GERALDO MARTINS, o minasnovense, era funcionário municipal e tinha como atividade principal a dura e implacável missão de dar combate às formigas e outras pragas de jardins e quintais, mas quando "ficava mais alegre", nas suas horas vagas que se prolongavam pelos dias afora, gostava mesmo era de uma sanfona e de subir pelos bancos da praça da prefeitura, após a sua degustação prediletta de várias cotréias, como fonte inspiradora de seus acalorados discursos, nos quais enaltecia a figura ilustre do burgomestre, dedicando-lhe chorosos elogios versados no mais castiço "Gongolês", um idioma complicado e que somente ele sabia falar e entender.
E no exercício dessas suas memoráveis carraspanas, para seu redor atraia uma grande claque de moças e rapazes que quanto mais o aplaudiam mais vibrante e eloquente ficava aquele orador de tão justas inspirações.
E no exercício dessas suas memoráveis carraspanas, para seu redor atraia uma grande claque de moças e rapazes que quanto mais o aplaudiam mais vibrante e eloquente ficava aquele orador de tão justas inspirações.
O hilariante Geraldo Martins era, de fato, muito dado às pandegas e às situações caricatas, pelo que conseguia ser estimado como uma das figuras populares da cidade, sendo que em sua casa, na rua do Pequi, freqüentemente acontecia os mais animados forrós, nos quais eu mesmo tive a feliz oportunidade de aprender a dar os meus primeiros rodopios naquele diminuto mais tão apropriado salão, ao embalo de sua sanfona e quando esta se calava, vencida pela virtuosidade etílica do sanfoneiro, a animação se redobrava ao som da "pé-de-bode" de João da Rocha, tendo ao lado os inentivos de sua esposa Luzia e o acompanhamento do pandeiro e dos pagodes bem ensaiados de Mozart, do cadenciamento de Zé de Chico Tropeiro e da cantoria das modinhas improvisadas do primo Zé Preto Paraná, em fonções memoráveis que varavam a noite, até amanhecer o dia, enquanto houvesse alguém a contribuir com o chapéu da coleta.
Uma vez, durante um carnaval, estando ausente o Dr. Agostinho que até ali era o eterno rei-momo da cidade, pois jamais este cederia seu trono para qualquer um, para que os bailes daquelae ano não perdessem a graça resolveram que o Geraldo Martins seria o rei-substituto e estando todos assim decididos e acordados, com muitas pompas e circunstâncias vestiram e ataviaram-no com aquela brilhante fantasia, com coroa, cetro, espada, capa dourada, bombacha de veludo vermelho e botas reluzentes.
E esse Momo “Ad-Hoc” fez o maior sucesso, pois sendo bastante gordo, pançudo e bonachão, bem caracterizava a figura tradicional a comandar os festejos dessa festa popular que sempre atraiu para Minas Novas a atenção dos foliões de todas as cidades vizinhas, fazendo do antigo teatro municipal o palco de eventos dessa natureza que ficaram na memória de todos que gostam do carnava
E o carnaval, mesmo com a ausência do Dr. Agostinho, transcorreu alegre sob o comando daquele rei substituto, o qual, porém, de tanto gostou que tomou pela função, não permitiu que lhe despojassem das coloridas vestes momescas e assim continuou fantasiado e vestido de rei-momo na quarta-feira de cinzas e nos demais dias que se sucederam através de toda a quaresma.
A cidade, passado o carnaval, voltou à rotina de sua tradicional madorna e religiosidade, respeitando rigorosamente toda a liturgia comum celebrada segundo o ritual barroco, com grande participação popular a todas celebrações sacras.
E assim sendo, certa manhã voltava da missa a “Sinhá” Fina, acompanhada pelas netas e amigas, que sempre andavam juntas, passando ali pelo Beco de Adelaide, uma viela estreita que liga o Largo das Nanás ao Largo de São Francisco, ao longo do caminho entre os muros do quintal de Naná Costa e os muros do casarão de Juca Lopes, quando ali se depararam com a figura do inolvidável “rei-momo”, em suas augustas vestimentas, ali estirado ao chão e entregue ao sono justo de quem teria passado a noite na esbórnea.
Ao ser reconhecido naquela desconfortável situação, a velha dama, que de todos se apiedava com aquele seu espírito solidário e bondoso, dirigindo-se às acompanhantes assim exclamou:
E o carnaval, mesmo com a ausência do Dr. Agostinho, transcorreu alegre sob o comando daquele rei substituto, o qual, porém, de tanto gostou que tomou pela função, não permitiu que lhe despojassem das coloridas vestes momescas e assim continuou fantasiado e vestido de rei-momo na quarta-feira de cinzas e nos demais dias que se sucederam através de toda a quaresma.
