ZÉ MOTINHA E SUA VACA MALHADA
Todo santo dia era sempre a mesma coisa: Zeca ia dormir no mesmo horário e, antes de se deitar, porém, comia seu mingau de araruta ou de fubá, bem quente, misturado ali no seu velho coité bem pretinho que foi feito e lhe ofertado pela velha escrava Bastiana da Chácara, o qual, depois de lambido, é deixado de qualquer jeito debaixo do catre.
Às vezes, além do mingáu, o recurso era comer algumas talhadas de abóbora madura ou então toletes de taioba cosidas e lambuzadas ao melado de garapa, o que – para o menino – também era uma delícia de sustança para de tudo não ir para a cama com a barriga vazia.
Lá em riba, pelas falhas do telha, deitado no seu catre vislumbrava o brilhar das estrelas, únicas companheiras no silêncio da tapera em que descansava, após mais um dia de labuta.
Pela fresta do telhado, lá no infinito do azul escuro e distante, correndo atrás das nuvens que vislumbra, procura a maior delas - a Estrela Dalva - e fitando nela os olhos quase já se entregando ao sono, reza pela sua mãe que desde a hora do almoço foi pra cidade e de lá só voltará amanhã quando ele já tiver ido pro curral e, depois de terminado esse serviço, ir descendo o caminho margeando o Bom Sucesso, quando já terá seguido pra cidade levando o leite tirado das poucas vaquinhas da raça “pé-duro”.
Pelas falhas na janela, por onde entra um ventinho fraco, olha para a lua e pede à Nossa Senhora que lhes dê a divina proteção, a todos, pois ainda será na hora que nascer o sol que haverá de rezar, novamente com fervor, para a alma de seu pai, pedindo a ele – que está lá perto de Deus – não deixar nunca de olhar pela família, pelas águas do córrego, pelas plantas, pelos bichos do mato e pelo gado, pelo povo da roça e pela gente lá da cidade, todos sofrendo tanto com aquela seca ingrata que já assusta os viventes.
Mas, mesmo se o céu estiver escuro, aí é que ele reza, com mais devoção ainda, pedindo proteção e coragem, quando o seu sono, que a essa altura já é tanto, que nem mesmo dá tempo de lavar a boca e dorme assim mesmo como uma pedra, ao embalo soturno dos grilos, dos curiangos e dos sapos, em seus cantos lamentosos pelo tempo ingrato e sofrido.
Na roça, os meninos não têm o luxo do sabonete, da escova de dentes e nem mesmo banheiro. De manhã, antes do primeiro cantar de alguma maria-preta madrugadeira, têm-se de pular logo do catre, fazer o sinal-da-cruz e correr para a bica d’água.E isto Zeca tem de fazer todo dia, pois vai à varanda e dali mesmo, dependurado-se na soleira da janela, já vai gritando com a vaquinha Malhada, que o espera lá no terreiro, para a ordenha, cheirando o seu bezerro que dormiu preso no curral de varas.
Continuando com seu aboio monótono vai, ao mesmo tempo, esfregando os dentes com folhas de goiaba, que ainda de dentro da casa arranca da goibeira nascida ao pé do oitão.
Bem depressa e de qualquer jeito, faz o gargarejo com água morna, tirada do boião com aquele mesmo coité que ficou dormindo lá debaixo da cama, torna a enfiá-lo no pote fervente, borbulhando na fornalha, onde o fogo permanece aceso dia e noite, ao tempo em que mistura alguns pedaços de rapadura com bastante farinha de milho, remexendo-a ao capilé de jacuba que aprecia com gosto, sendo esta sua primeira merenda do dia que, junto de mais alguns golos do repuxo que vai fazer com o leite quente tirado da Malhada, pois depois de entregar o leite nas casas do fregueses, de assistir as aulas da Mestra Flora, deve voltar ao Baú e somente na hora do almoço é que haverá de comer alguma coisa de sal, e voltar à lida da roça para completar sua jornada que termina na hora de se deitar novamente.
