O Nêgo ROMUALDO
" Eu pus meu cará no fogo
Mandei Maria olhar
Maria mexeu, virou
Deixou meu cará queimar."
Romualdo era um preto velho que aparecia na cidade somente nos dias de festas populares, quando vinha não se sabe de onde, de que ou com quem. Chegava assim, maneiro, trazendo sua viola, seu alforje e seu jeito ressabiado de quem só quer uma beirada. Sem pedir licença, ia chegando à casa do festeiro e ali se colocava pronto para todo e qualquer serviço no terreiro, fosse para buscar e lascar uma lenha, manter aceso o fogo das fornalhas e do forno, mexer o tacho de doce, "barrer" o quintal, buscar água no rio, espantar um cachorro, dar um recado na venda ou fazer qualquer outra embaixada.
Era uma figura estranha, mais tirada para doido e não que fosse um doido "barrido", pois mesmo que o parecesse, no máximo poderia ser um doido manso e até útil para os serviços domésticos.
Mas tinha lá suas manias e esquisitices...
Assim é que ele ia ficando até o dia da festa quando se vestia com sua fatiota branca, botava seu chapéu de palha todo enfeitado de fitas coloridas e de flores, e lá ia ele seguindo os cortejos, acompanhando a procissão, no meio do povo com sua viola desafinada e rouca.
Só sabia cantar umas toadas bobas, algumas de duplo sentido e sem qualquer relação com o sagrado da festa, mas mesmo que não tivesse mais ninguém para fazer-lhe companhia no seu folguedo improvisado, lá estava ele em seu solo no meio do povo, solitário e alheio no meio da multidão.
Passadas as funções, retornava para o lugar de onde ele viera do mesmo jeito que chegara. E pela estrada da roça, voltava o solitário Romualdo seguindo seu velho caminho...
Se perguntado pelos detalhes da festa que terminava ele respondia, fazendo sua avaliação:
"- Bem...foi até muito bom o movimento de gente...
Mas ..., já quanto ao movimento de boca... Quá!"
Dava aquele muxoxo característico de desdém, querendo demonstrar sua discordância com a pouca quantidade de comida e de bebida que foram distribuídas naquela festa,ou, se fosse o caso, não o tivessem deixado esbaldar-se do jeito que ele bem queria como era de seu desejo e costume.
E seguindo sua estrada só aparecia novamente na velha cidade, na próxima festa do Rosário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário