta, aos nossos tempos de crianças abandonadas, quando vivíamos na mendicância pelas ruas de nossa terra, quando só encontrávamos algum conforto na misericórdia da religião e na bondade de algumas pessoas caridosas que hoje habitam o Reino de Deus, a exemplo do meu inesquecível padrinho Domingos Mota, do Cônego Barreiros, do nosso saudoso tio Honório, além dos veneráveis Cel. João André, Cel. Demóstenes César e Dr. Martiniano, dos boníssimos amigos José Hemetério, Mestre Roxo, Professor José Gomes, e tantos outros benfeitores de nosso sofrido povo, que sejam todos eles muito abençoados e acolhidos por Jesus, em recompensa por tudo de bom que fizeram em benefício dos menos favorecidos.

Lá na nossa cidade, segundo estou informado, o ponto alto da religiosidade e dos festejos populares continua sendo a Festa do Rosário que sempre acontece nos dias 23, 24 e 25 de junho, sendo que, depois de ter localizado os nossos parentes em BH, através deles tenho recebido alguns folhetos e convites onde vejo ilustrações relacionadas ao evento, bem como a algumas notícias de cunho social e político, pelo que me parece, enfim, verificarem-se alguns acréscimos que em muito mudaram, para melhor, a vida dos que bravamente resistem por aquelas bandas do famoso Rio Jequitinhonha.

Fico observando e recordando de como era a nossa cidade, naquele tempo e agora imaginando, depois de mais de 70 anos, como devem estar suas ruas, suas igrejas, seus casarões e enfim, como deve ser o povo atual diante do progresso e do desenvolvimento do país, sendo poucas as notícias que de lá tenho, a não ser de algumas que me chegam através de um outro conterrâneo nosso, que reside na cidade vizinha de Serra da Mesa, que conservam parentes na região do Gomes, hoje a nova cidade de Leme do Prado, os quais, esporadicamente, aqui vêm para visitá-lo.

Em relação às festas religiosas, aqui em Pirenópolis temos uma lindíssima igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, mas as comemorações mais prestigiadas são as relacionadas ao Divino Espírito Santo, em que tudo se parece muito com o que recordo ter visto nas cerimônias, na minha infância, tendo até um cenáculo dos apóstolos armado no altar-mor, como o que havia na igreja matriz de São Pedro, sendo iguais a procissão e o cortejo do IMPÉRIO, que aqui se dá ao som da mesma quadrilha alegre, executada por uma bem organizada banda de música, como se fosse a cópia fiel da nossa Euterpe Conceição..

Também existe a Casa do Divino, de onde saem os cortejos do Império, sendo este e local em que, após a Santa Missa na Igreja Matriz, é servido um lauto e chique banquete às pessoas que participam da festa.

Além desses festejos oficiais, aqui igualmente organizados pela IRMANDADE DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO, muitas famílias dessa comunidade organizam, em suas residências particulares, encontros solenes em homenagem a PENTECOSTES, como cultos de adoração, ternos, folias e giros de bandeiras: um costume que nos remete à tradição portuguesa trazida dos Açores, pelos mineradores e ricos compradores de ouro, muitos deles que tinham a profissão de oficiais ferreiros e ourives e que, no recolhimento de seus lares e tendas, longe do rigoroso controle da Igreja Católica, professavam antigos cultos herdados de seus ancestrais sefardins. Muitas famílias aqui dessa região de Goiás, são identificados e reconhecidos como sendo dessa origem e dela guardam fervorosamente esses valores tradicionais. 

Somente a título de ilustração, certamente desnecessário para o prezado e culto parente, “sefardins”, sefarditas ou sefaraditas, são designações dos judeus descendentes dos primeiros israelitas radicados em Portugal e Espanha e que dali, da Península Ibérica, foram expulsos no final do século XV e início do século XVI, pelo terrível Torquemada, um frei dominicano que durante a Inquisição ficou famoso como ferrenho perseguidor dos não-católicos. Esses povos, considerados à época como hereges pela Igreja Católica, para não acabarem mortos na Fogueira do Santo Ofício, aceitavam ser batizados como “cristãos-novos” e, nesta perversa condição, também eram forçosamente embarcados nas Caravelas, remetidos como degredados para as Índias Ocidentais, sendo que muitos deles acabaram por aportar-se em terras brasileiras, logo depois do descobrimento por Cabral e pelo interior do país, onde havia mineração, eles se espalharam.