É com esta rotina que o menino roceiro vai garantir seu sustento, o seu dicumê já reservado no caldeirãozinho de ferro, ali encostado na chaminé, pois, neste horário a mãe dele, que ele não viu chegar ao sítio e nem a viu ir embora, já lhe preparou o almoço, no caldeirão deixado sobre a fornalha, enquanto ele estava ausente cuidando de suas obrigações, tempo em que ela já varreu a casa, arrumou as cobertas em riba do catre e deixou na sala sua tarefa para completar o resto do dia: debulhar um jacá cheio de espigas de milho para tratar dos porcos, das galinhas e dos animais de carga. Os sabugos e as palhas terão de ser trituradas no pilão, junto com bastante sal grosso, para servir de ração a ser colocada no cocho e alimentar as poucas vacas leiteiras. O gado solteiro, já estando minguada a palhada, deve continuar solto na larga dos campos e das chapadas, procurando alguma leguminosa e raízes para o seu sustento.
No aparador, ao lado do bornal com os cadernos e as cartilhas escolares, um bilhete: - “Meu filho, não esqueça de decorar a tabuada, conjugar os verbos e de decorar o ponto, pois mestra Flora falou-me que você está muito vadio, chegando depois de começadas as aulas e que tem dia que você está é gazeteando a escola pra ir lá pra Santa Casa. Olhe que tem exame no fim do ano....”. ou então, “Deixa de ser preguiçoso, menino, pois você agora é o chefe da família e já está quase um homem.” ... Estou indo embora mais cedo, pois tenho que ficar lá na casa da rua do Pequi, para sua irmã Lenda ir cuidar de seu avô Domingos, seu tio Elias e os meninos de sua tia Mota. Vou aproveitar e passar pela Chácara, para ver como estão as coisas por lá,” ou, em outro dia: “Amanhã vê se aumenta o leite, pois a freguesia também aumentou e ainda temos de mandar queijo e doce mole pra casa do Dr. Chico, que chegará amanhã. Na vinda, traga-me mandioca-mansa e coloque no jacá os pequis, que você for catando, pelo caminho, pois muitos já estão caindo” .. e ainda: “Cuidado com as cobras, pois hoje mesmo vi uma cascavel, das mais brabas, lá na descida do córrego da Cecília” ... “ João de Candinho vem, neste fim de semana, pra cuidar da caieira; com ele vêm os camaradas Didó Baiano e Zé Félix pra juntarem aos outros, lá na caieira e na mina.”
E, assim por diante, cada dia ia deixando, naquele mesmo lugar um novo bilhete com um novo assunto e uma ordem diferente, que – Deus o acuda! - não fosse logo cumprida à risca. Em todos os recados, porém, ficava patente o carinho maternal que lhe confortava: “Meu filho, tome juízo e desde já lhe dou a minha bênção. Domingo não vá faltar à missa ..... Boa tarde e boa noite!. Sua mãe, Maria Loura..”
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ZECA, SIDÔNIO E MARECHAL –
Certa vez o vovô Domingos, muito preocupado com o fato de Zé Motinha, ainda criança, ficar sozinho lá no Baú, foi informado pelo tio Dominguinhos – um eterno bonachão que não procurava o que fazer e vivia na boa vida - de que não precisava dele ter muito cuidado com o neto, pois o mesmo – lá na roça – sempre estava muito bem amparado e acompanhado, sendo que todas as noites lá dormiam, junto do menino, o Sidônio e o Marechal.
E o bom velhinho, mesmo se tranqüilizando, ficava sem entender muito qual a razão de duas figuras tão importantes estarem dormindo lá naquele desconfortável sítio.
