LOJA DE ZÉ DURVAL
Meu pai era dono de um comércio na cidade, onde se vendia de tudo: secos e molhados, louças, alumínio, tecidos, calçados, chapéus, ferragens, remédios, ferramentas, perfumarias, aviamentos, artigos para seleiros, sapateiros, carpinteiros e ferreiros.
Era essa uma época em que não existiam ainda as mercearias, supermercados, papelarias, padarias e as lojas especializadas, como nos dias de hoje, em que numa só se vender calçados, outra pra venderem-se cosméticos e uma outra para venderem-se roupas.
Nesse tempo as roupas e os calçados eram feitos por encomenda aos alfaiates, às costureiras, às modistas e aos sapateiros.
E era assim que as lojas tradicionais tinham muitos empregados, caixeiros, ferradores de animais e vendedores.
As prateleiras principais exibiam uma enorme variedade de tecidos, de todas as cores, padronagens e estamparias; eram morins, cretones, chitões, brins, sedas, rendas, veludos, gorgorões, lamês, cetins, brocados, lonas, gabardinas, casimira, linho, voales, alpacas, que eram vendidas aos metros depois de escolhidas no balcão pelos fregueses e que levavam as peças, ou os cortes, para o alfaiate ou a costureira confeccionar a costura, depois de tiradas e anotadas as medidas e passar pelas necessárias provas. Os modelos cada um criava ou seguiam o modelo das revistas próprias dos figurinos, que traziam o que mais se usava naquela época ou estação. Por isto mesmo, o comércio era bastante movimentando e gerava também muito emprego.
O FUNERAL DO ROCEIRO
E assim como no vestuário, não se usando comprar as roupas já prontas, como hoje em dia, também não havia loja funerária, sendo que o costume era o de mandar preparar o caixão para o defunto, de conformidade com a sua importância, suas condições financeiras, o sexo, a idade, o estado civil, o porte físico e outras características do morto.
Para tanto, tiravam-se as medidas do falecido e relacionava no papel tudo que na casa do morto iriam precisar para fazer o velório, desde a mortalha, que era a fatiota nova (pois para ser enterrado não servia uma roupa do uso do “de-cujus”) e até as mercadorias e víveres de uso comum da casa que se aproveitava para serem incluídas no rol de compras, pois tudo deveria estar bem arrumado e preparado para receber um grande número de visitas neste evento de passagem que era sempre considerado como um dos mais importantes e valorizados para as pessoas simples da zona rural.
ENXOVAL DO NOIVADO
Este também, quase sempre o negociante se via na mais absoluta obrigação de atender ao freguês, mesmo que este freguês que o procurava não fosse lá muito confiável. Antes, porém, para garantir-se o fornecimento, a família toda vinha em "missão" para apresentar a futura noiva, esta já na condição de afilhada do comerciante, o qual, por antecipação, garantia aos nubentes desde o material necessário para a casa ainda na fundação, o vestido branco, a grinalda, os principais móveis e as roupas de cama, mesa e banho. Neste caso, porém, existia a possibilidade de alguma recompensa futura, naquele atendimento prévio, pelo fato de que o noivo ficava no compromisso de concentrar suas futuras compras na "loja do padrinho", inclusive a aquisição de toda "traia" e da "bateria de cozinha" que se consistia nas demais mercadorias que deveriam ser adquiridas para compor a nova morada, tais como o ferro de passar roupas, a máquina de costura, o moedor de café, o picador de carne, o tacho de cobre para fazer doce, a chaleira, os bules, as bacias, as panelas e o urinol.
Era por causa desses detalhes que o comerciante se revelava a pessoa que ficava mais próxima dos roceiros e acabava por descobrir muitos segredos que passavam despercebidos pelas outras pessoas, pois tinha, às vezes involuntariamente, o controle de muitas situações como essas.
No caso dos Pantas, principalmente, foi através dessas ligações que se construíram entre eles e o meu pai, que pude percever, certa vez, que o ouro que geralmente eles traziam para a pesagem na balança de farmácia que meu pai usava na sua loja, fosse para avaliar ou cambiar, não era em pó, nem pepita, nem grânulos: era como se fossem cavacos de madeira, no formato de pedacinhos de rapadura. E eu, que toda vida fui muito curioso e que vivia bisbilhotando as minúcias e os segredos, mesmo aqueles mais impossíveis, fui insistindo com aqueles garimpeiros - com os quais ia conquistando confiança - até que um dia, sem querer, um deles, que muito freqüentava os terços da casa da Vovó Idalina, me revelou que a sua família, os Pantas, tinha uma barra imensa de ouro, que eles guardavam sob o segredo de sete chaves, do qual o velho Beraldo permitia, segundo as necessidades de cada um do grupo, tirar apenas o que precisava, utilizando-se do corte de um machado bem afiado. Mas não lhes era permitido jamais vender, de forma alguma, toda a referida barra de ouro, de uma só vez. No máximo, o que podiam era apenas "trocar", dando por pagamento aqueles pedacinhos raspados da dita “rapadura”, por aquilo que não tivessem a mínima condição de produzirem. Era esse o compromisso que todos tinham, em decorrência de um pacto que existia, entre os mais novos e o velho escravo, que por sua vez teria feito com "anhangá", uma entidade que era muito respeitada, que desde muito tempo havia lhe mostrado o local, no barranco do córrego, onde estava guardado ou escondido aquele misterioso pote contendo o misterioso ouro, no dia do seu achamento.
Ninguém, de fora, jamais chegou a ver o tesouro; mas no dia do velório do velho Beraldo, eles levaram para trocar pelas mercalhorias um pedaço bem maior, para preparar "à vista", um funeral mais bem produzido, mais caro, e ao que me parece, ainda nos dias de hoje os herdeiros dele se valem ainda, em suas necessidades, daquele dote interminável que é a fonte de sustento daquela gente.
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