O OURO DOS CRISTIANISMOS
No início do século 20 a decadência da antiga e próspera Vila do Fanado, assim como suas adjacências, já estava completa com o esvaziamento da região, o que foi agravado, ainda mais, com os períodos seguidos de seca que se arrastaram, em ciclos, até 1929 e devastou o norte-nordeste de Minas e quase toda a Bahia.
Aquela violenta e histórica crise afetou em grandes proporções toda a economia regional mas os seus efeitos foram mais dolorosos no sofrido Vale do Jequitinhonha que já se ressentia do tradicional abandono, carente que sempre foi de atenção por parte das autoridades governamentais, onde nunca havia qualquer investimento público ou benefícios de incentivos para a fixação de capitais particulares, o que obrigou a população de lavradores, ruralistas, fazendeiros e comerciantes a voltarem aos antigos garimpos, revirando novamente os leitos já exauridos dos rios e córregos secos e os desmontes das antigas minas e lavras em busca dos últimos recursos e de algum meio para a sobrevivência.
Em toda a região era visível o estado calamitoso das multidões de famintos e de pedintes que chegavam em grandes grupos de retirantes.
As cidades se esvaziaram por completo e a população procurava a sobrevivência nas margens do Jequitinhonha, do Araçuai e alguns dos afluentes destes rios, onde, além de ficarem próximos da água, podiam eventualmente conseguir um pouco de ouro, através do processo de lavagem em bateias e catação pelas grupiaras.
Em Minas Novas os garimpos foram reabertos e tanto o Fanado como o Bonsucesso tiveram suas margens ocupadas por aventureiros vindos de toda parte, invadindo terrenos particulares e abrindo crateras por toda a parte, o mesmo acontecendo no Capivari, Setúbal, Gravatá, Gangorras, Água Limpa, Sucuriu, Buritis, Indaiá e Córrego do Ouro.
Houve intervenção das autoridades visando conter as iminentes desavenças e também para evitar os riscos de perigo a que se submetiam os trabalhadores, tanto pela precariedade dos meios utilizados, como pela falta de experiência daqueles que não conheciam do ofício, numa atividade que estava quase em desuso por parte da maior parte dos aventureiros.
O certo, porém, é que o último recurso era o garimpo do ouro. e nos meados de 1930, finalmente, verificou-se um temporal com grandes enchentes e desmoronamentos de morros e barrancos, possibilitando a descoberta de várias lavras de cristal e outras jazidas, mas essas pedras só começaram a ter algum valor econômico depois de deflagrada a Segunda Guerra Mundial, quando se intensificou sua utilização na indústria bélica, a exemplo da granada, do quartzo, do caulim e da mica (malacacheta),
Esse mesmo "inverno" possibilitou também o "milagre" de intensa florada das espécies vegetais que permaneceram em hibernação durante toda a estiagem, concorrendo positivamente para a boa produção e aproveitamento da borracha que, nesta região, também passou a ser comercializada com a extração precária do látex das mangabeiras.
Mesmo assim o garimpo do ouro continuou sendo a maior ocupação, principalmente no sítio do Bau e no Córrego do Indaiá (Baixa Quente), onde os proprietários dessas terras liberaram a exploração, não se importando muito com os danos ambientais dela decorrentes, compadecidos pelo estado de necessidade dos que ali iam buscar o sustento de suas famílias. Nos demais locais, em qualquer outra parte do Fanado e do Bonsucesso, o garimpo estava sob o rigoroso controle do chefe político local, só podendo neles garimpar quem tivesse autorização expressa do Dr. Chico Badaró.
Os tempos eram de ditadura e tudo servia de pretexto para enquadrar a população aos interesses dominantes, obtendo-se, naquela situação extrema, os dividendos dos quais não abrem mãos os opressores e os aproveitadores das mazelas humanas, muitas das vezes chegando esses tiranos ao ponto de tripudiarem sobre os infelizes, principalmente aqueles que eram seus desafetos por questões de antigas disputas eleitorais, por simples picuinhas, birras e vaidades politiqueiras, pois não se enquadra aqui o termo "política" em sua verdadeira expressão etimológica.
O efeito calamitodos dos duros tempos da seca ainda eram refletidos na economia debilidada da população e das comunidades, e o sofrimento do povo pobre se agravava mais e mais.
Nessa época havia na cidade um homem que, em tempo algum, em razão de suas convicções pessoais, pelo seu temperamento respeitoso e pacato, jamais havia manifestado suas preferências políticas, tendo procurando, sempre firme e alerta, manter-se longe das disputas eleitorais, conservando a sua neutralidade e preservando um cordial convívio com todos os habitantes do lugar, até porque, sendo numerosos os seus filhos, acreditava que o melhor para si e para eles era não tomarem partido a favor ou contra de quem quer que fosse.
Tinham, ele e os filhos, por profissão o ofício de ferreiros, como era da tradição que já vinha desde seus distantes antepassados, por diversas gerações, só que nesse ramo de trabalho, como de resto a todos os outros exercidos honestamente por outros oficiais e artesãos do lugar, não estava proporcionando-lhe rendimentos nem mesmo os suficientes para a aquisição dos gêneros de primeiríssima necessidade, como os alimentos para a enorme prole.
