Rodolfo Gomes de Souza era homem respeitável, culto, probo, diligente, honesto e trabalhador, razão pela qual, como antigo funcionário público, foi promovido ao importante cargo de Coletor Federal com atuação em Capelinha e Minas Novas e, tendo chegado o tempo de sua aposentadoria, fixou-se definitivamente nesta cidade, juntamente com sua família, onde era muito considerado e distinto no meio do povo.
Em primeiras núpcias foi casado com Augusta Coelho, filha de Juvenato Ferreira Coelho, de cujo casal nasceram Juvenato (casado com Tereza Neiva), Rodolfinho (casado com Alda Cesar), Clovis (casado e residente em Araçuaí, Augusta (casada com Hildebrando Salles), Lia (casada com Itamar Andrade) e José Gomes (falecido em estado de solteiro).
Tendo ficado viúvo, contraiu segundas núpcias com Rosa Ferreira, nascendo-lhes os filhos Heraldo (casado com Marluce Costa), Flor de Maio (casada com Dr. Nenem de Agenor), Gelcira (casada com José Soier, de Capelinha) e Rosita (viuva do policial civil Paulo Roberto Carneiro).
Sempre muito dedicado à família, que educou com zelo e bom encaminhamento, era o tio Rodolfo muito alegre, espirituoso e que compartilhava no seu lar do acolhimento de familiares e afilhados que dele dependiam. Nesse sentido, era sua confortável casa uma constante felicidade, pois ali, além do clima de camaradagem e da oportunidade cultural, todos se beneficiavam da arte musical que era incentivada com muito gosto pelo chefe da família, este um bom músico integrante do Grêmio Lítero Musical.
Integrando-se perfeitamente nos diversos segmentos sociais, com seu exemplo de probridade e respeito, Rodolfo Gomes se candidatou, e foi eleito, para o cargo de prefeito municipal, quando pretendeu exercer o seu mandato eletivo com justiça e autonomia, justamente numa época recém saída do período ditatorial do presidente Getúlio Vargas, quando esteve no poder municipal o interventor Dr. Francisco Badaró, que durante os 15 anos no comando da prefeitura, para a qual foi nomeado pelo governador biônico Benedito Valadares, muito pouco ou quase nada havia avançado em termos de progresso e desenvolvimento para o imenso município, quase do tamanho de um estado.
Apesar de ser homem simples, discreto e atencioso, sem fazer muito alarde e exigir sacrifícios do sofrido povo, depois de empossado no cargo de prefeito se propôs a exercer sua gestão, em sintonia de progresso com o novo governo estadual, então chefiado pelo diamantinense Juscelino Kubstcheck, para conseguir dele os recursos que sabia serem factíveis para o encaminhamento de obras necessárias em Minas Novas e, neste desiderato convocou o apoio das demais lideranças locais, no que foi - simplesmente - considerado um visionário e, diante de sua determinação em defender os legítimos interesses da comunidade, provocou a ira do velho e eterno chefe político do lugar, para o qual, obviamente segundo sua filosofia de coronel, não havia interesse no sucesso daquelas demandas que preferiu vê-las engavetadas.
Ao se lançar candidato, a princípio teve a oposição dos próprios filhos, os quais não desejavam ver seu envolvimento com a política tradicional do lugar. Contudo, vendo as boas intenções do pai, com ele se conformaram e passaram a comungar de seus projetos confiantes de que teriam boa acolhida daquelas metas que lhes foram apresentadas, mesmo que de forma bem reservada, pois as mesnas representavam antigas aspirações populares não resgatadas pelos prefeitos anteriores, a exemplo da reabertura da antiga Escola Normal, o anseio mais acalentado por todos os pais de família que vinham de muito se sacrificando para enviarem seus filhos aos colégios localizados em municípios distantes.
Além dessa proposta, que representava para ele próprio, como candidato e pai de família que sentia na pele os sacrifícios de ver seus filhos estudarem fora, outros melhoramentos estavam igualmente combinados como a abertura de uma estrada de rodagem que ligaria a cidade ao distrito de Leme do Prado, passando-se pelo povoado de Gouveia, e com acesso ao de Santa Rita, no que seria necessário a construção de uma ponte sobre o rio Araçuai, bem como constava o projeto da licitação de uma linha de ônibus para fazer a intermediação rodoviária entre Minas Novas, Turmalina, Capelinha, Itamarandiba e Diamantina, como era desejo dos pioneiros Germano, Vicente Faria e Raimundo Fiinho, pequenos empresários da região que sonhavam com esse mesmo objetivo.
Todos estes melhoramentos deveriam ser implementados durante o seu mandado. Entretanto, deparando-se com a crescente dificuldade que se opunha ao atendimento desses compromissos, os quais se fossem realizados bastariam eles para a justa consagração daquele governo municipal, o impasse político foi imediatamente instalado e naquela situação de contrariedade administrativa e de frustração dos ideais, para aquele homem pacato e bem intencionado, as pressões se acirraram, diante das quais se sentiu o prefeito acuado e quase em crise de estresse, quadro psicológico a que foi calculadamente induzido para culminar no seu afastamento do cargo, considerado inapto para o seu exercício conforme atestado pelo próprio Dr. Chico, na condição de único médico da cidade, mas que assim agia considerando apenas o seu particular interesse em afastá-lo, para assumir em seu lugar o vice-prefeito, um homem de pouco entendimento e fácil de ser manipulado, pois sabia apenas assinar o expediente, cumprindo fielmente as determinações de não mover sequer uma palha para o bem do povo.
Destarte, o velho cacique Chibano, mesmo residindo em Belo Horizonte, exercia seu poder de manipular os incautos, para impedir o progresso de Minas Novas.
Naturalmente que a família do prefeito, naquela situação, ressentiu-se diante daquela indigitada orquestração que o levou a se afastar do comando da Prefeitura..
Contudo, mesmo a contragosto, era aquela a oportunidade de se verem livres daquela camarilha que tanta indignação causava, principalmente aos filhos de Rodolfo Gomes, pois este se sentia amargurado e decepcionado por não ver viabilizados os bons projetos eleitorais, restando-lhes, aos filhos, a opção de convencê-lo do afastamento proposto e a se mudarem, mesmo que temporariamene, para um local mais adiantado, onde pudesse se recuperar daquele trauma e desilução.
Foi assim que o prefeito em questão permaneceu durante algum tempo na Capital de São Paulo, na companhia de alguns dos seus familiares, para onde se transferiram com o objetivo do necessário"tratamento", até que o prazo do mandado se completasse e ele pudesse, enfim, retornar à Minas Novas, de onde jamais queria se ausentar, quando já estivesse restabelecido e completamente "curado" e onde, para a felicidade dos seus entes queridos, familiares e amigos, viveu ainda por muitos anos de forma serena e alegre, longe dessas picuinhas que tantas amarguras o fizeram sofrer, com resignação e paciência.
Mesmo naquele período de ostracismo, em que aceitou o exílio voluntário, jamais Rodolfo Gomes se esqueceu de seus amigos e lá naquela distante capital recebia sempre seus conterrâneos em sua casa, sempre com o maior carinho e atenção, promovendo alegres e descontraídos encontros com aquela numerosa colônia de migrantes. E assim, nas horas vagas, dedicava-se ao aprimoramento de sua arte musical, com ênfase ao acordeão, instrumento para o qual imprimiu especial predileção, transmitindo este seu gosto artístico a filhos e netos. Nesse sentido, às suas próprias expensas, decidiu gravar em disco de 78 rotações, naquele tempo em que este recurso representava uma façanha possível apenas aos renomados artistas, quando nessa gravação incluiu a execução primorosa do Hino a Minas Novas, de cuja edição restam alguns exemplares em poder de familiares e de colecionadores.
* * * * * * * * * * *
Consta da crônica popular que, ainda no tempo de coletor federal, o tio Rodolfo gostava de participar, de forma lúdica e como um de seus passatempos preferidos, sempre entre parentes e amigos, de descontraídas e eventuais mesas de carteado, prática que não era proibida pelo governo da república, na forma do que ocorre nos dias atuais, posto que não havendo a devida fiscalização, como deveria haver, ainda continua amplamente existente em várias localidades.Embora a liberalidade da lei federal daquele tempo, no código de posturas municipais previam-se taxações e condições especiais para a concessão dos alvarás de permissão daquela atividade, segundo o critério de cada prefeito, sendo que aos portadores daqueles "salvos-condutos" era permitida a referida prática,.
