A CADELA DE MANÉ VENÂNCIO
Manoelzinho Venâncio era um roceiro muito trabalhador e respeitado, pois ninguém jamais o havia visto na ociosidade.
Para ele não havia domingo, feriado ou dia-santo.
Sua lida no sitio da Barragem era ali, no dia a dia, junto da esposa Lelê, auxiliado por uma recua de filhos, todos bem criados ao redor dele e da barra de saia da mãe, na obrigação de cada um dar conta de seu recado, naquela bendita e santa labuta onde se produziam de tudo o que era possível tirar daquelas terras secas e pedregosas de beira de chapada, onde poucas várzeas com suas palhadas eram disponíveis, nas margens do Fanado, para se plantar alguma roça: o resto era tudo mato de capoeira, angiquinho, gonçalo, lagramina e candeia, uma antiga propriedade onde no passado tudo era canavial para alimentar o engenho do Mirante, mas que virou mato de lenha rala, de garrancho que as buscadeiras de lenha da cidade não o davam sossego.
Era essa lida uma tunda, um deus-nos-acuda diário para impedi-las de tirar suas varas naquele terreno, tão próximo da rua, que tinham sempre uma desculpa para surrupiarem-lhe uma cana aqui, uma abóbora ali, uma raiz de mandioca, algumas laranjas e um jenipapo acolá que, no final, tudo calculado era o prejuízo que só ia ficando grande na sua cacunda.
E assim "meu nêgo", do jeito que elas queriam, "num dava não, meu nêgo", "mas num dava era de jeito nenhum", pois afinal era ele, ali, mais o seu povo trabalhando, se matando desde o raiar do sol até ficar de noite, combatendo formigas com veneno caro, consertando cercas e formando suas plantinhas para o povo da cidade achar que tudo era de graça: A sua meninada, coitadinhos, todo santo-dia levantava muito cedo para ir à escola e lá iam eles tocando o burro com a cangalha, pela estradinha, levando uma carga de lenha e as verduras para entregarem na freguesia, que é para não irem à-toa de tudo pra cidade.
"- Menino não pode andar vadiando, tem que ter o que fazer, senão vira vagabundo: tem é que aprender a obrigação e é de cedo".
O leite que eles tiravam de umas poucas vaquinhas e que levavam, pela manhã para a cidade, de tão gordo que era que quando chegava à casa do freguês, quase que a metade do litro já tinha virado manteiga em virtude daquele sacode-sacode da bolsa de couro arrumada na garupa do cavalo trotão, companheiro inseparável de Ladinho, o filho mais velho, que seguia logo depois dos demais irmãos, que era para fazer a entrega de casa em casa. A aula dele ficava para mais tarde. Este era ainda um menino que não sabia nem amarrar o correião e já era a cópia fiel do pai: conhecia dinheiro, sabia montar burro brabo e seguia o Manezinho sempre e à toda parte, e dele aprendia desde os mais corriqueiros hábitos, como o de não perder tempo com mangações, o de atender com presteza à freguesia, mesmo o de pechinchar ao máximo e até o jeitão característico de desconfiado e de ficar só na moita observando, ele tinha: - É isso mesmo, meu nêgo, num dá não!
Lourenço, o do meio, já seguia no mesmo caminho do Ladinho e aos dois ninguém os passava pra trás e já sabiam eles campear como ninguém, laçar boi brabo e até negociar com os açougueiros da cidade na venda de um boiadeirozinho ou de uma vaca velha para o corte. Aos sábados, seguia toda a família pro rancho do mercado, aonde iam com seus produtos para abastecerem a feira, levando nos balaios e nos bornais as raízes de cará, mandioca mansa, batata-doce, cachos de banana, quiabo, frangos de manguara e ovos caipiras empalhados na palha de milho, além do andu e do milho verde para fazer mingau.
Esforçado e econômico como era, tinha o Mané Venâncio lá o seu com quê, bem algumas pés-duros muito boas de leite criadas na larga pelos campos, quando eram fartas e milagrosas as folhas largas e as inúmeras bagas de leguminosas que ainda existiam naquele venturoso tempo antes de serem eliminadas pelo flagelo desse eucalito fidaputa trazido pela encravada da Acesita.