Premido pela situação e não encontrando outro caminho, resolveu procurar o chefe político para conseguir-lhe um alvará de autorização para que pudesse garimpar, junto dos seus familiares, em alguma faixa do rio destinada a esse tipo de serviço. Mesmo diante dos sérios argumentos usados, esse pleito lhe fora indeferido, negando-se a concessão do direito de lavra, pois a neutralidade de um eleitor era entendida pelo Dr. Chico como uma postura de desobediência, dentro do velho esquema autoritário de que, quem não é a favor, automaticamente estaria contra, e nessa condição de “adversário”, não poderia o postulante ser atendido com os favores dos benefícios requeridos.
Contudo, sob a ótica caudilhesca, estava ali a oportunidade do rancoroso mandatário de humilhar aquele pobre pai de família, honesto e trabalhador, que muito embora fosse um eleitor “neutro”, era visto como “um atrevido”, somente por ser uma pessoa indiferente ao partido do coronel, mesmo sem nunca ter manifestado suas preferências ou ideologias.
E o burgomestre, para não deixar passar em branco aquela oportunidade de “enquadrar” o candidato a garimpeiro, encaminhou-o, junto dos filhos, não ao serviço que pleiteavam, mas ao serviço de limpeza pública, deixando clara a intenção de espezinhá-los, e humilhá-los, designando-os para aquele trabalho árduo de capinar as pedregosas ruas, becos e morros da cidade, para expô-los à comiseração popular.
E era comovente de se ver aquele homem,simples mas de caráter ilibado e de boa índole, ali debaixo de sol e do rigor do tempo inclemente, junto de seus inúmeros filhos, naquele penoso trabalho tão primário para quem estava afeito a ofícios mais primorosos de fundição, de torneamento, de artífice e de armeiro, tolhido ali pela falta de opções de trabalho, arrancando com as mãos, sem o emprego de ferramentas, os carrapichos, os nardos, os marotos, as malvas e as gramas que brotavam entre as pedras do calçamento e dos barrancos pedregosos das vias públicas, como forma de conseguir algum recurso honesto para a sobrevivência do seu inocente grupo familiar.
Contudo, resignados que estavam com aquele trabalho humilde, para o qual foram encaminhados com a finalidade de servir-lhes como punição, procuravam eles executá-lo com a presteza e na forma correta, dentro do que seria a expectativa do empregador, evitando dar-lhe margem para qualquer oportunidade de reclamação.
No fiel desempenho dessa atividade, notou o diligente oficial, agora operário da limpeza urbana, observando acidentalmente as raízes das malvas e das gramínias que eram arrancadas em determinadas concavidades do terreno, que nelas ficavam retidas porções mínimas de ouro em pó (de aluvião) que a enxurrada para ali carreava dos morros e altiplanos.
E era trabalhando com toda a dedicação, durante o dia, que toda aquela equipe familiar executava a limpeza pública, catando o lixo e o encaminhando aos "monturos" , como era de praxe, capinando todos os logradouros mas reservando em surrados sacos de linhagem o que resultava da capina, como o mato, o capim e a malva arrancados com as próprias mãos, para que o barro residual das suas raízes fossem lavadas no rio, na esperança de assim apurarem alguns grânulos e pequenas pepitas de ouro que eventualmente pudessem ficar nelas retidas.
Esse trabalho era feito fora do horário do expediente nornal do grupo, o qual se sacrificava na prática desse peculiar garimpo somente à noite ou pela madrugada, de forma a não prejudicar o contrato com a prefeitura, podendo - desta forma - ter um pequeno ganho adicional para suprir suas necessidades, de vez que o pagamento de seus salários se acumulavam, sempre com a alegação do prefeito de que o erário do município estava sem verbas para aquele empenho.
E, como se não bastasse tanta injustiça, aquela eventual e rudimentar prática de garimpo foi denunciada ao chefe político, pelo próprio comerciante, um lacaio do prefeito, que trocava sua mercadoria pelo valor - por ele mesmo estipulado - daquelas pequenas oitavas de ouro que os membros daquela indigitada família conseguiam bateiar com todo sacrifício para não morrerem de fome, como se fosse aquela uma atividade secreta e lucratriva.
O velho Aristides Cristianismo foi imediatamente preso sob a acusação de apropriação indébita daquele ouro, pois o mesmo deveria, como propriedade da prefeitura, ser recolhido aos cofres do erário municipal e não servir de moeda para atender suas compras no comércio local.
Os filhos dele, que também estavam denunciados, para se livrarem daquele mesmo castigo se embrenharam na mata e foram-se refugiar na localidade de Sete Posses (no município de Malacacheta), para onde o restante da família depois se mudou, quando o caso foi julgado e o principal envolvido ter sido absolvido pelo um juiz substituto, vindo de uma das comarcas vizinhas, cuja autoridade não encontrou qualquer artigo de lei que pudesse enquadrá-los criminalmente por aquele suposto delito, mandando-o colocar em liberdade, mas depois de haver decorrido vários meses e de ter passado pelas maiores privações e castigos.
Essa é a razão, pois, de muitas outras famílias terem mudado para outras localidades, assim como a família dos Cristianismo que se viu obrigada fugir de sua terra natal e foi espalhada pela região de Teófilo Otoni, onde existem descendentes que guardam a mais justa mágoa e revolta - diante dessas lembranças - pois se sentem vítimas das injustiças praticadas por um regime de opressão que em toda região é tristemente lembrada como o "tempo do carrancismo".
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