Quanto a esse detalhe, acredito que talvez sejam as tradições, em ambas as cidades, oriundas da mesma fonte, ou seja, que o costume de celebrar-se a Festa de Pentecostes, com os rituais tão parecidos, tenham sido levados para essa região de Diamantina, Serro e Minas Novas, também pelos descendentes dos povos sefarditas, pois bem me lembro de que o meu padrinho - o saudoso Domingos Mota – que entendia de manipulação de remédios e exercia a arte de benzer crianças, com a imposição de suas mãos para curar dores e feridas, tinha hábitos bem peculiares dessa gente estrangeira, como, por exemplo, o culto fervoroso à Nossa Senhora do Terço, a São Gonçalo do Amarante e à Nossa Senhora do Carmo, que além de ter sempre à mão um exemplar da “bíblia” resumida ao Pentateuco (que hoje reconheço tratar-se da Torá), que ele sempre lia, recostado em sua espreguiçadeira, num quarto escuro cheirando a incenso e alecrim, tendo à cabeça o seu solidéu branco que era usado como kipá, sempre quando ele executava com maestria o seu curioso instrumento musical conhecido como ofclide, ilustrando melodiosamente o coro da igreja, durante as ladainhas e as novenas de Nossa Senhora do Rosário.

Estou convencido de que o meu padrinho, homem sisudo, reservado e bom, que se dizia filho do cônego Zeferino, na realidade, deste era apenas valido, tendo a ele sido confiado, logo ao nascer, por determinação da rigorosa moral católica, de vez que sua mãe, uma jovem natural de São João da Chapada, assim teve de agir por haver-se engravidado de um tejucano, judeu comprador de diamantes e ouro, naquela vasta região mineradora. A pobre da mulher, vítima de seu imprudente amor proibido, viu-se impedida de com ele se casar, no que foi obrigada, pelos pais, a colocar o filho na roda de recolhimento da igreja. Sendo esta a razão de que, depois da morte do cônego Zeferino, a guarda da criança ter sido transferida para outro sacerdote, o Cônego Barreiros que, por sua vez, além de ser respeitada autoridade eclesiástica na região do Fanado, também era dono de produtivas lavras de diamante em todo o Vale do Jequitinhonha. Pelo menos esta é uma vaga recordação do que eu ouvia comentar a minha madrinha Nazinha, em suas eventuais confidências aos seus familiares.

Eram os cônegos, nessa época, clérigos seculares sem côngruas e, em assim sendo, não deviam obediência aos bispos diocesanos. Eram eles, geralmente, vindas de famílias ricas, possuidoras de grandes fazendas ou de comerciantes abastados que faziam de seus filhos padres apenas levados pela vaidade e pela distinção que a igreja exercia junto aos poderosos. Dessa forma é que os religiosos alcançavam grande prestígio e conquistavam respeito e afeição por parte dos paroquianos, tornando-se protetores e até mesmo sócios dos mascates e garimpeiros de origem judaica. E não raro os religiosos que tomavam essas crianças para criá-las permitiam a aproximação com os pais de sangue, ali ao pé do altar, tolerando-se a iniciação, concomitante, da fé messiânica, a par dos costumes da igreja oficial, com seus rituais próprios, fundados e ensinados pelo Judaísmo. Essa prática era sabiamente acatada por aqueles religiosos de firme convicção cristã, animados, porém, pela orientação que recebiam de seus superiores hierárquicos ligados, secretamente, à maçonaria e a outras organizações herméticas de grande influência na Corte e na Metrópole.  