Manoelzinho sabia, mal e mau, rabiscar o nome e ler era de jeito nenhum. Emprestava dinheiro a juros, sem muita usura, a uma meia dúzia de compadres, dos quais nem mesmo exigia nota promissória. A rendinha mensal, entretanto, tinha que ser certa e calculada de cabeça, não carecendo nem de máquina calculadora nem de caderneta.
Havia na cidade muitos comerciantes, que pareciam prósperos, mas que na verdade negociavam era com a força do capital daquele matuto; e Caixa Econômica ou Banco, estes nunca viram a cor do dinheiro dele. Diversão, aos domingos, de vez em quando, era para torcer e até brigar pelo Flamengo, junto do cunhado Chico Vieira, dos amigos Geraldo de Amélia e de João Mocó, lá no Campinho do Pequi. Ali sim, era dia de roupa limpa e chapéu de massa da Ramenzzoni, mas roupa nova para si, para a patroa e para a meninada era só na festa de junho. E neste dia, invariavelmente, aparecia ele aparecia à rua do Rosário todo enfatuado de jaquetão azul-marinho de casimira e de chapéu de massa Ramenzonni dos bons e de abas largas, pagava até cinzano e cerveja para os amigos no forró de Geraldo Martins ou no salão de Antônio Carcereiro. Nos demais dias do ano, era trabalho e mais trabalho; e se alguém lhe solicitava algum dinheiro emprestado ou queria lhe vender algo de que ele não precisasse, ele simplesmente respondia:
- "num dá, não, meu nêgo! - hoje num vai dá..."
Já, se o dia era o da festa de Nossa Senhora do Rosário:
“É meu nêgo, hoje vai dá!
E repetia:
“- É, hoje vai dá ...”
E por conta da festa, pagava mais uma rodada para todos que estivessem na venda, naquelas horinhas de farra, depois do mastro ou da missa.
E assim era a vida do previdente Manoelzinho.
Ninguém, vendo-o nos molambos, pés descalços e na eterna peleja de caboclo - matuto por natureza, imaginava-o ser uma pessoa generosa e tão amiga dos amigos. Não era eleitor, mas na política torcia pelos candidatos da gloriosa UDN ou que fossem da oposição.
Compadre e amigo de Dominguinhos Mota e fiel aos conselhos deste, a maior predileção dele, mesmo sem votar, era a de "trabalhar contra" os candidatos de Dr. Chico, em todas as eleições.
Era um admirador de Jânio Quadros - "um presidente que queria barrer a sujeira do país, mas que foi traído pelo povo" - e quando Magalhães Pinto em campanha para governador visitou Minas Novas, foi um dos poucos, que junto com Waldemar, Agenor, Dona Celuta, Leolino Cordeiro, Dona Neide Freire, Álvaro, Seu Dodó e Raul Marcolino, a enfiar a mão na algibeira para ajudar na organização do comício realizado em cima da carroceria do caminhão de Manoel Mocinha, em frente da bonita residência de Antônio Caetano. E com referência a esse evento, ele não perdoava a má educação de Pedro Soldado pelo fato de que ele, na hora dos discursos, aquele vendeiro ignorante ter colocado o rádio de sua venda, que era debaixo do sobrado de Áurea, com o volume de toda altura, só pra atrapalhar os discursos. Depois disso, porém, não escondeu sua alegria, quando teve a maior felicidade do mundo, ao saber da vitória - de cabo a rabo - dos candidatos Jânio Quadros, para a Presidência do Brasil e de Magalhães para o Governo de Minas. Certamente que teria ficado ainda mais feliz, se pudesse ter votado, o que, infelizmente, naquele tempo, era impossível para a maior parte da população, obrigada que era de viver no analfabetismo e na mais completa miséria, devido ao desleixo dos políticos do PSD local, que era comandado pelo Dr. Badaró. Este prazer, entretanto, algum tempo depois teve foi o seu filho Ladinho, muito embora este, assim como o próprio pai, ter também falecido, precocemente, em razão da famigerada doença de chagas.