Na cidade de Minas Novas sempre houve dessas casas de jogos e muitos jogadores não escondem, nem mesmo atualmente, suas condições de profissionais, inclusive sendo muitos deles os próprios agentes da lei que se envolvem nessa arte de ganhar facilmente a vida, estes usando, às vezes, de meios imorais para ludibriar e se aproveitar dos otários que se prestam a este tipo de atividade perdulária. E no meio dessa catrevagem havia, naquele tempo desses fatos, um trio de jogadores, conluiados entre si, que se tornaram praticamente invencíveis nas disputas em mesas de baralho e a sua "boa" fama corria longe, chegando aos ouvidos do Dr. Chico, o interventor municipal que comandava o município como se fosse o seu feudo particular. E, para maior desgosto desse alcaide, aquela ruidosa trinca de malandros era formada justamente por três jovens (Rubens, Israel e Tião Marques) que naqueles arroubos tão naturais, nessa fase de juventude, não aceitavam o mandonismo nem a opressão coronelística que vigorava, à qual faziam ostensiva oposição, pelo que passaram a ficar na mira perigosa e implacável da sanha arrecadadora do erário municipal.
E aquela era a ocasião ideal para dar um basta naqueles biltres: Foi providenciado um edital bem apropriado ao caso, no qual se previam as taxas, as multas e as penalidades para aqueles ditos infratores, tendo o interventor arguido sua autoridade no sentido de conter aquela farra, tendo para esta finalidade convocado as demais autoridades, às quais competiam a execução das ordens ali expressas. E passaram a se reunir com a finalidade de ajustarem a missão, de tal forma que o referido trio deveria ser colhido de surpresa e enquadrado ao rigor da lei. Sendo assim, ficou decidida a estratégia que consistia no seguinte plano: Como era costume daquele coletor frequentar aquele ambiente de jogatina, deveria ele agir no sentido de atrair para sua mesa, a participação daqueles ditos jogadores, como oportunidade de que o flagrante delito se realizasse.
Estando todos combinados, passaram à ação. Posicionaram em seus postos previamente marcados e já altas horas da noite os ditos jogadores foram surpreendidos em situação de débito com o fisco, pois ali estavam na mesa do carteado, desprovidos da licença e sem ter recolhido as taxas exigidas no edital - condição de que nem mesmo foram alertados e portanto dela não tinham conhecimento. Contudo, para caracterizar o ato infracionário, deveria haver provas de que os jogadores em questão eram de fato os ganhadores das apostas, cujos valores deveriam ser considerados para efeito de cálculo tributário. E para que assim testemunhasse, a principal testemunha seria aquele perdedor - previamente municiado de licença municipal para jogar - que nos autos de apreensão deveria confessar o valor perdido nas apostas.
E todos foram encaminhados à delegacia de polícia para serem ouvidos, com o intuito da instauração do desejado processo criminal. No meio daquele tumulto que se formou, o delegado José João relatou para o seu compadre Rodolfo, este na condição de suposta testemunha chave, ali na presença dos três "réus", tomou ciência de todo o termo da denúncia consubstanciada que o fiscal da prefeitura, Jovial Mendes, que o havia lavrado no ato de sua diligência naquela casa de jogos. E naquele "libelo acusatório", muito mais que um laudo fiscal, constava que os três jogadores haviam apoderado de uma grande soma em dinheiro que o coletor havia colocado na banca. Esse fato, se confirmado pela única testemunha e vítima, ao mesmo tempo, e que ali se fazia presente, caracterizava o ilícito e determinaria a imediata prisão daqueles desafetos do burgomestre interventor, completando-se tudo de acordo com o combinado.
Mas aquela "testemunha", em se admitindo no prejuízo alegado, estaria tacitamente concordando com sua condição de perdedor e esta situação de vítima, na ótica vaidosa do Tio Rodolfo, era para ele desinteressante sob o aspecto de seus brios que não haveriam de o permitir inferior naquele divertimento que tanto prezava. E sendo instado a depor contra os "ganhadores", inverteu de imediato a situação e, de forma incisiva e incontestável, deu um murro sobre a mesa do compadre delegado, ao qual, mostrando-se indignado, afirmou peremptoriamente: " - Isto nunca.... Ora bolas, como poderia três beócios vencerem minha catilogência, logo contra mim que sou profissional nessa arte de jogar, quando de fato fui eu que os limpei e deles ganhei até o último mirréis? Esses tabaréus para mim não passam de uns fregueses metidos a sebo e que não têm qualquer experiência, uns simples iniciantes...".
E, ato contínuo, foi-se afastando da delegacia, para surpresa e revolta do coronel, deixando frustradas aquelas autoridades que o queriam usar como instrumento para prejudicar três filhos de velhos amigos, compadres e vizinhos, os quais, safando-se daquele flagrante arranjado, continuavam livres para novas façanhas.
São muitos os compadres. Pois compadres são todos aqueles a quem nos unimos por grande afeição, respeito, admiração ou compromisso. E nunca serão eles demais, pois são essenciais e eternos. E estando sempre presentes, de perto ou de longe, são imensas e muitas as saudades que tenho de todos eles. E são eles todos, muito mais que compadres, bons companheiros e verdadeiros amigos, são estimados irmãos,os mais queridos valores que carrego no fundo do meu coração.
LIVRO DO LALAU FANADEIRO
Meu grande sonho sempre foi o de escrever um livro. Porém esta era uma missão para mim quase impossível, pois deparava-me sempre com o obstáculo do apedeutismo de que, confesso, infelizmente continuo vítima.
Além do mais, haveria ainda e de igual forma, uma outra dificuldade, a da carência de meios financeiros para custearem as despesas editoriais, em razão de que, depois de escritos, os meus causos jamais teriam como se verem publicados, entrave este que agora - para minha felicidade- vejo contornado graças ao advento desse grande recurso de mídia chamado "Web".
Contudo, confesso que continuo fraco nas letras mas espero que em nada possa afetar essa condição de minha particular carência gramatical, vernacular ou ortográfica, que já não me assusta tanto, agora que descobri a capacidade de digitar ( muito melhor que a de rabiscar), que me facilita tanto no ato de expor todo tipo de ideia que me vem aos borbotões, ao ritmo e ao compasso dos dedos que vou deslizando sobre as teclas do meu computador.
E Isto, para mim, vejo como se fosse música - uma outra terapia a que me recorro de forma lúdica, pois agora posso também "compor e executar" nesse instrumento que nunca antes nesse país (como assim diria um outro apedeuta, muito mais importante e mais famoso) pude eu adquirir para os meus enlevos.
Portanto será este BLOG o meu providencial recurso para dar forma a meu livro tão sonhado, o qual, mesmo se não for prestigiado por mais de um único leitor (além de mim mesmo), ainda que assim se apresente neste formato digital, para mim já será o bastante para apaziguar-me no enorme desejo de botar para fora tudo o que carrego dentro de mim, desde aqueles breves e distantes tempos em que, nas aulas da saudosa mestra Dona Maria Lopes, eu sonhava dar vida e voz a meus personagens, naqueles únicos bancos escolares que pude frequentar, dos quais guardo as mais ternas recordações e que me trazem tanta saudade, lá do meu querido Grupo Escolar Coronel José Bento.
Não tenho pretensões literárias, nem espero sucesso editoral, mas tenho agora os meios necessários para a vazão daqueles meus ímpetos de contador de "causos" os quais passo a apresentar sem qualquer planejamento ou ordem cronológica (ou em capítulos como seria normal ocorrer em um desses livros concebidos dentro dos tradicionais padrões editoriais).
Sendo assim, irei publicando páginas, diariamente, simplesmente registrando os fatos que forem surgindo na medida em que puder formatá-los de maneira a ser minimamente entendidos pelo leitor eventual, a partir de tudo aquilo já registrado em minha memória.
E será desta forma que espero, ao longo do tempo que me resta, ir deixando consignados, neste espaço, os contos que produzi na companhia alegre dos meus compadres e comadres, através dos intermináveis caminhos espinhosos, empoeirados, íngremes e tortuosos por onde andávamos em busca do nosso sustento, de nossas convivências, de nossas amizades, contando a doce alegria de nossa vida fanadeira, com a qual aprendemos a carregar as esperanças e ilusoes pelos destinos traçados neste chão da simplicidade, do companheirismo, da solidariedade, da amizade e de tudo que for em direção do nosso Bom Deus, justo e maravilhoso que permite a sobrevivência de todos que nele crêem e até mesmo daqueles que o rejeitam.