Tais observações, sobre as quais agora estou vos relatando, decorrem desta mania que adquiri de ficar filosofando, buscando justificar a origem de todas as coisas, de bisbilhotar arquivos, de inquirir fontes confiáveis e de buscar informações sobre fatos estranhos e a respeito de tudo que me desperta curiosidade – quiçá para preencher o meu vazio existencial de um seminarista fracassado (um padre gorado: como diriam nossos conterrâneos) mas que, lá no meu íntimo, sei tratar-se de uma fantasia, uma doce ilusão de, quem sabe em breve, depois de sete décadas ausente, ter a felicidade de voltar às origens e ali reencontrar um passado bem distante, não o triste e cheio de sofrimento, mas aquele em que vivíamos sonhando, com a ingênua santidade, sem saber o que era amor ou esperança, cegos pela fome, pelo desprezo e pela inocência dos desiludidos, pois nem mesmo imaginávamos haver a possibilidade de vida além da outra margem do Fanado e que o Morro da Contagem era apenas o caminho por onde deveriam seguir os infelizes e os deserdados de Deus.  

E nesse dia, espero que estejais comigo, pois por muitas e muitas vezes, em outras oportunidades, já me revelastes um igual desejo. E assim haveremos de realizar nosso sonho, principalmente agora que a nossa Igreja Católica, a verdadeira religião que é Inspirada no Divino Espírito Santo de Deus, sob a orientação segura do Santo Padre – o nosso Papa BENTO XVI, estará retomando toda sua magnitude e seriedade, no resgate dos ritos sagrados, difundidos pelos patriarcas de origem judaica, como os serfaditas, autênticos e valorosos guardiões da Santa Liturgia ensinada nas Escrituras Primevas, sendo que o atual sucessor de São Pedro, de forma brilhante e exemplar, vem resgatando uma tradição que hoje o próprio clero agora haverá de reconhecer como da maior importância, dada sua origem judaica e, portanto, precursora do Cristianismo, conforme o que se está debatendo, em Aparecida do Norte (SP), no Sínodo que foi aberto por Sua Santidade, quando este, em sua recente visita àquele Santuário, deixou clara a sua determinada intenção de valorizar e popularizar cultos e fórmulas litúrgicas originais, a exemplo destas, há muito desconhecidas, ignoradas, menosprezadas e desestimuladas pelos padres incultos que se alastraram pela maioria das paróquias e dioceses tidas como progressistas.

Na nossa cidade, lembro-me que lá existia a CASA DO IMPÉRIO, local em que havia a Exposição Permanente da Coroa e das Jóias do Divino Espírito Santo e de onde saia, nas datas festivas, o Séqüito Real para a celebração do Dia de Pentecostes: infelizmente fiquei sabendo, através de meu sobrinho que lá esteve na época dos festejos de 250 anos de emancipação do município, que o referido imóvel, bem como seu rico mobiliário e alfaias, foi confiscado pelo chefe político local de então, sob o argumento de que, desde o advento da República, já não se justificava mais a conservação de um Império e, segundo sua ótica arbitrária, estaria o Divino em situação fiscal inadimplente perante a Câmara, razão pela qual, numa decisão eivada dos mais reprováveis vícios e equívocos, considerou a “pessoa” do Divino como réu-devedor, declarando-o sumariamente como falido e imediatamente extinto, transferindo-se todos os bens, dele remanescentes, ao  "ERÁRIO PÚBLICO MUNICIPAL" (isto é, para o seu próprio bolso, como de fato ocorreu!), sendo que os autos do respectivo processo judicial em questão, estariam ainda devidamente arquivados no Cartório do 1º Ofício da Comarca, uma pérola de peça folclórica que deveria estar sob o cuidado de um museu.

Dizem, por lá, que a referida Casa foi logo arrematada, por pouco mais de nada, por um sobrinho do referido prefeito, um advogado que na cidade exerceu por pouco tempo a função de Delegado de Polícia e que, tão logo obteve sua promoção para uma comarca maior, torrou a Casa do Império nos cobres, repassou-a, com muito lucro, ao colega Dr. Arlindo Vieira, um “adevogado” (não mais que um rábula), que havia chegado para ocupar o seu lugar e com a missão de inviabilizar (em vão) o sucesso daquele que se revelou brilhante causídico, que foi o bacharel Ataliba Pires César, filho de um outro ilustre benfeitor nosso, o Coronel Demóstenes Ferreira César..