Contudo, foram eles, ambos, grandes exemplos de trabalhadores honestos e valentes que, mesmo rudes, não aceitavam a opressão do infame coronelismo.
Ninguém, nem mesmo os parentes, ou pessoas mais chegadas a ele, entendiam a ojeriza que Manoelzinho nutria pelos chefões locais, o que ele não procurava disfarçar, pelo menos da forma como o fazia a grande parte das pessoas da cidade, os quais, mesmo não gostando da cangalha a ela tolerava, não como os burros, mas como os autênticos escravos, submissos, oprimidos e calados. E por isso mesmo era tido o nosso Manoelzinho como rude e homem de queixo-duro, na ótica canhestra dos apaniguados da Casa Grande.
Mas, o que ele era mesmo, era um sujeito duro na queda e também, não gostava de soldados, que tinha como gente preguiçosa, que vivia de explorar o povo e o governo. Mas neste último caso, sempre abria honrosa exceção ao concunhado, seu compadre Joãozinho Soldado, a quem tinha uma particular estima e respeito, muito embora só o cumprimentasse ou o recebesse em visita se ele não estivesse de serviço, ou seja, teria o referido parente de estar à paisana, o que deixava a este correto militar, em uma situação vexatória, mas que procurava contemporizar, relevando-lhe a mania do compadre, por causa da sincera amizade e do carinho que havia entre ambos e todos os seus familiares.
Desse posicionamento, um tanto estranho e questionável, certa vez eu pude vê-lo dar, de viva voz, suas explicações a Tião Labatu, que era uma das pessoas com a qual ele, também, mantinha um ótimo relacionamento e a quem, com muita justiça, considerava como um bom sujeito, como de fato ele o era.
Segundo o bom roceiro, mostrando-se até pesaroso de assim agir, “pois todo mundo é filho de Deus, mas é que esse povo de farda é uma gente sem misericórdia e sem consciência que jura ficar até contra a própria mãe se assim for pra defender a prata” e isso não havia como lhe sair do pensamento, mesmo que o amigo Tião tentasse lhe explicar que não era "prata" e sim a "pátria", mas ele não concordava, "pois era tudo a mesma coisa, um jeito que os inimigos do Brasil arranjaram para iludir os 'bate-paus' - os macacos do governo - que além de terem de andar todos arreados e marchar como bonecos de pano, eles não podiam nem carregar embrulho nem usar guarda-chuva, que é para terem as mãos livres e para bater continência na frente de qualquer pé-rapado e metido a sêbo da cidade".
E a respeito disto, o nosso Manoelzinho não concordava, pois dentro de seu raciocínio, depois da Lei assinada pela Princesa Izabel, homem nenhum tinha que se abaixar ou tirar o chapéu para bajular o outro – e, para não precisar disto, tinha é que ser trabalhador e procurar cumprir bem com suas obrigações, de ser bom pagador e bom chefe de família, e não ter que se sujeitar a esses desaforos.
Todos, na roça ou na cidade, eram seus amigos e por ele eram tratados, carinhosamente, de "meu nego" ou "minha nega", fosse jovem, velho, homem, mulher, preto ou branco.
Mas, na verdade, a grande bronca que o Manoel tinha com a classe dos soldados, era em razão de dois fatos específicos, que só foram revelados por sua esposa depois dele haver falecido: o primeiro, estaria relacionado aos constantes socorros financeiros de que se recorria um primo dele, Zé de Pinhé, que era um soldado, e negro como ele mesmo, mas que só gostava de namorar moça branca, sendo esse seu parente teria ido embora da cidade sem o pagar, e que, de resto, ainda teria ficado devendo a todo mundo no comércio local; o outro fato está relacionado com a morte de sua cadela "Chulinha", que foi envenenada, por um outro soldado, um tal de Piconé.
A decepção causada pelo primeiro, não podia nem de longe se comparar com a que ele nutria pelo segundo, que era filho de uma pessoa tão amiga, de quem jamais esperaria um ato tão vil e monstruoso, praticado contra um animal que era da sua maior estimação, uma cadela pela qual tinha ele tinha todo afeto, como se fosse ela uma pessoa muito estimada, a qual fazia parte integrante de sua própria família e que não mereceria, jamais, ter-se acabado daquela maneira impiedosa e tão covarde.