Agradeço-lhes, na humilde expectativa do acolhimento e também pelas críticas.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
domingo, 26 de dezembro de 2010
GERALDO MARTINS, EX-PREFEITO DE BERILO E GERALDO MARTINS, EX-PRESIDENTE DA CÂMARA DE MINAS NOVAS
GERALDO MARTINS, o minasnovense, era funcionário municipal e tinha como atividade principal a dura e implacável missão de dar combate às formigas e outras pragas de jardins e quintais, mas quando "ficava mais alegre", nas suas horas vagas que se prolongavam pelos dias afora, gostava mesmo era de uma sanfona e de subir pelos bancos da praça da prefeitura, após a sua degustação prediletta de várias cotréias, como fonte inspiradora de seus acalorados discursos, nos quais enaltecia a figura ilustre do burgomestre, dedicando-lhe chorosos elogios versados no mais castiço "Gongolês", um idioma complicado e que somente ele sabia falar e entender.
E no exercício dessas suas memoráveis carraspanas, para seu redor atraia uma grande claque de moças e rapazes que quanto mais o aplaudiam mais vibrante e eloquente ficava aquele orador de tão justas inspirações.
E no exercício dessas suas memoráveis carraspanas, para seu redor atraia uma grande claque de moças e rapazes que quanto mais o aplaudiam mais vibrante e eloquente ficava aquele orador de tão justas inspirações.
O hilariante Geraldo Martins era, de fato, muito dado às pandegas e às situações caricatas, pelo que conseguia ser estimado como uma das figuras populares da cidade, sendo que em sua casa, na rua do Pequi, freqüentemente acontecia os mais animados forrós, nos quais eu mesmo tive a feliz oportunidade de aprender a dar os meus primeiros rodopios naquele diminuto mais tão apropriado salão, ao embalo de sua sanfona e quando esta se calava, vencida pela virtuosidade etílica do sanfoneiro, a animação se redobrava ao som da "pé-de-bode" de João da Rocha, tendo ao lado os inentivos de sua esposa Luzia e o acompanhamento do pandeiro e dos pagodes bem ensaiados de Mozart, do cadenciamento de Zé de Chico Tropeiro e da cantoria das modinhas improvisadas do primo Zé Preto Paraná, em fonções memoráveis que varavam a noite, até amanhecer o dia, enquanto houvesse alguém a contribuir com o chapéu da coleta.
Uma vez, durante um carnaval, estando ausente o Dr. Agostinho que até ali era o eterno rei-momo da cidade, pois jamais este cederia seu trono para qualquer um, para que os bailes daquelae ano não perdessem a graça resolveram que o Geraldo Martins seria o rei-substituto e estando todos assim decididos e acordados, com muitas pompas e circunstâncias vestiram e ataviaram-no com aquela brilhante fantasia, com coroa, cetro, espada, capa dourada, bombacha de veludo vermelho e botas reluzentes.
E esse Momo “Ad-Hoc” fez o maior sucesso, pois sendo bastante gordo, pançudo e bonachão, bem caracterizava a figura tradicional a comandar os festejos dessa festa popular que sempre atraiu para Minas Novas a atenção dos foliões de todas as cidades vizinhas, fazendo do antigo teatro municipal o palco de eventos dessa natureza que ficaram na memória de todos que gostam do carnava
E o carnaval, mesmo com a ausência do Dr. Agostinho, transcorreu alegre sob o comando daquele rei substituto, o qual, porém, de tanto gostou que tomou pela função, não permitiu que lhe despojassem das coloridas vestes momescas e assim continuou fantasiado e vestido de rei-momo na quarta-feira de cinzas e nos demais dias que se sucederam através de toda a quaresma.
A cidade, passado o carnaval, voltou à rotina de sua tradicional madorna e religiosidade, respeitando rigorosamente toda a liturgia comum celebrada segundo o ritual barroco, com grande participação popular a todas celebrações sacras.
E assim sendo, certa manhã voltava da missa a “Sinhá” Fina, acompanhada pelas netas e amigas, que sempre andavam juntas, passando ali pelo Beco de Adelaide, uma viela estreita que liga o Largo das Nanás ao Largo de São Francisco, ao longo do caminho entre os muros do quintal de Naná Costa e os muros do casarão de Juca Lopes, quando ali se depararam com a figura do inolvidável “rei-momo”, em suas augustas vestimentas, ali estirado ao chão e entregue ao sono justo de quem teria passado a noite na esbórnea.
Ao ser reconhecido naquela desconfortável situação, a velha dama, que de todos se apiedava com aquele seu espírito solidário e bondoso, dirigindo-se às acompanhantes assim exclamou:
E o carnaval, mesmo com a ausência do Dr. Agostinho, transcorreu alegre sob o comando daquele rei substituto, o qual, porém, de tanto gostou que tomou pela função, não permitiu que lhe despojassem das coloridas vestes momescas e assim continuou fantasiado e vestido de rei-momo na quarta-feira de cinzas e nos demais dias que se sucederam através de toda a quaresma.
A cidade, passado o carnaval, voltou à rotina de sua tradicional madorna e religiosidade, respeitando rigorosamente toda a liturgia comum celebrada segundo o ritual barroco, com grande participação popular a todas celebrações sacras.
E assim sendo, certa manhã voltava da missa a “Sinhá” Fina, acompanhada pelas netas e amigas, que sempre andavam juntas, passando ali pelo Beco de Adelaide, uma viela estreita que liga o Largo das Nanás ao Largo de São Francisco, ao longo do caminho entre os muros do quintal de Naná Costa e os muros do casarão de Juca Lopes, quando ali se depararam com a figura do inolvidável “rei-momo”, em suas augustas vestimentas, ali estirado ao chão e entregue ao sono justo de quem teria passado a noite na esbórnea.
Ao ser reconhecido naquela desconfortável situação, a velha dama, que de todos se apiedava com aquele seu espírito solidário e bondoso, dirigindo-se às acompanhantes assim exclamou:
"-Meninas, vejam em que estado se encontra o nosso rei! E toda compadecida, determinou imediatamente a seu filho, o farmacêutico Agenor Santos que providenciasse a sua remoção daquele local, pois fazia pena de vê-lo ali jogado sob aquele sol escaldante sem ninguém para o socorrer, certamente depois de uma queda que lhe provocara ferimentos a impedir-lhe a locomoção.
E lá do referido beco saiu o grupo, sob o comando do próprio "seu" Agenor, com seus filhos Lourival, Du e Waldemar auxiliados por outros amigos, levando o pesado rei-momo, bêbado e dorminhoco. em direção de sua residência, localizada na distante rua do Pequi.
E lá do referido beco saiu o grupo, sob o comando do próprio "seu" Agenor, com seus filhos Lourival, Du e Waldemar auxiliados por outros amigos, levando o pesado rei-momo, bêbado e dorminhoco. em direção de sua residência, localizada na distante rua do Pequi.
O sol já ia alto e vendo-os chegar com aquela padiola, na qual pode conferir a presença de seu marido ali escornado e roncando, a esposa dele que era uma mulher muito trabalhadora, mas por não sair muito à rua era poupada de qualquer informação sobre as andanças do marido, pelo qual dedicava invejável carinho e respeito, nada gostando de vê-lo naquele quadro e mostrando-se indignada, se dirigiu a todos que ali estavam, repreendendo ao marido que nada podia ouvir, mas jogando a indireta - intencionalmente - aos carregadores que os já despachava sem mesmo agradecer-lhes o ato de caridade, dando-lhes a "merecida" descompostura:
" - Eu bem que sempre aconselho ao Geraldo para ele não andar com essas más companhias, mas ele nunca me ouve..."