Posteriormente aquele monumento histórico foi adquirido pelo comerciante Raul Marcolino que, por seu turno, o transferiu para o Banco do Brasil, sendo que no local, depois de demolido o antigo casarão, foi em seu terreno edificada uma moderna mansão para residência de um dos gerentes da agência local, tudo segundo relato do meu sobrinho Alcides, que aqui vem sempre me ver.

Segundo o que se comenta na cidade, o ex-prefeito Murilo Badaró tem acalentado, como seu principal objetivo, visando recuperar seu antigo prestígio político na região, investir de forma maciça no setor turístico -- sabidamente de grande potencial por aquelas paragens -- e ali reconstituir, não só o conjunto histórico representado pelos monumentos, sítios e formidável acervo cultural, mas, também, devolvendo, restituindo e recompondo tudo aquilo que, curiosamente, foi demolido, extraviado e surrupiado pelos seus próprios antepassados, os quais, desde os memoráveis tempos da Colônia, já vinham explorando e espoliando o município, sempre tido e havido como uma propriedade feudal dessa centenária família oriunda de Piranga ou talvez de Barbacena.

E extraímos disso tudo, que não foi outra a motivação negativa que desiludiu o prefeito e o levou à renúncia do cargo, diante da decepcionante constatação de que herdara um passivo deprimente e maldito, patrocinado justamente pelos próprios ancestrais, os quais -- até então -- eram cultuados como os mais justos, íntegros e santos benfeitores do lugar.

Nesse sentido – para compensar o tempo perdido, e já se adiantando para a esperada inserção dessa cidade no roteiro fabuloso da propalada ESTRADA REAL – apressou-se na inauguração, recentemente, na nossa antiga e histórica cidade, do espetacular e moderníssimo GRANDE HOTEL DE MINAS NOVAS, cujas fotos promocionais as tenho em mãos, um empreendimento milionário e audacioso, em que ele próprio, o ex-senador e atual presidente da Academia Mineira de Letras, inteligentemente participa, na condição de majoritário, tendo como sócios algumas figuras de destaque na atual administração estadual, sendo que a sua próxima investida será a revitalização, com toda pompa, fulgor e circunstância,  tanto da citada Irmandade do Santíssimo Sacramento, que detém a guarda de valiosíssimo tesouro histórico representado pelas antigas edificações religiosas do século XVIII, com suas imagens sacras, móveis e objetos de arte, arquivos, alfaias, paramentos e todo um acervo que passa por minuciosa catalogação – alguns já tombados oficialmente pelo IPHAN e IEPHA, -- além da necessária reedificação do tradicional Império do Divino -- ou Casa de Pentecostes – vitimada pela inconseqüente decisão do Dr. Francisco Badaró Júnior, seu pai, este que seguiu o exemplo do outro Francisco Badaró, deles ascendente, que levado pela fúria da vingança, determinou, no início do século passado, demolir a suntuosa Igreja Matriz de São Pedro do Fanado.

O que se deduz desses lamentáveis episódios históricos, é que Minas Novas, apesar do que ainda se encontra preservado, poderia contar, nos dias atuais, com um dos mais ricos e completos acervos, que se pode ver em museus sacros do país, se não fosse a perniciosa e incrível vocação iconoclasta dos dois importantes chefes políticos, da mesma família Badaró, que antecederam ao Dr. Murilo, como prefeito, que além da destruição do patrimônio do Divino, também colocou abaixo, com explosão de dinamites, um templo maravilhoso cuja eliminação resultou no cancelamento de uma Bula Papal que autorizava a instalação da Diocese de São Pedro, em Minas Novas, tudo resultado de uma terrível vingança para atingir o Bispo de Roma, pelo fato de ter sido o Dr. Francisco Duarte Coelho Badaró (avô de Murilo) destituído, pelo santo papa Leão XIII, do cobiçado cargo de Ministro Plenipotenciário, e de lá da Itália ter sido expulso – como “persona non grata” – acusado que foi, entre outras graves irregularidades – pelo crime de bigamia ao contrair núpcias, em sendo ele aqui casado com Dona Sinhazinha, e lá com a italiana mafiosa Adelli Spiombo, num escândalo internacional que manchou a diplomacia brasileira e colocou em risco a credibilidade do Itamaraty.

