A MULA-SEM-CABEÇA
Afirmava Vicente Nicho, antigo acendedor dos lampiões da antiga iluminação pública, que certa vez ele próprio teria visto, bem de pertinho, a figura da terrível Mula, quando até sentio o bafo daquele monstro em sua cacunda.
Segundo sua narração, estava ele abastecendo de carbureto um dos lampiões que se localizavam próximos à Casa da Câmara, os únicos que tinham de permanecer acesos durante toda aquela noite.
Já eram "mortas as horas", e o restante da cidade já se encontrava totalmente às escuras e em absoluto silêncio.
Os outros lampiões, já apagados, eram abastecidos com querosene.
O carbureto, naquele horário, tinha como razão o fato de produzir uma claridade mais intensa - necessária à melhor proteção do local - com o inconveniente, porém, do cheiro forte e desagradável que só não perturbava a saúde dos moradores, porque as casas de residências ficavam mais afastadas daquele local.
De repente, notou o funcionário foguista que a chama das lâmpadas iam aumentando, num crescendo descomunal, em direção ao animal - ali surgido como por encanto - e que o monstro possuía, no lugar da cabeça, um grande cadinho, para o qual o enorme bicho sugava, para dentro de si, toda a luminosidade emanada do carbureto, como se este fosse o seu combustível que lhe proporcionava aquela descomunal força.
Depois de sorvida toda a luz que emanava dos lampiões a gás de carbureto, a mula sem cabeça, com sua imensa tocha flamejante, como se fosse um maçarico andante, saiu veloz e trotando pela Rua Direita, tirando fogo na calçada, quando ele pode ver o incrível monstro aplicar um violento coice na altura da última janela do Sobradão, derrubando-lhe um pedaço do beiral do telhado, seguindo, depois, em direção do largo das Cavalhadas e, no que ele pôde perceber, a fantasmagórica figura, como se conhecesse muito bem o caminho, buscou seu refúgio e alojamento na estrebaria da antiga Pousada daquela praça, cuja porteira já estava aberta como se a esperasse para acolhê-la.
Segundo o antigo funcionário municipal, naquela mesma data e no exato momento da estranha visita, acabava de falecer, na cidade, uma senhora "de boa família", que as más línguas diziam ter sido "mulher do padre", ou seja, camareira piedosa do antigo vigário.
Assim, ficou esclarecida a origem da aterrorizadora personagem que ainda hoje, nas sextas-feiras sem lua, apavora e amedronta a população de Minas Novas, que, sem o que fazer, tem o péssimo costume de ficar, até altas horas da noite, a bisbilhotarem a vida alheia.
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