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De outra feita o próprio Geraldo Martins, andando por aquele mesmo beco em que fora encontrado pela boa “Sinhá Fina”, a referida via em que à noite não tinha iluminação, tropeçou em algo gordo e quente que lhe pareceu ser uma pessoa que lhe era conhecida e com a qual, naquele trecho, costumava com ela se encontrar, e assim julgando ser quem imaginava ser, com ela foi logo se abraçando. Contudo, para seu desencanto, aquela não era a Burrucha, moradora da casa vizinha, e sim uma vaca sonolenta que, ao ser acochada, assustou-se e levantou-se bruscamente, quando saiu em disparada, levando o tal rei-momo em seus chifres, sacudindo-o pelos ares e o arremeçando longe como se fosse um toureiro inexperiente, o qual daquela rebordosa saiu com várias costelas, clavícula e braços quebrados, quase morto naquela violenta queda.
A pobre da Burrucha, irmã do sapateiro Juca Lopes, era também uma outra dessas figuras folclóricas, a que fazia, porém, a alegria não só do Geraldo, mas dos bêbados e dos inúmeros desocupados que agitavam as ruelas da antiga e boêmia cidade, a eterna e festeira Vila do Fanado.
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O município de Minas Novas era imenso até aquele início da década de 1960m quando de seu território faziam parte ainda os distritos de Chapada, Berilo e Sucuriú, que pouco tempo depois, já no governo de Magalhães Pinto, tiveram a felicidade de, finalmente, verem-se emancipados para tomarem, cada um independente do antigo julgo, o rumo do progresso que antes lhes era negado.
Em cada um desses distritos havia um vereador que representava, não propriamente os legítimos interesses da comunidade local, mas nas reuniões da Câmara Municipal de Minas Novas, eram os "paus mandados" do chefe da política regional.
E sendo um único município, todos os vereadores recebiam votos mesmo em seções eleitorais localizadas em outros distritos, inclusive no distrito da cidade.
E sendo um único município, todos os vereadores recebiam votos mesmo em seções eleitorais localizadas em outros distritos, inclusive no distrito da cidade.
Era essa uma época de muita dificuldade, quando não havia estradas e nem meios de comunicação entre as diversas partes do município, quando não havia, também, o atrativo da remuneração para os cargos de vereador.
A todo esse conjunto de desestímulos, acresciam ainda os sacrifícios que eram os constantes e sofridos deslocamentos em lombos de animais, para que os edis comparecerem naquelas reuniões onde iam somente para "dizer amém" e escutarem as velhas promessas de que o prefeito ia fazer isto ou aquilo e entrava ano e saia ano e as coisas sempre ficavam da mesma maneira, somando tudo no que culminou no generalizado desinteresse pelas candidaturas, sendo que raramente conseguia-se encontrar alguém que quisesse ser vereador, surgindo daí um grande impasse a ser resolvido pelo chefe político local.
As eleições se aproximavam e nos referidos distritos era grande a dificuldade de se organizarem as chapas para concorrer naquele pleito. Nenhum daqueles antigos políticos queria se apresentar, quando então resolveram montar uma chapa à revelia das pessoas que nela seriam inscritas, para que o registro fosse realizado conforme determinava a lei eleitoral, junto do nome dos candidatos únicos, respectivamente, ao cargo de prefeito e vice-prefeito.
Feriram-se as eleições e na apuração das urnas, cujos resultados eram sempre os mesmos já esperados pelos "coronéis" que era a "vitória" do prefeito, do vice e do juiz de paz, sendo que, entre os nomes dos vereadores eleitos, apareceu o nome do candidato Geraldo Martins como o mais votado e, como era de praxe, seria ele o presidente da Câmara, o terceiro cargo, portanto, na linha sucessória do município.
E desta forma foi convocado para tomar posse na Câmara Municipal de Minas Novas o cidadão minasnovense Geraldo Martins, ilustre e competente servidor dos quadros municipais que, se antes vivia incógnito era pelas suas razões de dedicação exclusiva às importantes atribuições de seu cargo, razão inconteste de seu prestígio e da expressiva votação recebida para o cargo de vereador, conforme demonstrava a vontade das urnas.
Tudo, porém, assim se sucedia em razão de que o rico comerciante de Berilo, homônimo do nossa herói, não tendo aceitado candidatar-se, devido aquelas razões que naturalmente o desestimularam, também não haveria de aceitar, como de fato não aceitou, tomar posse de um cargo para o qual não se candidatou, pois não havia autorizado que seu nome fizesse parte daquele rol de candidaturas. Afinal era ele um homem de bem, sério e honesto, que não aprovava aquela farsa, com a qual não compactuaria, mesmo diante de tantos argumentos e razões que lhe foram acenadas pelo coronel da cidade, mentor de mais uma daquelas tramóias políticas, urdidas na Casa Grande do Largo das Cavalhadas, sempre em conchavo com os responsáveis pela coordenação eleitoral.
Para contornar aquela situação vexatória, que poderia vir à claro e melindrar a politicagem com a Justiça Eleitoral até ali ludibriada, a solução foi empossarem o Geraldo Martins, como o fizeram com ele mesmo no caso do rei-momo, ao qual atribuíram todos os votos que nas urnas foram depositados pelos eleitores de Berilo, cuja vontade era eleger uma outra pessoa, a quem de fato confiavam.
E foi desta forma que se proclamou como eleito aquele Geraldo que nem mesmo era candidato, e que mesmo assim se tornou o presidente da Câmara. E foi assim, também, que enfim o Geraldo Martins, além de rei-momo que antes fazia seus discursos inflamados somente nos bancos da praça, passou a fazê-los na sua elevada cátedra da edilidade minasnovense, graças ao prestígio de seu xará importante que nem mesmo se conheciam, um que era o responsável pelas formigas da cidade e o outro que morava lá em Berilo e que não aceitou participar desse arranjo tão recorrente nas eleições da famosa Vila do Fanado.
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Com o ato de emancipação assinado pelo Governador da gloriosa UDN, o Dr. José de Magalhães Pinto, pela Lei 2.764, de 30.12.1962, o batalhador e progressista povo da antiga Vila de Nossa Senhora da Conceição da Água Limpa, que já se chamava Berilo desde 07-09-1923 (Lei 843), pôde eleger como seu primeiro prefeito aquele que deu novos rumos ao progresso de sua terra, o inesquecível Geraldo Alves Martins, saudoso pai do nosso bom amigo Jonaldo, este que, depois de radicado em Minas Novas, tornou-se um empresário de sucesso em nossa cidade, a tempo de conviver ainda, por muito tempo, com a figura inolvidável do homônimo de seu pai, que na eleição posterior se candidatou e não teve nem o seu próprio voto, de vez que no dia das eleições, esquecendo-se do pleito eleitoral, estava cuidando de seu tradicional combate às formigas, para logo depois pronunciar seus acalorados discursos em gongolês.
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RELAÇÃO DAS LOCALIDADES DA REGIÃO DO FANADO
LUGAREJOS DO FANADO
A lista a seguir (rol do ano de 1948) era utilizada pelos oficiais de justiça da Comarca de Minas Novas, com o objetivo de mapear suas diligências.
