O RANCHO
Sábado à tarde, fim de feira, quando os caminhões da prefeitura já se encostavam para acomodarem-se os feirantes e suas traias, conduzindo os roceiros de volta às respectivas comunidades depois de um dia de muita fartura e muita alegria para o povão.
De repente, um alvoroço:
Eis que Alcides Pires, forte como um touro e bêbado como um gambá, já aprontava mais uma de suas arruaças, para não perder o seu costume de sempre.
Alcides, estando sóbrio era ótimo e pacato sujeito; mas, naquele lastimável estado etílico, virava uma fera e a ninguém respeitava, a todos ameaçando de briga e desacatando as autoridades do lugar.
A polícia foi acionada.
Como já era do conhecimento a fama de valente e sua descomunal força, mesmo quando embriagado, compareceu na praça todo o contingente da PM local.
O homem era uma verdadeira jamanta, pior que uma mula empacada e coiceira.
Foi aquele "deus-nos-acuda", quando a tropa de choque avançou sobre o mesmo: esparramou gente fardada por todos os quatro cantos do largo do mercado e foram vistos soldados catando cavaco no chão em busca de suas cuias e procurando desvencilhar-se, de fininho, para não apanhar mais.
O comandante da missão, o famoso Cabo Braúna, gritava e animava aos subordinados para partirem novamente ao ataque e dominar o valentão inimigo.
Avançavam, todos, novamente, e novamente foram os valentes milicos jogados pelos ares como se fossem bonecos de pano.
Recuaram mais uma vez, quando apavorados viram o pobre do cabo com a boca sangrando copiosamente e a farda aos trapos, com o bandido montado em seu cangote.
Foi a gota d'água!
O jeito era mandar bala naquele desgraçado, o que seria uma tragédia, uma carnificina, pois os roceiros, que eram que nem caititus estavam aguardando o momento exato de também entrarem em cena, quando já estavam preparando para descerem dos caminhões, com suas peixeiras, e ajudar o companheiro a safar-se da polícia e seguir com eles para casa.
De dentro de uma venda nas imediações, porém, gritou Antônio Domingues, o velho carcereiro - que também gostava muito de um boteco - balançando seu molho de chaves:
"- Podem deixar que eu levo o moço”.
E, dirigindo-se ao meio da rua, pegou Alcides pelo braço, tirando-o de cima do cabo e o convidou para tomar uma pinga, lá na venda onde estava antes de levá-lo, tranqüilo e calmo, para uma das celas da cadeia pública local onde o trancafiou sem muito trabalho e sem qualquer ajuda dos militares.
Feita a ocorrência, não se sabe o porquê, constou-se no B.O. que o ferimento no queixo do cabo foi em decorrência de um coice de burro. Dizem que foi para não desmoralizar o batalhão, pois também no laudo médico indicava como sendo as lesões daquela mesma origem.
Quem é que queria encrenca com os Pires?
Eram todos eles de uma gente trabalhadora, honestíssima, mas era mesmo que um bando de caititu; aonde ia um, iam todos; e a maioria dos que estavam em cima do caminhão para irem embora, era daquela nação afamada que o povo da cidade conhecia e respeitava.
Para maior intriga, o diligente delegado de polícia abriu inquérito.
Não encontrando, porém no meio da multidão que estava na praça, qualquer pessoa que se dispusesse a testemunhar sobre os fatos relatados, o jeito foi contentar-se em indiciar o burro por lesões corporais graves, desacato às autoridades e por desrespeito ao sossego público.
Sem as provas, não pôde formar a culpa e por isso se viu o Dr. Majura na contingência de libertar o "inocente" Alcides, que se achava preso e encaminhar um inofensivo burro, que naquele dia dos fatos delituosos pastava ali por perto do mercado alheio aos acontecimentos, para o curral do concelho.
Alcides conhecia lá suas mandingas; o velho carcereiro Antônio Domingues também sabia como lidar com elas e sabia, ainda mais, com quem ele estava tratando.
Na cidade, quem é sabido não assenta praça para servir de troça, pois sabem da fama de Pimba, de Expedito, de Luquinhas, de Clóves Brandão e de alguns mais para os quais não adianta virem só meia dúzia de policiais para levá-los pra Sapucaieira: tem que ser mesmo um batalhão senão não dá nem pro começo e ficam todos no chão.
Da zona rural, então, nem se fala: além dos Pires, tem Adão Tintino, tem Raimundão e Doga da Baixa que são piores que o "cão chupando manga".
Quando algum rapaz da cidade vai prá PM, vira logo oficial e fica lá por onde necessitam de sua patente, pois todo roceiro minasnovense é respeitoso, mas tem ojeriza de fardado, principalmente aos sábados, depois do rancho.
Mas tempos depois o cabo, já curado dos ferimentos, foi promovido ao posto de sargento.
Na cidade onde ainda reside, todos o conhecem como "Sargento Cabo Braúna", tendo ele já aprendido um pouco daquelas mandingas, convivendo pacificamente com o povo amigo, ordeiro e trabalhador que vem da zona rural, não para brigar e desafiar a polícia, mas para exercer o direito de sua cidadania como autênticos minasnovenses, que o são de fato e de direito, que não gostam que lhes pisem os pés e muito menos que façam pouco caso de sua raça.
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