Ainda bem que -- no coração envergonhado e penitente desse nobre político – obrigado que foi a se renunciar de seu cargo de simples prefeito (justo ele que já exerceu com tanta dignidade os mais honrosos cargos de Ministro e de Senador da República), com toda certeza permanece inalterado e firme o seu sentimento de amor e de paixão filial que o acompanha e o motivou a se rebaixar, prestando-se a candidatar a prefeito de seu humilde e esquecido município, como ele próprio fez questão de ressaltar e de deixar bem claro, ao ser argüido por repórteres, naturalmente curiosos diante do fato inusitado de assim proceder.

Mas, em que pese toda a injustiça contra ele cometida, não foi debalde a sua administração, pois temos de reconhecer que, em tão pouco tempo, pode ele fazer o que todos os seus antecessores, somados, jamais fizeram pela cidade, o que lhe foi possível em razão do grande prestígio conservado depois de haver galgado os mais elevados postos no universo político nacional, trunfo dessa sua preciosa experiência que lhe assegurou e permitiu produzir os melhores frutos para seu município, consubstanciados num conjunto de desenvolvimento que devolveu à velha comuna o seu antigo esplendor, ainda em boa hora, para confirmar sua imagem de homem culto e de cidadão conciliador, nessa verdadeira cruzada que humildemente vem se desdobrando com o fito de se redimir, junto de seu povo, pelos erros cometidos pelos seus falecidos parentes, muito podendo, desejando e se comprometendo de fazer, a exemplo do que já fez, como a implantação dos cursos universitários, a construção do Grande Hotel, a organização do Museu do Sobradão, o imenso Ginásio Poliesportivo Coberto, a moderníssima ponte nova sobre o Rio Fanado e as estradas asfaltadas que em breve serão inauguradas, sem se falar da grande realidade que se transformou as dadivosas barraginhas, que associadas ao transporte seguro e subsidiado dos feirantes, à eletrificação rural de todas as suas propriedades, bem como a melhoria e multiplicação das dezenas de escolas e postos de saúde que espalhou pelo interior do município, vem viabilizando a farta produção agrícola, emprego e renda para os jovens trabalhadores, com a conseqüente paz e tranqüilidade das famílias, tanto na cidade como no campo.

Um abraço fraternal,

Francisco de Assis Valentim 
Professor Universitário Aposentado



Nosso objetivo maior é coletar dados sobre a história de MINAS NOVAS com a finalidade de organizarmos um banco de dados necessário à Tese de Doutorado a ser defendida pela professora Maria Aparecida de Paiva, do n/ departamento de antropologia.


Carta enviada pelo professor Manoel Ramiro, em resposta a seu primo, o professor Francisco de Assis Valentim:


Belo Horizonte, 25 de maio de 2007

Meu caro amigo e conterrâneo,


Releio a sua missiva e folgo-me que esteja assim tão informado sobre as coisas de nossa terra. Lamento, porém, que algumas informações lhe cheguem assim tão distorcidas em relação à realidade que conheço.

São muito procedentes – e enriquecedoras -- suas teses em relação aos religiosos de antigamente, pois bem sei que nesse assunto o caro parente é catedrático. Quando à crônica política, principalmente no que concerne aos fatos atuais, creio que seria bom você se informar através de fontes mais fidedignas, não as comprometidas com o político Dr. Murilo, mas não vou me meter nessa seara a qual não faz o meu gênero.

Caso você, estando disposto, for à nossa cidade, verá, com seus próprios olhos, que a versão que está lhe chegando não corresponde muito com a verdade dos fatos reais que se passam por aquelas bandas.

Para mim pouco me importa as questões políticas, pelas quais nós todos já sofremos tanto. Prefiro lembrar-me dos tempos de nossa infância, agora pelo prisma dos bons momentos e pela memória das boníssimas pessoas que lá deixamos.

Quando o mês de junho se aproxima, logo começo a sentir o cheiro do assa-peixe ransformado em bassouras, com aquele aroma característico que sai do forno de garrancho, ao serem assadas as broas e os tarecos, nas casas dos festeiros do Rosário, alí na nossa cidade, quando percebo que, ao invés de estarem  barrendo as brasas do forno, tão distante, aqueles ramos benditos estão – isto sim e de fato - barrendo é o meu juízo, de tanto que fica no meu pensamento a vontade de estar lá no meio daquela boniteza toda, o povo todo se movimentando, no afã de se preparar para a grande Festa de Nossa Senhora dos Homens Pretos..