ACAUÃ
AGUA LIMPA
AGUA SUJA
ALFAIATE
ALTO DOS BOIS
ANA SIRINA
ANDAIME
ANJICOS
ARAÇA
ARACATI
ARAÇUAI
ARAUJOS
BAIXA QUENTE
BANANAL
BANDEIRA GRANDE
BANDEIRINHA
BARRA DO ABREU
BATATAIS
BATIEIRO
BAU
BEMPOSTA
BERILO
BIRIBIRI
BOA VISTA
BOLAS
BOM SUCESSO
BREJAUBA
BREJO
BRITES
BENTINHO
BURACÃO
BURACO D’ÁGUA
BURITI
BURITIS PARAISO
CABECEIRAS
CAFUNDÓ
CAIÇARA
CAITETÚ
CAJAMUNUM
CAMPESTRE
CAMPO LIMPO
CANABRAVA
CANGORRAS
CANSANÇÃO
CAPÃO S. FRANCISCO
CAPIVARI
CAPOEIRINHA
CARAMBOLAS
CARQUEJA
CARRO QUEBRADO
CASCALHEIRA
CAVA FUNDA
CAXAMBU
CAXINGUELÊ
CHAPADA
CONTENDAS
CÓOREGO MANOEL LUIZ
DA BATEIA QUEBRADA
CÓREGO DO GROU
CÓRREGO D’ÁGUA
CÓRREGO D’AREIA
CÓRREGO DA BICA
CÓRREGO DA CECÍLIA
CÓRREGO DA GROTA
CÓRREGO DA LAPA
CÓRREGO DA LAVADEIRA
CÓRREGO DA MINA
CÓRREGO DA ONÇA
CÓRREGO DA PEDRA
CÓRREGO DA RODA
CÓRREGO DAS ALMAS
CÓRREGO DO BONITO
CÓRREGO DO CHIQUEIRO
CÓRREGO DO FUNIL
CÓRREGO DO LULU
CÓRREGO DO MANDU
CÓRREGO DO MOINHO
CÓRREGO DO OURO
CÓRREGO DO PAIOL
CÓRREGO DO PARI
CÓRREGO DOS ÍNDIOS
CÓRREGO DOS MACACOS
CÓRREGO DOS PINTOS
CÓRREGO SÃO JOÃO
CÓRREGO SECO
CORRE-MÃO
CORRENTES
CORTA-MÃO
CRUZ DAS ALMAS
CRUZ GRANDE
CRUZ SEM BRAÇO
CRUZINHA
CUPINS
CURRAL VELHO
CURRALINHO
DEBAIXO DA LAPA
DEGREDO DO MAGALHÃES
EMÍLIA DA SILVA
EMPAREDADO
ENGENHO VELHO
ESPANTA MOLEQUE
FANADO
FANHA
FARINHA SECA
FAZENDA DA FÁBRICA
FAZENDA DOS MARTINS
FAZENDA SÃO JOSÉ
FAZENDA VELHA
FORQUILHA
FULORZINA
GABIROBA
GALEGO
GAMELEIRA
GENTIO
GOIABEIRA
GOUVEIA
GRANJAS
GRAVATÁ
IMBIRUSSU
INÁCIO FELIX
INDAIÁ
IRAPÉ
ITAPICURU
JABUTICABA
JACU
JENIPAPO
JOÃO GUARDADO
LAGOA DE MANÉ CHAPÉU
LAGOA GRANDE
LAJINHA
LAMARÃO
LARANJA BRAVA
LARGO DO JATOBÁ
LIMEIRA
LOURENÇO
MACAÚBAS
MACUCO
MAGALHÃES
MALUAÍ
MANDASSAIA
MANDU
MANGABEIRA
MANOEL LUIZ
MARIA GORDA
MARIA MULATA
MARIMBONDO
MARITACA
MARZAGÃO
MASSAMBÉ
MATA ´PEQUENA
MATA DA ACAUÃ
MATA DO PINHEIRO
MATA DOIS
MEIA-NOITE
MENDONÇA
MIRANTE
MISERICÓRDIA
MOÇA SANTA
MOREIRAS
MORRO REDONDO
MULUNGU
MUMBUCA
MUNIZ
MUQUÉM
MUTUCA
NAGÔ
PAIOLZINHO
PALMITAL
PAPAGAIO
PARAMBEIRA
PAU D’´OLEO
PAU D’0LINHO
PEDREGULHO
PEIXE CRU
PILÃO
PILÃO VELHO
PIMENTEIRA
PINGUELA
PINTOR
PONTILHÃO
POSSES
QUEBRA BATEIAS
RIBEIRÃO DA FOLHA
RIBEIRÃO DAS LAGES
RIBEIRÃO DO ALTAR
RIBEIRÃO DO MEIO
RIBEIRÃO DOS SANTOS
RIBEIRÃOZINHO
ROÇA GRANDE
ROCINHA
RONCADOR
SABARÁ
SAMAMBAIA
SAMPAIO
SANTA CRUZ
SANTA RITA
SANTIAGO
SÃO MIGUEL
SETUBAL
SINHÁ BERNARDA
SOLTA CAVALO
SUÇUARANA
SUCURIU
TABULEIRO
TAMBORIL
TAQUARAL
TICORORÓS
TIRIRICA
TOCOIÓS
TIBUNA OU TRIBUNAS
TROVOADAS
TURMALINA
VAI LAVANDO
VAREM PEQUENA
VÁRGEM DO POMBO
VARGEM GRANDE
VARGINHA
VEREDA DA DONA
VEREDINHA
VILA SANTO IZIDORO
ZABELÊ
ARISTIDES CRISTIANISMO COSTA
O OURO DOS CRISTIANISMOS
No início do século 20 a decadência da antiga e próspera Vila do Fanado, assim como suas adjacências, já estava completa com o esvaziamento da região, o que foi agravado, ainda mais, com os períodos seguidos de seca que se arrastaram, em ciclos, até 1929 e devastou o norte-nordeste de Minas e quase toda a Bahia.
Aquela violenta e histórica crise afetou em grandes proporções toda a economia regional mas os seus efeitos foram mais dolorosos no sofrido Vale do Jequitinhonha que já se ressentia do tradicional abandono, carente que sempre foi de atenção por parte das autoridades governamentais, onde nunca havia qualquer investimento público ou benefícios de incentivos para a fixação de capitais particulares, o que obrigou a população de lavradores, ruralistas, fazendeiros e comerciantes a voltarem aos antigos garimpos, revirando novamente os leitos já exauridos dos rios e córregos secos e os desmontes das antigas minas e lavras em busca dos últimos recursos e de algum meio para a sobrevivência.
Em toda a região era visível o estado calamitoso das multidões de famintos e de pedintes que chegavam em grandes grupos de retirantes.
As cidades se esvaziaram por completo e a população procurava a sobrevivência nas margens do Jequitinhonha, do Araçuai e alguns dos afluentes destes rios, onde, além de ficarem próximos da água, podiam eventualmente conseguir um pouco de ouro, através do processo de lavagem em bateias e catação pelas grupiaras.
Em Minas Novas os garimpos foram reabertos e tanto o Fanado como o Bonsucesso tiveram suas margens ocupadas por aventureiros vindos de toda parte, invadindo terrenos particulares e abrindo crateras por toda a parte, o mesmo acontecendo no Capivari, Setúbal, Gravatá, Gangorras, Água Limpa, Sucuriu, Buritis, Indaiá e Córrego do Ouro.
Houve intervenção das autoridades visando conter as iminentes desavenças e também para evitar os riscos de perigo a que se submetiam os trabalhadores, tanto pela precariedade dos meios utilizados, como pela falta de experiência daqueles que não conheciam do ofício, numa atividade que estava quase em desuso por parte da maior parte dos aventureiros.
O certo, porém, é que o último recurso era o garimpo do ouro. e nos meados de 1930, finalmente, verificou-se um temporal com grandes enchentes e desmoronamentos de morros e barrancos, possibilitando a descoberta de várias lavras de cristal e outras jazidas, mas essas pedras só começaram a ter algum valor econômico depois de deflagrada a Segunda Guerra Mundial, quando se intensificou sua utilização na indústria bélica, a exemplo da granada, do quartzo, do caulim e da mica (malacacheta),
Esse mesmo "inverno" possibilitou também o "milagre" de intensa florada das espécies vegetais que permaneceram em hibernação durante toda a estiagem, concorrendo positivamente para a boa produção e aproveitamento da borracha que, nesta região, também passou a ser comercializada com a extração precária do látex das mangabeiras.
Mesmo assim o garimpo do ouro continuou sendo a maior ocupação, principalmente no sítio do Bau e no Córrego do Indaiá (Baixa Quente), onde os proprietários dessas terras liberaram a exploração, não se importando muito com os danos ambientais dela decorrentes, compadecidos pelo estado de necessidade dos que ali iam buscar o sustento de suas famílias. Nos demais locais, em qualquer outra parte do Fanado e do Bonsucesso, o garimpo estava sob o rigoroso controle do chefe político local, só podendo neles garimpar quem tivesse autorização expressa do Dr. Chico Badaró.
Os tempos eram de ditadura e tudo servia de pretexto para enquadrar a população aos interesses dominantes, obtendo-se, naquela situação extrema, os dividendos dos quais não abrem mãos os opressores e os aproveitadores das mazelas humanas, muitas das vezes chegando esses tiranos ao ponto de tripudiarem sobre os infelizes, principalmente aqueles que eram seus desafetos por questões de antigas disputas eleitorais, por simples picuinhas, birras e vaidades politiqueiras, pois não se enquadra aqui o termo "política" em sua verdadeira expressão etimológica.
O efeito calamitodos dos duros tempos da seca ainda eram refletidos na economia debilidada da população e das comunidades, e o sofrimento do povo pobre se agravava mais e mais.
