GERALD'ARTUR - "Velha Árvore"
Geraldo Bento da Assunção era filho de Artur, este que, por sua vez, teria sido sacristão do velho Cônego Barreiros. Além de ser conhecido como Gerald'artur (Geraldo de Artur), à sua pessoa se referiam, naquela Vila do Fanado, como Geraldo do Padre, Geraldo Sacristão, Geraldo Alfaiate, Geraldo Ourives, Geraldo Pichileiro, Geraldo Músico, Geraldo Sapateiro, Geraldo Ferreiro, Geraldo Parteiro, Geraldo Santeiro, Geraldo Benzedor e uma infinidade de epítetos relacionados a atributos outros, tantos eram os talentos agraciados por Deus ao Gerardinho de Sinhá Lina (esta a forma familiar com a qual era tratado pelos mais chegados) sendo aquelas as que recorriam, com justiça, os fanadeiros, ao lhe associarem os títulos a seu nome de batismo.
Nas horas vagas ele era, também, exímio jogador de cartas, animado sanfoneiro, pescador de muita sorte, caçador de boa pontaria, garimpeiro de fartas bateadas e disputado dançarino nos saraus que ele próprio promovia em seu sobrado, em datas especiais.
A sua principal profissão, porém, era aquela de que mais se gabava e com a qual se apresentava nas rodas mais importantes, na condição de boticário ou negociante. Para assim se manter, como exigia o fisco, era regularmente estabelecido no comércio e junto ao erário, vendola com uma única porta comercial aberta para o Largo da Botica, no porão do sobradinho que herdara do pai, de quem era único filho homem, junto das prendas e referidos dotes mantenedores de suas necessidades, serviços e postos para os quais ocupava o comando das diversas bancadas existentes nas tendas destinadas a cada um dos demais ofícios, acolhendo nelas, ao pé de si, um razoável grupo de aprendizes e a estes lhes transmitindo com sabedoria, denodo e paciência os segredos de que detinha como mestre, disciplinário, quarteirão e respeitado paladino em toda região.
Era cidadão probo e honrado, muito trabalhador, mas, nada obstante as sete artes era homem de poucas posses materiais, morador de casa simples e abarrotada de filhos, parentes e aderentes, todos, porém, obedientes e muito bem considerados em suas atitudes domésticas e afazeres sociais.
Além da mãe, Dona Rosalina (Sinhá Lina) - já bastante idosa, de quem cuidava com muito zelo e carinho - moravam todos sob o mesmo teto, junto da esposa Cândida (Candixa), dos sete filhos, cinco filhas, um neto, uma nora (que era viúva do filho mais velho), três sobrinhas e mais um número flutuante de afilhados e criados que iam se sucedendo naquela casa, conforme o tempo que fosse necessário para aprenderem algum serviço a eles destinado, por vocação ou necessidade, ou que fosse preciso para a duração do período de aprendizagem e alfabetização das cartilhas ensinadas nas Escolas Reunidas, único estabelecimento de ensino público existente naquele imenso termo.
Na contabilidade de seu prestígio particular se orgulhava Geraldartur de ser padrinho de mais de mil afilhados, muitos deles bem encaminhados na vida como abastados comerciantes, ricos fazendeiros, alguns políticos e muitos dos doutores, médicos, advogados, engenheiros, professores da região que lhe deviam as luzes das primeiras letras e o incentivo que receberam para a escolha de suas rentáveis profissões, sem se falar da legião de senhoras bem casadas e mães de imensas proles que nele reconheciam a figura patriarcal e benevolente de educador e conselheiro.
O tempo tomava seu curso na direção de novos rumos e modernidades e o velho e alquebrado mestre de ofícios, sem os recursos da poupança ou da previdência, viu-se abandonado à mercê de sua sorte, à falência de seu negócio, ao ostracismo social e ao esvaziamento repentino de seu lar, de onde partiram – um a um – todos os filhos, filhas e demais parentes em busca de seus destinos, à procura de algum serviço que lhes assegurasse o próprio sustento, como trabalhadores desqualificados no corte de cana e como domésticos em casas e propriedades localizadas em regiões distantes do Estado e até mesmo no sul do país, na condição de migrantes e bóias-frias.
Geraldartur é a sombra de um passado, a imagem da imprevidência e a prova viva do desprezo que a sociedade demonstra em relação aos idosos e aos aposentados. É o retrato na parede, embolorado pelo abandono, desfigurado pela poeira deixada pela história da Vila do Fanado.
Muitos cidadãos, da têmpera e do quilate de Gerald'artur, que durante a etapa produtiva de suas vidas tudo fizeram em benefício da comunidade, procedem como as árvores frondosas que crescem à procura da luz do sol e que, depois de atingiram a máxima estatura, exauridos pelo esforço e pela longa dedicação, surpreendem-se no ciclo da senilidade, período em que deixam de produzir os abundantes frutos de outrora, não por incompetência ou desprezo, mas para cumprirem o desiderato de se transformarem em sombra para os caminhantes, em madeira para os móveis, em lenha para os dias de inverno, em celulose para os livros, em esteios para as moradias, em mastros e cascos para os navios, em carrocerias de caminhões para a condução das riquezas, em pontes e em dormentes para as estradas de ferro e para o progresso do país.
É necessário lembrar-se, porém, que as antigas e frondosas árvores se não forem cercadas de cuidados, recebendo água e adubo, podem ter enfraquecidas as suas raízes e virem, assim desequilibradas, caírem sobre os projetos a seu redor e depois de abatidas, sendo dissecados seus troncos e galhos, pelos machados afiados de seus detratores, ainda assim servirão seus despojos para atender à arte da luteria e para a edificação de tribunas, de altares, de cadafalso, de cercas e também de ataúdes.
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