VASCO X FLAMENGO
NO CAMPINHO DO PEQUI
Na rua do Pequi, pelo menos aos domingos, o dia se iniciava muito cedinho para seus felizes moradores.
E não era para ir à missa, não, pois o tradicional comodismo do minasnovense, muito preguiçoso por natureza, já tinha por hábito arraigado, somente assistir à missa vespertina.
Missa matutina, isso era coisa somente para o dia da festa do Rosário e assim mesmo, se fosse ela celebrada depois das 8 horas "da madrugada".
É que o dia de domingo, para os moradores da rua Nove de Março, este sempre foi o nome oficial daquela importante via, era um dia todo especial: por ali, logo mais à tardinha, a cidade toda haveria de desfilar, dirigindo-se ao "estádio", para assistir mais um acalorado encontro entre as equipes locais do Vasco X Flamengo.
Havia até banda de música, serviço de alto-falantes, tabuleiros de pastéis, fotógrafos e torcidas organizadas, de ambos os lados.
Era, realmente (como diria o Funcho), uma tarde muito animada e festiva.
Para isto, os moradores daquela rua caprichavam no visual de suas casinhas, trazendo-as sempre bem limpas e caiadas, todas elas com suas calçadas varridas, com banquinhos e canteiros de rosas de noiva pobre, dálias, sempre-vivas, peidorreiras, girassóis e cus-de-gatos, e as diversas gaiolas com seus pássaros de estimação, dependuradas no beiral dos telhados.
O chão da rua era sem calçamento, onde a terra era bem vermelha, de uma oca mais parecendo com a ferrugem. Quando chovia, escorregava-se como quiabo e, quando não chovia, qualquer ventinho fazia levantar-se aquela nuvem de poeira.
Nos dias de domingo, entretanto, os caprichosos moradores procuravam amenizar aqueles inconvenientes, aplacando a poeira com uma trabalhosa irrigação, ou colocando lapas e troncos de madeira formando passarelas, em todo acesso ao campo de futebol, palco sagrado, onde se reuniam os aficionados do vibrante e saudável esporte bretão.
Em todas as casas, naquelas imediações, as talhas e os potes não paravam cheios, pois a cada momento alguém vinha buscar água para matar a sede. Também o cafezinho, o biscoito de goma, a broa de milho, ou outro agrado, eram fartos, juntos com aquela satisfação dos anfitriões em receber os visitantes, naquela movimentação singela e alegre que tomava conta das memoráveis tardes esportivas.
De vez em quando, no meio da torcida, formavam-se verdadeiros sururus, e era aquele corre-corre, aquele acode-acode, do deixa-disto, e do imediato sumiço, quase que instantâneo, das cercas de varas dos quintais vizinhos, donde cada um procurava se apoderar de um bom pedaço de pau para se armar e para se defender, dentro daquele sururu e das repentinas brigas e cuangas de torcidas.
Felizmente as rusgas não passavam de bate-bocas e terminavam, ali mesmo, naquele momento de emoção, exaltação e de arroubos partidários, sem maiores conseqüências.
Pena que não mais existe o campinho, aquele encantado lugar de formidáveis embates futebolísticos, palco de apresentação dos escretes local com rivais de cidades vizinhas, quando, invariavelmente, vencia a nossa garbosa seleção cujas cores eram defendidas, dentre outros inesquecíveis conterrâneos, de jogadores aguerridos e jamais superados como Berola, Nogueira, Vicente, Laca e Luiz Batatinha.
Aqueles cinco jogadores, que por sinal,eram, justamente, os cinco filhos da inesquecível Aurora de João Piloto, uma mulher trabalhadora e que encarnava, na sua simplicidade e dedicação, a alegria e glória daquela rua - sendo ela a mãe querida e abençoada daqueles nossos heróis, junto com sua filha Sinhá, a irmã única deles, as maiores incentivadoras do futebol em nossa cidade, quando eram as duas que se encarregavam, além dos afazeres normais de pessoas simples e sem posses, também as de bem zelar com desvelo e carinho dos uniformes e dos pertences de todos os demais times e jogadores, acomodando-os, defendendo-os, apaziguando-os, e, até mesmo, orientando-os nos momentos mais necessários.
No lugar do campinho surgiu o Colégio, cuja construção deveria ter sido localizada em qualquer outra área, onde seria mais útil e contribuiria muito mais para a valorização e a expansão imobiliária.
O Campinho do Pequi, sem dúvida, deveria ter sido preservado, não só pela sua importância histórica, mas, muito mais, pela sua utilidade pública de servir como o único local de diversão para a juventude, onde todos, sem exceção, poderiam continuar com seus exercícios físicos, tão necessários ao corpo e à mente.
É bem verdade que o prefeito Tião Barbosa, para substituí-lo, construiu o moderno Estádio do Pequizão, muito maior, devidamente gramado, dotado de moderna iluminação, com vestiários, bilheterias e arquibancadas que sem dúvida alguma é muito bonito e "coisa e tal", mas que acaba não sendo a mesma coisa e não tendo aquele mesmo encantamento do saudoso campinho da Rua do Pequi.
E, assim sendo, continua a meninada de Minas Novas - de resto carente de tudo - precisando de lugares abertos e sadios, livres, sem patrulhamento, onde poderiam essas crianças e esses jovens que aí estão fumando maconha e cheirando craque, ao contrário dessa tristeza, a correr, desamarrados, soltando suas pipas, batendo suas peladas e suas asas, enfim, tendo um lugar onde pudessem dar vazão à arte e às energias.
Nesse sentido, os campos de várzeas, o pelador, os terreiros de secar café e o areão das praias são espaços insubstituíveis, no conjunto dos logradouros públicos, configurando-se como da maior importância para surgimento e a revelação de novos craques e para servir de abrigo, onde se aglomeram as crianças e a juventude, em torno de algo saudável como o joguinho de bola, sem regras e imposições, longe das drogas e da ociosidade que é a mãe de todos os vícios e pragas que nos dias de hoje tanto têm infelicitado as famílias de nossas comunidades.
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