Nessa época havia na cidade um homem que, em tempo algum, em razão de suas convicções pessoais, pelo seu temperamento respeitoso e pacato, jamais havia manifestado suas preferências políticas, tendo procurando, sempre firme e alerta, manter-se longe das disputas eleitorais, conservando a sua neutralidade e preservando um cordial convívio com todos os habitantes do lugar, até porque, sendo numerosos os seus filhos, acreditava que o melhor para si e para eles era não tomarem partido a favor ou contra de quem quer que fosse.
Tinham, ele e os filhos, por profissão o ofício de ferreiros, como era da tradição que já vinha desde seus distantes antepassados, por diversas gerações, só que nesse ramo de trabalho, como de resto a todos os outros exercidos honestamente por outros oficiais e artesãos do lugar, não estava proporcionando-lhe rendimentos nem mesmo os suficientes para a aquisição dos gêneros de primeiríssima necessidade, como os alimentos para a enorme prole.
Premido pela situação e não encontrando outro caminho, resolveu procurar o chefe político para conseguir-lhe um alvará de autorização para que pudesse garimpar, junto dos seus familiares, em alguma faixa do rio destinada a esse tipo de serviço. Mesmo diante dos sérios argumentos usados, esse pleito lhe fora indeferido, negando-se a concessão do direito de lavra, pois a neutralidade de um eleitor era entendida pelo Dr. Chico como uma postura de desobediência, dentro do velho esquema autoritário de que, quem não é a favor, automaticamente estaria contra, e nessa condição de “adversário”, não poderia o postulante ser atendido com os favores dos benefícios requeridos.
Contudo, sob a ótica caudilhesca, estava ali a oportunidade do rancoroso mandatário de humilhar aquele pobre pai de família, honesto e trabalhador, que muito embora fosse um eleitor “neutro”, era visto como “um atrevido”, somente por ser uma pessoa indiferente ao partido do coronel, mesmo sem nunca ter manifestado suas preferências ou ideologias.
E o burgomestre, para não deixar passar em branco aquela oportunidade de “enquadrar” o candidato a garimpeiro, encaminhou-o, junto dos filhos, não ao serviço que pleiteavam, mas ao serviço de limpeza pública, deixando clara a intenção de espezinhá-los, e humilhá-los, designando-os para aquele trabalho árduo de capinar as pedregosas ruas, becos e morros da cidade, para expô-los à comiseração popular.
E era comovente de se ver aquele homem,simples mas de caráter ilibado e de boa índole, ali debaixo de sol e do rigor do tempo inclemente, junto de seus inúmeros filhos, naquele penoso trabalho tão primário para quem estava afeito a ofícios mais primorosos de fundição, de torneamento, de artífice e de armeiro, tolhido ali pela falta de opções de trabalho, arrancando com as mãos, sem o emprego de ferramentas, os carrapichos, os nardos, os marotos, as malvas e as gramas que brotavam entre as pedras do calçamento e dos barrancos pedregosos das vias públicas, como forma de conseguir algum recurso honesto para a sobrevivência do seu inocente grupo familiar.
Contudo, resignados que estavam com aquele trabalho humilde, para o qual foram encaminhados com a finalidade de servir-lhes como punição, procuravam eles executá-lo com a presteza e na forma correta, dentro do que seria a expectativa do empregador, evitando dar-lhe margem para qualquer oportunidade de reclamação.
No fiel desempenho dessa atividade, notou o diligente oficial, agora operário da limpeza urbana, observando acidentalmente as raízes das malvas e das gramínias que eram arrancadas em determinadas concavidades do terreno, que nelas ficavam retidas porções mínimas de ouro em pó (de aluvião) que a enxurrada para ali carreava dos morros e altiplanos.
E era trabalhando com toda a dedicação, durante o dia, que toda aquela equipe familiar executava a limpeza pública, catando o lixo e o encaminhando aos "monturos" , como era de praxe, capinando todos os logradouros mas reservando em surrados sacos de linhagem o que resultava da capina, como o mato, o capim e a malva arrancados com as próprias mãos, para que o barro residual das suas raízes fossem lavadas no rio, na esperança de assim apurarem alguns grânulos e pequenas pepitas de ouro que eventualmente pudessem ficar nelas retidas.
Esse trabalho era feito fora do horário do expediente nornal do grupo, o qual se sacrificava na prática desse peculiar garimpo somente à noite ou pela madrugada, de forma a não prejudicar o contrato com a prefeitura, podendo - desta forma - ter um pequeno ganho adicional para suprir suas necessidades, de vez que o pagamento de seus salários se acumulavam, sempre com a alegação do prefeito de que o erário do município estava sem verbas para aquele empenho.
E, como se não bastasse tanta injustiça, aquela eventual e rudimentar prática de garimpo foi denunciada ao chefe político, pelo próprio comerciante, um lacaio do prefeito, que trocava sua mercadoria pelo valor - por ele mesmo estipulado - daquelas pequenas oitavas de ouro que os membros daquela indigitada família conseguiam bateiar com todo sacrifício para não morrerem de fome, como se fosse aquela uma atividade secreta e lucratriva.
O velho Aristides Cristianismo foi imediatamente preso sob a acusação de apropriação indébita daquele ouro, pois o mesmo deveria, como propriedade da prefeitura, ser recolhido aos cofres do erário municipal e não servir de moeda para atender suas compras no comércio local.
Os filhos dele, que também estavam denunciados, para se livrarem daquele mesmo castigo se embrenharam na mata e foram-se refugiar na localidade de Sete Posses (no município de Malacacheta), para onde o restante da família depois se mudou, quando o caso foi julgado e o principal envolvido ter sido absolvido pelo um juiz substituto, vindo de uma das comarcas vizinhas, cuja autoridade não encontrou qualquer artigo de lei que pudesse enquadrá-los criminalmente por aquele suposto delito, mandando-o colocar em liberdade, mas depois de haver decorrido vários meses e de ter passado pelas maiores privações e castigos.
Essa é a razão, pois, de muitas outras famílias terem mudado para outras localidades, assim como a família dos Cristianismo que se viu obrigada fugir de sua terra natal e foi espalhada pela região de Teófilo Otoni, onde existem descendentes que guardam a mais justa mágoa e revolta - diante dessas lembranças - pois se sentem vítimas das injustiças praticadas por um regime de opressão que em toda região é tristemente lembrada como o "tempo do carrancismo".
* * * * * * * * * * * *
TEOPHILLO BENEDICTO OTONNI
Nasceu Teófilo Bendedito Otoni na cidade do Serro em 17.11.1807 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 17.10.1869, vitimado por prolongada enfermidade de malária contraída na região do Rio Mucuri. Estava, então, no exercício do cargo de Senador da República, após ter sido eleito e indicado pela quinta vez para a mesma função e sem ter sido reconhecido, das vezes anteriores, pelo poder monárquico, de vez que era um dos seus mais ferrenhos oposicionistas na corte, defensor do liberalismo e do regime republicano.
Iniciou sua carreira política como Deputado Provincial de Minas Gerais, na Segunda legislatura (1838-1839), conforme registrou o historiador João Camilo de Oliveira Torres (“in” História de Minas Gerais – pag. 1294 e 1295 – vol. Nr. 5 da 2ª edição).
REVOLUÇÃO LIBERAL –
Em 1842, disfarçado com o nome de “Dr. Magalhães” e portando documentos falsos, participou de um intenso tiroteio com as tropas comandadas por Luiz Alves de Lima e Silva (Caxias), no combate verificado na cidade de Santa Luzia (MG), onde esperava reforços que seriam enviados pelo comandante David Carabarro, um dos líderes da Guerra dos Farrapos, os quais não chegaram, resultando daí a sua derrota e sua prisão como um dos principais responsáveis pela revolução armada. Esta revolução foi motivada pelo inconformismo dos liberais, que não aceitavam como legítima a abdicação do Trono e a coroação de Dom Pedro II e defendiam a implantação imediata de um regime republicano.
Foi acorrentado e conduzido preso, a pé, de Santa Luzia até Ouro Preto, sendo julgado pelas autoridades de Mariana e dali foi enviado para o “degredo” que foi cumprido em um sítio próximo da Vila do Fanado de Minas Novas, onde permaneceu confinado até o ano de 1848, quando foi anistiado pelo Imperador.
