IX
UM OLHAR AO LONGE
Ao longe, lá por detrás dos coloridos ipês amarelos e do frondoso pau d'arco pendido de tanto lírio roxo, na sombra dos quais descansam sonolentas as lenhadeiras, ouço nitidamente o marulhar das águas cristalinas que caem da cachoeira das Almas.
Vejo, vindo de lá daquelas bandas, a nuvem verde de maritacas alegres e barulhentas que, depois de desenhar mil evoluções pelo céu de intenso azul, invadem as mangueiras cheirosas do quintal de Dito Cotôco.
Do antigo alpendre de nossa casa observo o sanhaço guloso que despenca lá de cima do mamoeiro, dentro do mamão totalmente oco que se esborracha ao cair no chão e de onde o passarinho, meio atordoado, levanta novamente seu vôo procurando novos frutos que abundam no pomar imenso e que vai se duplicando naquela paisagem verdejante de cada quintal, sem muros, apenas delimitados pelas toscas cercas de varas tortas e frágeis, trançadas como fortificações incapazes de inibir o transito por todo aquele paraíso, também da criançada ditosa mais pura e inocente que as próprias criaturas edênicas e idílicas como os próprios sanhaços, os tico-ticos, os sofrês, os sabiás e as jandaias que enfeitam aquele imenso viveiro.
À noite, quando não existe a luz do luar, costumo sonhar, sobressaltado, com o lúgubre tropel das ferraduras faiscantes da mula-sem-cabeça, que nas pedras redondas que calçam as ruas de meu pensamento, confundem-se, na minha saudade, com o pé-de-moleque delicioso que a tia Lenda derramava na mesa de tábua escura arrumada no centro da cozinha encantada da casa de vovô Domingos Mota.
Desperto-me, pelas manhãs perdidas no tempo, com o cheiro delicioso do café torrado sendo moído no pilão, socado na batida cadenciada da madeira e no ritmo nostálgico da dupla Rosária e Amparo, as irmãs gêmeas que ensaiam suas cantigas dengosas, manimolentes e maliciosas que ecoam pelo corredor de nossa casa.
O sol ainda se nega a se despertar de todo, agarrando-se às fraudas orvalhadas que fogem como nuvens, quando uma daquelas gêmeas já me sacudia suavemente e tirando-me do sono e do aconchego de panos alvejados, recheados com a palha macia e estalante impregnada do cheiro misterioso de amoníaco, chamando-me para ajuntar à companhia dos vizinhos Pecá, de Zé Geraldo e de Adão de João de Deus, meus companheiros inseparáveis, que lá na cozinha, impacientes pela minha demora, já se serviam de boas canecas de café com queijo, broas de fubá ou de farinha de milho, esse o tributo merecido da recompensa que eles recebiam pelo trabalho de me escoltarem diariamente até ao "Zé Bento", cujo esforço e dedicação resultava no meu melhor aproveitamento das lições, sem perdermos o horário da chamada, da anotação dos deveres de casa, mesmo que eu estivesse - em razão das gazetagens, na companhia de uma récua - já longe, no momento do toque da sineta.
“Eu me chamo Lili.
Eu comi muito doce.
Você gosta de doce?
Eu gosto tanto de doce!
As minhas meias são azuis.
Elas estão furadas.
Eu não sei coser.
Como há de ser?
"Agora passa a Bandeira.
Tiremos nosso chapéu;
Vai a pátria brasileira,
Nas dobras daquele véu".
"Minha enxadinha
Trabalha bem.
Corta matinho,
Num vai e vem."
"Minha enxadinha
Vai descansar,
Para amanhã recomeçar:
Adeus trabalho,
Adeus matinho.
A ti, plantinha,
Um doce orvalho!"
"Deixa-me, deixa-me Fonte
Dizia a fonte, a chorar:
Eu fui nascida no monte,
Não me leves para o mar.
E a fonte, sonora e fria,
Num sorriso zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a Flor."
E o tempo, célere como um raio, passou sem que eu notasse para onde fugiu o calhambeque de Joãozinho levando nele a minha doce Lili.
Talvez tenha ela sumido daquela cena, ido com seu laçarote cor de rosa, como passageira única daquele automóvel amarelo, somente para ensinar-nos a saudade ou talvez, para suscitar-nos a inveja, com aquele fon-fon que não me sai do ouvido, indo veloz por aquela bucólica estrada, toda florida, que ia serpenteando nos lindos desenhos que ainda vejo, como num filme, correndo pelas paredes caiadas da minha recordação.
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