80 ANOS DE MARIA DE ARAUJO:
Minas Novas, 02 de abril de 1978.
Minha querida tia Maria de Araújo,
Estava ali agora, com os meus pensamentos!.. Justamente naquela hora solene, em que todos nós devemos ficar compenetrados, fazendo força para que tudo saia bem, foi nessa hora extrema de reflexão que ouvi, aqui em sua casa, o barulho desse povo que aqui vem beber e comer, dizendo que é por que você é boa, é uma pessoa legal e em quem se pode confiar e querer bem, etc. e tal...
Pois bem, estava escutando essas lorotas, lá da nossa aconchegante casinha, e como você deve saber, nestes momentos de recolhimento profundo, de grandes reflexões e divagações filosóficas, quando o nosso pensamento fica a vagar e a gente fica fazendo força, assim zonzo e sonso, a divagar, a sondar, a contar, fazendo mais força, olhando os caibros e as ripas do telhado, lá em cima, nessa hora privada, escutando o zumbido do vôo solitário do “rola-bosta”, tudo, aos pouco, vai-se clareando e aliviando...devagar ... devagar... ah..ah!!!
Portanto, foi fazendo essas nobres conjecturas, nessa hora sagrada que fiquei mais preocupado e, então, pelo fato de haver- me esquecido de que hoje é o dia sacrossanto de suas eras, e logo eu que todo dia aqui venho, recompuz-me e me pus a matutar o que deveria fazer! E assim, sem muitos outros recursos, diante dessa aflição tão deprimente e vexatória de um pessoa enCUrralada no meio da invasão de um povo chato que chega sem avisar, sem saber o que fazer, no exato momento em que já tinha esse pedaço de papel higiênico na mão e eventualmente destinado a uma particular finalidade, também muito nobre, foi que me ocorreu de fazer dele um melhor uso e, então, sentado, como já estava, e lógico, antes de me sentar, ocorreu-me a inteligente idéia, para meu conforto, de forrar o “trono” com as palhas de milho que aqui são abundantes, eu tomei de uma oportuna esferográfica que eu tinha no bolso da camisa, e rabiscando esse "guardanapo", fui escrevendo essas linhas que eu peço à Eva que as mande ler, com muita atenção nos pontos e nas vírgulas, pois são os sentimentos que nascem lá de dentro do meu coração, pois você pode ter toda a certeza de que, mesmo que neste momento de tanta concentração e de filosofia, a força que estou fazendo não seja apenas para livrar-me dos resíduos, talvez fétidos, daquilo que mais cedo nós fomos obrigados a engolir, se faço agora uma força muito maior que a comum, é para livrar-me aqui, no desconforto desse espaço diminuto, desse meu pensamento em homenageá-la, de onde vai saindo bem de fininho as ideias, da mesma forma que também eu que agora faço, à francesa, para logo mais, na hora que essa cambada toda for embora, pudermos, somente nós, degustarmos daquela danada de galinha gorda que o Taquinho de Edgard e o Geraldinho de Eliziario já me disseram que prenderam debaixo da bacia, lá no seu quartinho escuro dos fundos da cozinha, esperando pra ser sacrificada em seu louvor e honra.
Receba essas linhas como uma homenagem que eu lhe mando, aqui deste meu trono fedorento, em nome de todos que, certamente, ai estão, todos analfabetos e que não sabem considerar a importância desse histórico momento e que ficam, só de olho é na boa comida e na bebida farta que você vai distribuir, enchendo-lhes os rabos, como a uns cachorros que ficam comendo, lambendo e babando, eles com essa falsa demonstração, nesse sentimento primitivo que é o da submissão e do bajulamento, recursos de que eles se valem para se garantirem do que comem, mas melhor que seja assim, pois através do estômago saciado, um dia talvez, eles tenham energia e inteligência suficientes para, sem aproveitarem de sua bondade, entenderem a grandeza dessa pessoa maravilhosa que é você.
Eu também, digo-o aqui, bem em particular, e bem baixinho: eu também sou um dos seus dependentes.
Mas, peço-lhe, não diga nada a ninguém sobre a “piante”, pois o Tone Caititu e o Quilinho, mais tarde, virão estar conosco para fazer-lhe uma serenata.
“ Marujo é aquele que vive no mar!”
E, Araújo, é aquela que vive no ar.
E a nossa eterna Maria Araújo continuará sendo aquela menina, sempre moça e bela, aos "oitenta" que levanta e que se senta, e viverá constantemente no ar, no mar e na vida de cada um de todos nós...
Acredito que, sem Maria, não haveria nem mar nem ar.
Mas, se essas coisas não houvessem e, se nenhuma dessas coisas existissem, seria bem certo que a vida, se existisse Maria, ai, sim, ainda haveria alegria e vida.
Mas, como a vida existe, e será sempre necessário que ela persista, será também muito importante que essa graça dessa ‘MENINA”, que é tão cheia de graça, essa eterna menina-moça, e que muito embora tenha a mesma idade de Minas Novas, assim continue também nova, ainda por muito tempo a povoar o mar e o ar desta cidade, enchendo-a de grande felicidade para aqui vivermos, e que todos possamos estar sempre a festejar-lhe a cada ano, a cada mês e a cada dia, sempre com a venturosa presença de sua jovem, simpática, elegante, eletrizante e tão queria postura e muito importante figura que é você, nossa insuperável Maria.
Maria, você tem a beleza, única, que a todos nos importa...
Tem você, a alegria que, sempre se renova ....
E você será sempre essa paz que a todos nos conforta!
Maria Araújo,
A você, que é a rainha dos Mota, dos Coelho, dos Figueiredo, dos Andrades, dos Martins, dos Souza, dos Silva, dos Oliveira, dos Matos, dos Evangelistas, dos Pestanas, dos Castanhas, dos Pequi, dos Moreiras, dos Borreiras, dos Pacus, dos Jacus, dos Cajus, dos Baus e de tantos outros que aqui estão, dos quais os nomes não me lembro agora, eu, em nome deles, dando-lhe um beijo em suas lindas e suculentas “bochechas”, desejo-lhe tudo de bom que alguém, simples e justo, pode desejar que Deus lhe conceda e lhe dê tudo de bom e que Ele lhe cumule de alegrias e felicidades, junto de todos os seus familiares, e também a nós que tanto lhe queremos, agora e sempre. AMÉM...
PARABÉNS DE TODOS NÓS!
E, VIVA MARIA DE ARAÚJO...
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