Não estava ele informado, neste caso, de que Sidônio era o nome de um cachorro policial, trazido pelo tio Zeferino, lá de Montes Claros, aonde o antigo dono era delegado de polícia. Era este um cachorro valente e muito prestativo como vigilante do terreiro, chegando até ser perigoso. O nome porém, era o mesmo do juiz de direito que havia chegado à cidade e que fora apresentado, no dia anterior, ao vovô Domingos.
Já, o Marechal, que naturalmente não se tratava do Marechal Rondon, de quem tanto se falava na “Voz do Brasil!”, programa noticioso ao qual toda noite sintoniza-se o atento ancião, na verdade era um cachorro lá da roca, cor de vinagre, velho e lerdo, mas que nos seus bons tempos de sabujo derrubava qualquer marrueiro, mas naquela idade já estava caducando e não servia para mais nada além no trabalho de acompanhar seu dono por todos os lados, até à escola ou à missa.
ZECA E A LUZ – A casa do Baú fica no pé de um morro, quase à beira do Boncesso, na margem esquerda, aonde chegam os raios do sol com mais intensidade somente até ao meio-dia. A partir daquele horário a sombra do morro vai tomando conta da grota e, pouco a pouco, a tarde vai escurecendo até se fazer um breu assustador, principalmente durante o inverso quando as noites são cada vez mais longas e frias. Nesses dias, um dos recursos é deixar um tacho de cobre bem cheio de brasas no meio da casa, no qual se vão jogando, de vez em quando, alguns sabugos de milho e algumas pedras de cal virgem. Enquanto se espera pelo sono, é preciso colocar em dia as lições do para-casa, quando a solução encontrada é o lume do velho candeeiro, feito com a metade de uma garrafa devidamente cortada, sobre a caloria do borralho da cal queimada no referido tacho.
O combustível usado nesses candeeiros é o azeite de mamona que, para servir no lugar do petróleo, tem de estar os rícinos bem escolhidos, as amêndoas secas moída ao pilão, tudo adicionado ao tacho para cozinhar, durante vários dias e depois de depurada a massa, ser aquela calda bem fervida por várias vezes para refinar, dar o ponto e dela se apurar o óleo. Essa luz, que não fica piscando, bruxuleando como a chama feita a partir do querosene, tem a vantagem de, além de se evitar a despesa , não exalar fumaça e nem cheiro forte e tóxico.
O ribeirão do Boncesso (é assim mesmo que os moradores do lugar conhecem o Bom Sucesso), ali perto, na barra do Papagaio, tem o Poção Escuro como aguada e bem junto dali, em ambas as margens, os mangueiros dos animais de carga e vacas solteiras. Mais acima, no espigão, ficam a caieira e a mina. Lá do alto da grota desce o leito do Ovaiade, quase sempre seco, de onde se retira, nos poços pedregosos, o barro branco e leitoso, do qual se separam as pedras calcárias. O cascalho fino, que vem junto, é colocado nas peneiras e bateias com o objetivo de se apurarem os grânulos, as pepitas e o pó de ouro.
O garimpo, assim, é a atividade possível, no meio daquele tempo seco, que muitas das vezes vai possibilitar o achado de qualquer quantidade de ouro para garantir o sustento da turma, sendo esta uma das fontes de recursos para a continuidade de seus trabalhos naquela propriedade, onde as roças e a criação de animais já é algo quase impossível de se desenvolver em razão da seca prolongada.
Apesar da seca, de toda dificuldade e muito trabalho, aquele é um sítio abençoado.
Ali a orientação geral que se tem, a qual deve acatada e rigorosamente cumprida à risca, é a de se respeitar a natureza, de não se perfurarem mais catas, túneis ou derrubar as barrancas para assim, com estes cuidados, evitar-se o assoreamento do leito do rio e as tristes conseqüências que, via de regra, afligem os moradores, à jusante de suas águas, que no tempo das chuvas se avolumam de uma hora para a outra.