Já em gozo de sua liberdade, continuou na Vila e devido seu brilhantismo como advogado militante naquele Termo Judicial recentemente criado, e de suas cartas que dirigia ao Governo (com o pseudônimo de “Magalhães”) em que elogiava a postura exemplar do Duque de Caxias, seu vencedor, deste mereceu o reconhecimento como um influente líder e dele recebeu incentivos no sentido de desenvolver ações em benefício do desenvolvimento regional, período esse em que idealizou a fundação de uma Companhia de Mineração da Região do Fanado e outra de Navegação e de Exploração Comercial do Rio Mucuri, que julgava ser navegável a partir de Santa Clara (hoje Nanuque), tendo construído a primeira rodovia carroçável do Brasil, com mais de 300 km. e pela qual foi possível transitar as caravanas que viabilizaram o desenvolvimento dos distritos de Mucuri e Urucu (hoje Carlos Chagas), impulsionando o progresso de Nova Filadélfia, hoje Teófilo Otoni.
Mesmo depois de conquistada a liberdade e a simpatia do Duque de Caxias, continuou divergindo-se da monarquia e, no Senado, jamais se posicionou como súdito do Imperador, negando-se a prestar-lhes as honras como chefe de estado e de beijar-lhes as mãos como era de costume fazê-lo os seus pares do legislativo, pois apesar de culto e elegante era muito franco, tenaz e corajoso, jamais concordando com os atos de bajulação aos poderosos naquela Corte do Rio de Janeiro.
Mesmo depois de conquistada a liberdade e a simpatia do Duque de Caxias, continuou divergindo-se da monarquia e, no Senado, jamais se posicionou como súdito do Imperador, negando-se a prestar-lhes as honras como chefe de estado e de beijar-lhes as mãos como era de costume fazê-lo os seus pares do legislativo, pois apesar de culto e elegante era muito franco, tenaz e corajoso, jamais concordando com os atos de bajulação aos poderosos naquela Corte do Rio de Janeiro.
Devido a seus princípios liberais, contrários ao regime monárquico vigente, não obteve muito sucesso na aprovação de muitos de seus projetos de desenvolvimento, para os quais lhe foram negados os financiamentos e as liberações dos recursos necessários, tendo, contudo, devido a suas fortes ligações com diplomatas influentes, como o Montezuma, e de investidores estrangeiros que demandavam ao Brasil, obteve êxitos consideráveis atraindo o interesse de colonos europeus, principalmente germânicos, que se instalaram na região do Mucuri e que deram continuidade a seu sonho desenvolvimentista.
O confinamento do liberal Teófilo Otoni, para o degredo no termo de Minas Novas, explica-se pelo fato de que o referido político, apesar de sua oposição ao regime monárquico, nele contava com a simpatia de várias autoridades graduadas que sabiam que naquela cidade ele encontraria ambiente favorável para desenvolver seus projetos a favor do movimento abolicionista, indigianista e de desenvolvimento econômico através da implantação de sua acalentada “colônia”. Nesse sentido é importante citar a influência de Guido Marlieri, do Visconde do Jequitinhonha (Montezuma) e do próprio Duque de Caxias, que se tornou um seu aliado e incentivador.
O termo de Minas Novas havia sido desmembrado da comarca de Serro e a figura do liberal seria de grande importância para a organização judiciária daquela região que, desde muito tempo, ressentia-se da alternância administrativa que lhe inviabilizava o progresso, apesar de que, esta preocupação já se revelava bissexta em virtude do esvaziamento motivado pela exaustão das lavras de ouro e do empobrecimento da cultura do algodão, já uma região em adiantado declínio político e econômico.
Em Minas Novas, o “Dr. Magalhães”, que na realidade era o liberal Theophillo Otonni, que ali cumprira seu degredo, já anistiado, foi advogado, professor e comerciante.
Fundou, ali, a sua Loja Maçônica “Nova Philladelphia”, cujo embrião foi transferido logo depois, em 1862, para o distrito de Filadélfia (Teófilo Otoni).
MINAS NOVAS É DESIGNAÇÃO GEMOLÓGICA
MINAS NOVAS – UM EXEMPLAR RARO DE GEMA MINERALÓGICA
Minas Novas -É nome pedra rara, talvez um diamante de tamanho impar, de beleza insuperável e de valor incalculável.
Na literatura mineralógica ha a referencia do termo “minas novas” como uma espécie de gema desaparecida, isto é, variedade mineral exaurida e extinta no meio natural.
Os exemplares raros -- dos quais se tem vagas noticias -- possivelmente estão entesourados, não catalogados ou ainda guardados a sete chaves em poder de colecionadores e museus.
O termo se refere, também, aos novos descobertos de veios auríferos na região do rio Fanado (Tamboá), cujas ocorrências se verificaram no século XVIII, logo após a decadência das “lavras velhas” ou “minas velhas”, referência às regiões de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Raposos, Caeté, Congonhas, Santa Barbara e outras.
As pedrarias sempre foram muito valorizadas, no entanto era o ouro o mineral mais cobiçado pelos colonizadores, pois ate mesmo os diamantes eram desconhecidos no Brasil, ate quando foram reconhecidos, acidentalmente, no antigo arraial do Tejuco (hoje Diamantina) onde as referidas pedras eram utilizadas apenas como tentos para marcar jogos de gamão.
O antigo município de Minas Novas (Vila do Fanado), que compreende o território onde se localizam todos os municípios do Vale do Mucuri e a maioria dos municípios do Vale do Jequitinhonha, é considerado como uma das maiores províncias minerais do mundo, com uma enorme variedade de elementos raros e valiosos, dentre eles alguns muito pouco conhecidos como o urânio, o lítio, o wolfrand, o silício, o tungstênio e o antimônio, alem do diamante (minas novas?), ouro e pedras coradas de grande importância econômica e cientifica, na industria bélica, de instrumentos ópticos, de aparelhos de precisão e na joalharia.
Está comprovada a ocorrência, na região do Ribeirão do Meio, Forquilha e do Bonsucesso, onde permite-se exploração econômica ainda não viabilizada, de calcita (caulim), florita e talco (minerais largamente utilizados na indústria farmacêutica e de cosméticos), de barita (bário, utilizado em material fotográfico), na região de Jacu, Rubim e Debaixo da Lapa, monazitas (bório, ítrio, etc) nas Mangabeiras, Pimenteiras e Ribeirão da Folha, rochas de itabirito (ferro) na região do Cansanção e Capivari,, de quartzos (para cerâmica branca e vidros) em quase todo o município e silicato de berilio (crisoberilo “olho de gato”, safiras escuras, esmeraldas, malacacheta, etc.) na região do Gonçalo – Caieiras - Olaria – Córrego das Almas.
O BODE DE MINAS NOVAS
O BODE DA MAÇONARIA –
Não se trata de lenda, mas de um dado histórico que virou senha na ordem maçônica.
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Com a transferência do “Dr. Magalhães”, levando para o Mucuri o seu estabelecimento comercial, sua banca de advogado e sua loja maçônica, iniciou-se uma verdadeira corrida que culminou, pouco tempo depois, com o completo esvaziamento da cidade de Minas Novas e o conseqüente “inchaço” do distrito de Filadélfia, para onde se mudaram, também, os principais comerciantes, fazendeiros, artesãos, oficiais e profissionais liberais.
Segundo a crônica popular, a antiga Vila do Fanado ficou como uma cidade fantasma onde perambulavam os mendigos e os loucos que ficaram ali abandonados, além de muitos dos animais que se negaram de acompanhar os antigos proprietários, rumo à “terra prometida” de Todos os Santos e do Mucuri.
Dentre aqueles animais insubmissos, ficou de “arribada” um curioso bodogô, que por muitos anos foi mascote dos maçons, como era de costume haver um, daquela espécie, para os ritos da Fraternidade, o qual não se deixou levar, de forma alguma, para o novo endereço e tendo ficado ele, solto pelas cercanias do Fanado onde passou a imperar como requisitado reprodutor.
Passando-se o tempo, o velho bode já não contava com o vigor necessário para atender à imensa população caprina, que de forma mais intensa exigia-lhe empenho e lhe apertava o assédio.
Vendo-se assim acuado, certo dia de lua favorável, diante de uma enorme fila de fêmeas que aguardavam sua vez, ele se apavorou e, procurando fugir daquele aperto, subiu no telhado da Fazenda do Mirante e, dali alcançou a torre da igreja, tendo sempre no seu encalço a multidão de cabras no cio, não lhe sobrando outra alternativa senão a de se precipitar sobre os lajedos do Córrego Manoel Luiz, onde teve morte trágica.