Como gostaria de ser uma daquelas ligeiras andorinhas, aquelas abençoadas que ficam voando em redor da torre da igreja, para, com esse grande poder delas, num só instante – partir daqui e depressa  lá chegar, naquela santa terrinha, ainda a tempo de assistir à “Quinta Feira do Angu”, indo alegre ao Fanado para buscar água, com a minha lata na cabeça e ajudar na Lavação de nossa linda igreja, além de poder provar um pouco daquele dicumê cheiroso, que sempre é servido, ainda no alvorecer do dia, ao nosso feliz Povo de Ingoma!

Condefé este ano eu possa ir... e, se o Bom Deus assim o permitir, aí haverei de ter o imenso prazer de abraçá-lo junto dos demais conterrâneos que moram aqui em B.H. e em outras cidades distantes, os quais já faz tanto tempo não tenho a ventura de encontrar, em cuja oportunidade teremos de matar a saudade, provando uns cálices de quentão ou de licor de jenipapo e apreciando aquelas prendas maravilhosas que vamos arrematar na mesa de leilão, com o largo todo enfeitado de bandeirolas e no meio daquela barulhada boa de tambores, bandas, rojões e traques.

A Mariinha de João Lelé me informou que este ano tomarão posse dois reis-novos, com o detalhe especial que é o fato de serem brancos; são eles:: José Sinval (Pimba) de Geralda Sena e a Dona Pedrelina Marques Fernandes, que é a esposa do Daílson de Isaias Roxo.

Os reis-velhos, porém, seguindo a tradição, são dois irmãos pretos: Festeiro, o menino que é neto de Chico Rocha e a Festeira, Cândida Rocha Soier, irmã do nosso Padre Júlio, netos da saudosa Ana de Sabino.

Segundo fiquei sabendo, pela boca daquela nossa irmã, a Mesa teve que assim permitir, quebrando a longa tradição que vinha vigorando, pois se sabe que havia a natural exigência de que pelo menos um dos festeiros fosse negro, mas, por força dos tempos que se vão mudando e já chegados na atualidade, em que grande parte da nossa Irmandade hoje está constituída de pessoas brancas e pardas, as quais, no fundo de seus corações, são todas elas nossos amados irmãos, devotados, fieis e filhos fervorosos de Mãe comum que é a Mãe Santíssima de Jesus Cristo, a Virgem do Rosário e nossa Divina Padroeira..

Afinal, todos desejam, e também têm o direito, de fazer a Festa e o que importa é que, sendo os nossos reis pretos ou brancos, pobres ou ricos, sempre veremos neles a figura amável e querida de quem está ali com a missão de representar a união, o congraçamento de todos os minasnovenses, todos irmanados com o objetivo maior que é o de homenagear a Mãe de Jesus, para  manter o brilhantismo das festividades, cultivando a nossa fé e levando adiante o nosso compromisso de honrar as tradições sadias que tanto dignificam o nosso povo e a nossa terra.

Alegrou-me muito, também, a informação de que temos, lá em nossa cidade, um novo vigário, na Paróquia de São Pedro e que, ao contrário de seu antecessor, -- que era um frade rude e mal orientado – tem este jovem pároco demonstrado ser possuidor de um espírito evoluído, aberto ao diálogo e bem, muito bem conformado à índole acolhedora, festeira e piedosa, que tanto nos caracteriza, mesmo que a um só tempo, temos o lado teimoso e conservador nem sempre simpático aos recém-chegados, quando são estes, via de regra, portadores de preconceitos, reformas radicais, idéias de modernidades e de intromissões que possamos julgar inadequadas.

Aliás, é sempre bom relembrar que de imposição, opressão e injustiças o nosso povo já está calejado e, sendo assim, amantes da tradição e defensores dos bons costumes, vamos continuar defendendo nossos valores históricos e jamais haveremos de concordar com a repetição dos erros do passado.

Um forte abraço, e até mais lá nos vermos, se assim for a vontade de Deus.

Manoel Ramiro Júnior

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