A cidade, passado o carnaval, voltou à rotina de sua tradicional madorna e religiosidade, respeitando rigorosamente toda a liturgia comum celebrada segundo o ritual barroco, com grande participação popular a todas celebrações sacras.
E assim sendo, certa manhã voltava da missa a “Sinhá” Fina, acompanhada pelas netas e amigas, que sempre andavam juntas, passando ali pelo Beco de Adelaide, uma viela estreita que liga o Largo das Nanás ao Largo de São Francisco, ao longo do caminho entre os muros do quintal de Naná Costa e os muros do casarão de Juca Lopes, quando ali se depararam com a figura do inolvidável “rei-momo”, em suas augustas vestimentas, ali estirado ao chão e entregue ao sono justo de quem teria passado a noite na esbórnea.
Ao ser reconhecido naquela desconfortável situação, a velha dama, que de todos se apiedava com aquele seu espírito solidário e bondoso, dirigindo-se às acompanhantes assim exclamou:
"-Meninas, vejam em que estado se encontra o nosso rei! E toda compadecida, determinou imediatamente a seu filho, o farmacêutico Agenor Santos que providenciasse a sua remoção daquele local, pois fazia pena de vê-lo ali jogado sob aquele sol escaldante sem ninguém para o socorrer, certamente depois de uma queda que lhe provocara ferimentos a impedir-lhe a locomoção.
E lá do referido beco saiu o grupo, sob o comando do próprio "seu" Agenor, com seus filhos Lourival, Du e Waldemar auxiliados por outros amigos, levando o pesado rei-momo, bêbado e dorminhoco. em direção de sua residência, localizada na distante rua do Pequi.
E lá do referido beco saiu o grupo, sob o comando do próprio "seu" Agenor, com seus filhos Lourival, Du e Waldemar auxiliados por outros amigos, levando o pesado rei-momo, bêbado e dorminhoco. em direção de sua residência, localizada na distante rua do Pequi.
O sol já ia alto e vendo-os chegar com aquela padiola, na qual pode conferir a presença de seu marido ali escornado e roncando, a esposa dele que era uma mulher muito trabalhadora, mas por não sair muito à rua era poupada de qualquer informação sobre as andanças do marido, pelo qual dedicava invejável carinho e respeito, nada gostando de vê-lo naquele quadro e mostrando-se indignada, se dirigiu a todos que ali estavam, repreendendo ao marido que nada podia ouvir, mas jogando a indireta - intencionalmente - aos carregadores que os já despachava sem mesmo agradecer-lhes o ato de caridade, dando-lhes a "merecida" descompostura:
" - Eu bem que sempre aconselho ao Geraldo para ele não andar com essas más companhias, mas ele nunca me ouve..."
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De outra feita o próprio Geraldo Martins, andando por aquele mesmo beco em que fora encontrado pela boa “Sinhá Fina”, a referida via em que à noite não tinha iluminação, tropeçou em algo gordo e quente que lhe pareceu ser uma pessoa que lhe era conhecida e com a qual, naquele trecho, costumava com ela se encontrar, e assim julgando ser quem imaginava ser, com ela foi logo se abraçando. Contudo, para seu desencanto, aquela não era a Burrucha, moradora da casa vizinha, e sim uma vaca sonolenta que, ao ser acochada, assustou-se e levantou-se bruscamente, quando saiu em disparada, levando o tal rei-momo em seus chifres, sacudindo-o pelos ares e o arremeçando longe como se fosse um toureiro inexperiente, o qual daquela rebordosa saiu com várias costelas, clavícula e braços quebrados, quase morto naquela violenta queda.
A pobre da Burrucha, irmã do sapateiro Juca Lopes, era também uma outra dessas figuras folclóricas, a que fazia, porém, a alegria não só do Geraldo, mas dos bêbados e dos inúmeros desocupados que agitavam as ruelas da antiga e boêmia cidade, a eterna e festeira Vila do Fanado.
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O município de Minas Novas era imenso até aquele início da década de 1960m quando de seu território faziam parte ainda os distritos de Chapada, Berilo e Sucuriú, que pouco tempo depois, já no governo de Magalhães Pinto, tiveram a felicidade de, finalmente, verem-se emancipados para tomarem, cada um independente do antigo julgo, o rumo do progresso que antes lhes era negado.
Em cada um desses distritos havia um vereador que representava, não propriamente os legítimos interesses da comunidade local, mas nas reuniões da Câmara Municipal de Minas Novas, eram os "paus mandados" do chefe da política regional.
E sendo um único município, todos os vereadores recebiam votos mesmo em seções eleitorais localizadas em outros distritos, inclusive no distrito da cidade.
E sendo um único município, todos os vereadores recebiam votos mesmo em seções eleitorais localizadas em outros distritos, inclusive no distrito da cidade.