Daí a fama, ainda hoje, do histórico “Bode de Minas Novas” que preferiu se escafeder do que dar com a lingua nos dentes, confirmando o velho dito popular que afirma que "o bom cabrito não berra, mesmo já idoso e tido como caduco".
* * * *
(Dentre as minhas fontes fidedignas tenho as figuras saudosas de Rubens Leite, Olympia Araújo, João Elisiário, João Araújo, Dagmar Costa, Aristides Cristianismo, Juca Trigo, Monsenhor Otaviano, Zé Caiafa, Tereza Moizés, Carlos Figueiredo, Samuel Scofield, Jader Werner, Djalme Dupim, Dalmo Quadros, José Rodrigues, Manoel Magalhães, Lilia Mideldorff, Romeuzinho Gazzineli, Silvio Ganem, Nilo Panjiru, Alexandre Mattar, Pedro Abrantes, Victor Nery e outros antigos moradores da cidade de Teófilo Otoni, com os quais tive a ventura de manter contatos, alguns ainda no meu tempo de criança.)
"AGÔ AJU XIRÊ " - PEÇO LICENÇA PARA OLHAR A FESTA....
“AGÔ AJU XIRÊ “
(Licença para olhar a festa)
Quando o ouro ainda era farto no leito do Bonsucesso, nas grupiaras e nos carrascais de nossos morros, os negros tinham que solicitar licença de seus senhores para, de longe, olharem a festa.
(Apenas olhar!)
E os negros olhavam... e, através do banzu se sentiam saudosos daqueles seus dias ditosos, lá na África, onde eram livres, eram senhores de suas vidas e onde também alguns eram reis, príncipes e princesas.
O tempo voou e o ouro foi minguando e chegou-se à era atual em que os senhores já não precisaam tanto do trabalho deles, como escravos, e há muito que os mandaram plantar batatas e colher coquinhos nas cercanias do Fanado, hoje poluidas pelo eucalipto.
Abandonados e entregues a tristes destinos os cativos e os forros sempre buscaram em Nossa Senhora do Rosário a proteção e o refúgio, introduzindo no seu culto o sincretismo que trouxeram de suas nações.
Povos vindos das bandas de Moçambique e da Guiné, aqui os cabindas, os ingomas, os nagôs, os congos e os bantos se fundiram numa nova nação contribuindo decisivamente para a grandeza de nosso município e de nosso querido Brasil e que agora, mesmo que sofredores, são independentes e livres para continuarem emprestando sua graça, sua fortaleza e sua alegria que resultaram no surgimento da verdadeira raça e sintetizam a alma do povo brasileiro.
Os negros de antigamente eram obrigados a pedir licença, mesmo que fosse apenas para assistir à festa!
Antigamente... Pois nos dias atuais não se faz mais necessária a concessão de qualquer licença: Basta que se garanta ao povo o direito, não só o de olhar a festa mas, em pé de igualdade, o direito também de olhar a sua propria vida e felicidade, para participar dela livremente e viver desta grande festa!“
"AGÔ AJU XIRÊ” Povo de Ingoma!“
"Agô aju xirê” Gloriosa e Excelsa Virgem do Rosário, Mãe Celeste dos Homens Pretos de Minas Novas e de todo esse povo que a venera e a quem recorre como intercessora, medianeira e protetora junto de Deus, a toda a hora!
"Agô aju xirê” maravilhosa e centenária Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, refúgio espiritual de Miguel Mendes, Joaquim Camargos, Zé de Durval, Corinto Fidélis, Waldemar Santos, Elisa Mendes, Rosário Sena, Deni de Sinhá, Maria Martins e Joaquim Bocas!“
"Agô aju Xirê”, Rei-Velho Domingos Teodolindo Mota e Rainha Velha Maria Angélica e suas respectivas famílias.“
"Agô aju xirê” Rei-Novo Geraldo Jayme Alecrim e Rainha-Nova Dona Stael que é filha do Grande Mestre Luiz Gonzaga Leite, o nosso Patriarca de Minas Novas."
“Agô aju xirê” Congado de São Benedito e Santa Efigênia do Macuco, Bandeirinha, Mata-Dois e Capivari!“
"Agô aju Xirê” Marujada de Santo Antônio de Bemposta – esta batalhadora e insuperável Banda de Taquara que tanto nos faz lembrar da saudosa Cristina de João Calu!“
"Agô aju xirê” Guarda de Honra do General João de Deus e do Capitão Chico Louro, pai do Capitão Pascoal!“
"Agô aju xirê “ Tamborzeiros e Pífaros dos saudosos Capitão Zé de Iaiá e do Capitão Mundinho avô do guarda Zezão colega do guarda João Camargos que é filho do finado lanceiro João Pequi!“
"Agô aju xirê” invejável Filarmônica de Virgem da Lapa! (que nos inunda de saudades da Euterpe Conceição dos Mestres João Lídio, João Benedito, Gabriel Borges, João Batista, Rodolfo Gomes, Artur Quirino, Zé Moreira, Militão e do inesquecível Gentil Fernandes!)“
"Agô aju Xirê”, Coral da Imperial Irmandade, exemplo deixado por Fabricio Freire, Domingos Mota, Mestre Roxo, Sinhá de Neco, Alaide Fernandes, Rodolfo Gomes, Margarida Alacoque e Jurandir César, este filho do grande Agenor.“
"Agô aju xirê”, Dona Maria Saturnino, Bedel da Irmandade, filha de Evaristo do Sininho!“
"Agô aju xirê”, nossos queridos irmãos do Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, lá da hospitaleira e acolhedora Bocaiúva, orgulho do Vale do Jequitinhonha, terra natal do grande José Maria de Alkmim, de Pedro Aleixo, de Patrus Ananias e cidade onde se realizará, este ano, o Vigésimo FESTIVALE!“
"Agô aju xirê”, nossos queridos Marujos do impecável Terno de Moçambique da longínqua mas tão aprazível e acolhedora cidade de Dores do Indaiá!“
"Agô aju xirê“, nossos queridos irmãos, disciplinados e saudáveis meninos do Grupo de Capoeira Unidos do Rosário, exemplo que é para toda a nossa juventude!'
Desta vez quem pede licença é o povo sofrido e abandonado que tem sede de justiça, tem sede de amor, tem sede de fraternidade e, acima de tudo, tem sede de carinho, de afeto e de consideração.
Todos nós queremos e precisamos, não só de olhar a festa, mas dela participarmos de forma efetiva, definitiva e justa.
Precisamos participar desta grande festa que é a VIDA: Vida cristã! Vida digna! Vida de união! Vida sem violência! Vida sem exclusão!
Pedimos licença para assistirmos a união do povo minasnovense que no anunciar deste novo milênio tem todo o direito de ser feliz em sua própria terra, povo que tem direito de trabalho, de assistência médico-hospitalar, de acesso à educação, à cultura e ao lazer e de mais respeito à sua cidadania.
Não podemos admitir jamais no meio de nosso povo a exclusão, a discriminação de qualquer natureza, seja ideológica, racial ou religiosa.
Não podemos nos calarmos diante de injustiças, do autoritarismo e do patrulhamento por parte daqueles que detêm o poder em nosso município.
Preparemos nossos corações e mentes para um novo tempo que haverá de ser abençoado sempre pelo milagroso Rosário de Maria.
O nosso Rei Geraldo Jaime Ferreira Alecrim, em nome de Nossa Senhora, convoca-nos a todos, para um reinado em busca da paz e da felicidade do Povo de Ingoma desta grande NAÇÃO FANADEIRA cujos limites se estendem pelos canaviais, fábricas e repartições públicas deste Brasil afora por onde palpitam de amor a Jesus e Maria, milhares de corações minasnovenses!
VIVA, pois, NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO, MÃE DOS HOMENS PRETOS, DE TODOS NÓS AQUI DE MINAS NOVAS E DOS QUE VIVEM EM TODOS OS RINCÕES DE NOSSO BRASIL!
Nosso AXÉ a Dom José “Zumbi” Maria Pires!
Nosso Axé ao irmão dileto Padre Júlio, que é neto de Mãe’Ana Sabino!
Axé e saudades do Padre Emiliano!
Minas Novas (MG), em 25.06.2000
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