Ademais, a atividade do garimpo, através da abertura de catas e túneis, exigiria recursos para o escoramento para garantir a segurança dos trabalhadores, assim como a produção de cal, cujos fornos consomem muita lenha e exige o consumo de madeira, estando tanto tempo sem chover naquela região, seria uma grande violência a derribada das poucas árvores que ainda existiam pela redondeza.
Assim sendo, todas as atividades deveriam ser mantidas no mais rigoroso controle, limitando-as à capacidade produtiva do grupo e às necessidades da fazenda, para garantir a preservação das matas já tão raras naqueles cerrados e chapadas.
Entretanto a lida continuava, e para conciliar este impasse, não podendo serem interrompidas aquelas atividades, o controle teria que ser maior ainda, pois do contrário muitos dos antigos camaradas não teriam para onde ir e nem contariam com outros meios de garantirem a sobrevivência de suas famílias. Desta forma, eram os fornos rústicos, das caieiras e olarias, feitos de adobe e tabatinga, alimentados com tocos antigos, gravetos e garranchos secos para não se interromper a queima das pedras calcárias e mantidos acesos os braseiros, mantendo-os em boa temperatura, pois se esfriassem todo o serviço ficaria comprometido ou perdido. E este trabalho rude e perigoso era sustentado no decorrer do tempo da seca, juntamente com o corte de lenha catada pelas encostas e grotas, da queima, acondicionamento e transporte da cal apurada, além do garimpo, nas horas vagas, usando-se frincheiros, peneiras e bateias, sacudindo o cascalho no leito já interrompido do córrego, à procura de algum filete de ouro ralo, alguma pepita rara ou das migalhas de ouro em pó que cada um ia juntando nos vidrinhos de penicilina e nos tubinhos transparentes feitos com o caniço de pena de urubu..
Era essa a missão trabalhosa a cargo de um menino que haveria de se movimentar, durante o decorrer do ano, para sustentar a vida dura e a rotina do Sítio do Baú e daqueles que ali iam buscar diariamente a única oportunidade de serviço existente na região, enquanto esperavam pelas chuvas irregulares que não vinham a mais de ano.
Mesmo assim todos se sentiam gratificados com o pouco e ainda tinham que acolher, a cada dia, mais pessoas que vinham dos mais distantes lugares, à procura de algum serviço.
Contudo, aproveitando-se todo o tempo e a pouca disponibilidade de água existente em algumas grotas, nas vazantes iam-se cultivando, precariamente, algumas touceiras de banana, moitas de andu e de feijão-de-corda, ramas de batatas, mandioca-mansa e varas de cana para o descaroçador.
Nas beiradas dos morros havia ainda alguns pés de mamona, de algodão, de urucum, de pimenta e o roçado de milho, já nos restolhos. No fundo do quintal, o cercado das galinhas, o estacado de varas com a horta e algumas parreiras que eram irrigadas manualmente, havendo no córrego a disponibilidade d’água sem o comprometimento do seu uso para o consumo humano.
A bica, feita de bambus, que vinha lá da nascente do Ovaiade, trazia um fiozinho d’água que mal dava para beber. Em volta dela, os canteiros da horta e os caqueiros de flores e mesinhas plantados por Lenda, com suas verduras protegidas pelos mamoeiros e figos, além das moitas de funcho, capim cidreira, sabugueiro, alfavaca, roseiras, cravinas, sempre-viva, anágua de noiva, a cheirosa campanhinha-da-glória. Podia faltar água até para lavar o rosto, mas esses canteiros, da Lendinha, haveriam de ser religiosamente molhados sempre, pelo menos uma vez, mesmo que fosse à noite para conservarem frescos e viçosos.
E era desse oásis milagroso que Dona Loura, todos os dias, levava pra casa as verduras e temperos e que, nos dias de sexta-feira, preparava com todo cuidado um ramalhete de alecrim e flores escolhidas para enfeitar a pequena Cruz fincada na virada do Achará.
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