Era essa uma época de muita dificuldade, quando não havia estradas e nem meios de comunicação entre as diversas partes do município, quando não havia, também, o atrativo da remuneração para os cargos de vereador.
A todo esse conjunto de desestímulos, acresciam ainda os sacrifícios que eram os constantes e sofridos deslocamentos em lombos de animais, para que os edis comparecerem naquelas reuniões onde iam somente para "dizer amém" e escutarem as velhas promessas de que o prefeito ia fazer isto ou aquilo e entrava ano e saia ano e as coisas sempre ficavam da mesma maneira, somando tudo no que culminou no generalizado desinteresse pelas candidaturas, sendo que raramente conseguia-se encontrar alguém que quisesse ser vereador, surgindo daí um grande impasse a ser resolvido pelo chefe político local.
As eleições se aproximavam e nos referidos distritos era grande a dificuldade de se organizarem as chapas para concorrer naquele pleito. Nenhum daqueles antigos políticos queria se apresentar, quando então resolveram montar uma chapa à revelia das pessoas que nela seriam inscritas, para que o registro fosse realizado conforme determinava a lei eleitoral, junto do nome dos candidatos únicos, respectivamente, ao cargo de prefeito e vice-prefeito.
Feriram-se as eleições e na apuração das urnas, cujos resultados eram sempre os mesmos já esperados pelos "coronéis" que era a "vitória" do prefeito, do vice e do juiz de paz, sendo que, entre os nomes dos vereadores eleitos, apareceu o nome do candidato Geraldo Martins como o mais votado e, como era de praxe, seria ele o presidente da Câmara, o terceiro cargo, portanto, na linha sucessória do município.
E desta forma foi convocado para tomar posse na Câmara Municipal de Minas Novas o cidadão minasnovense Geraldo Martins, ilustre e competente servidor dos quadros municipais que, se antes vivia incógnito era pelas suas razões de dedicação exclusiva às importantes atribuições de seu cargo, razão inconteste de seu prestígio e da expressiva votação recebida para o cargo de vereador, conforme demonstrava a vontade das urnas.
Tudo, porém, assim se sucedia em razão de que o rico comerciante de Berilo, homônimo do nossa herói, não tendo aceitado candidatar-se, devido aquelas razões que naturalmente o desestimularam, também não haveria de aceitar, como de fato não aceitou, tomar posse de um cargo para o qual não se candidatou, pois não havia autorizado que seu nome fizesse parte daquele rol de candidaturas. Afinal era ele um homem de bem, sério e honesto, que não aprovava aquela farsa, com a qual não compactuaria, mesmo diante de tantos argumentos e razões que lhe foram acenadas pelo coronel da cidade, mentor de mais uma daquelas tramóias políticas, urdidas na Casa Grande do Largo das Cavalhadas, sempre em conchavo com os responsáveis pela coordenação eleitoral.
Para contornar aquela situação vexatória, que poderia vir à claro e melindrar a politicagem com a Justiça Eleitoral até ali ludibriada, a solução foi empossarem o Geraldo Martins, como o fizeram com ele mesmo no caso do rei-momo, ao qual atribuíram todos os votos que nas urnas foram depositados pelos eleitores de Berilo, cuja vontade era eleger uma outra pessoa, a quem de fato confiavam.
E foi desta forma que se proclamou como eleito aquele Geraldo que nem mesmo era candidato, e que mesmo assim se tornou o presidente da Câmara. E foi assim, também, que enfim o Geraldo Martins, além de rei-momo que antes fazia seus discursos inflamados somente nos bancos da praça, passou a fazê-los na sua elevada cátedra da edilidade minasnovense, graças ao prestígio de seu xará importante que nem mesmo se conheciam, um que era o responsável pelas formigas da cidade e o outro que morava lá em Berilo e que não aceitou participar desse arranjo tão recorrente nas eleições da famosa Vila do Fanado.
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Com o ato de emancipação assinado pelo Governador da gloriosa UDN, o Dr. José de Magalhães Pinto, pela Lei 2.764, de 30.12.1962, o batalhador e progressista povo da antiga Vila de Nossa Senhora da Conceição da Água Limpa, que já se chamava Berilo desde 07-09-1923 (Lei 843), pôde eleger como seu primeiro prefeito aquele que deu novos rumos ao progresso de sua terra, o inesquecível Geraldo Alves Martins, saudoso pai do nosso bom amigo Jonaldo, este que, depois de radicado em Minas Novas, tornou-se um empresário de sucesso em nossa cidade, a tempo de conviver ainda, por muito tempo, com a figura inolvidável do homônimo de seu pai, que na eleição posterior se candidatou e não teve nem o seu próprio voto, de vez que no dia das eleições, esquecendo-se do pleito eleitoral, estava cuidando de seu tradicional combate às formigas, para logo depois pronunciar seus acalorados discursos em gongolês.
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