A Chulinha era a mais dócil cadela, sua companheira de caçadas, de campear às pés-duros, de acompanhá-lo até na igreja, aonde ia com ele, “toda fiel e compenetrada, respeitosa em qualquer ambiente, que sabia entrar e sair em todos os lugares de respeito, um animal que até as crianças tinham por ela todo afeto e carinho, por ser ela muito inteligente e compreensiva, uma pobre mas inteligente animal que "sabia até corresponder à afeição que todos tinham por ela, e que ela não era igual a essa gente má, que não tem dó nem da própria mãe, como essa classe de gente à-toa e desclassificada, que mata por qualquer motivo”.
Era essa a descrição que o pobre do Manezinho fazia, quando se lamentava pelo terrível fim de sua Chulinha, um ato imperdoável, provocado por um soldado tão ruim e sem caridade, que não relevou nem o fato da valente cachorra estar amamentando uma ninhada de quase dez filhotes, cada um destes de uma cor e de uma raça diferente, sinal do quanto ela era amada pelos companheiros de cachorrice.
O fato, de tão sério que já estava ficando, que o bom matuto se queixou com o compadre Dominguinhos e este, ligado que era ao governo da UDN, para satisfazê-lo, fez uma dura representação no comando do Batalhão, pedindo as providências contra o insubordinado Piconé. E a corporação, depois de ouvidas as razões do denunciado, mandou o caso para o Fórum para que, depois de um possível acordo com o dono do animal, ser ele indenizado, além de que penalizou o praça com 30 dias de prisão administrativa e as advertências de praxe.
No curso do inquérito instaurado, o soldado infrator alegou em sua defesa que o referido animal, aproveitando-se da liberdade que tinha de entrar e sair da casa de sua mãe, cuja porta o bicho, de tão treinado, sabia até destaramelar, e que o dito animal, aproveitando-se da ausência da dona da casa, que se encontrava na sua lida diária de buscar um feixe de lenha no mato, subtraiu do fogão daquela casa um caldeirão contendo a carne destinada à mistura da comida que seria servida no dia de domingo, fato que era de amplo conhecimento de todos os vizinhos e dos moradores da Rua do Rosário e adjacências, a maioria deles que também já teriam sido vítimas da referida cadela, em ocorrências idênticas, pois era de todos sabido o triste defeito de roubar comida para si e para a imensa prole, obtida de repetidas ninhadas, o que se configurava, segundo a crença do acusado, em grave ofensa contra a lei de Deus.
O queixoso ouvia todo aquele relatório, com paciência e atenção, sem nada contestar a não ser pela forma desrespeitosa do tratamento para com uma falecida, que nem ali estava para se defender de tanta mentira, e ao final, discordou completamente da indenização proposta, pois não haveria dinheiro no mundo, que o compensaria por aquela injusta perda.
Ele estava inconsolável quando o juiz, que já estava até emocionado pela demonstração de apego tão grande a um animal, esforçando-se para conciliar as partes tentou convencê-lo de que se tratava de um animal irracional, sem juízo, uma cadela já velha que, apesar de não responder pelos seus atos, e também o de não merecer ser eliminada daquela maneira, de qualquer forma não se tratava de uma pessoa humana e que, ademais, estando comprovados os maus costumes alegados, a este aspecto juntava-se a suspeita de que a falecida poderia estar hidrófoba.
Ao escutar esta última palavra, que ele não entendeu o que significava, pediu ao meritíssimo a explicação sobre o real significado daquele termo, ao que o digno juiz lhe disse tratar-se de uma doença que normalmente acomete à raça canina, o que seria o mesmo que dizer que a cachorra estaria "danada".
A essa altura do andamento da audiência, o Manoelzinho se levantou nervoso, e dando um murro na mesa do fórum, ele, indignado, assim disse:
“- Minha Chulinha “danada”, meu nego”? ...
Ora bolas, ela tava danada mas era de boa, isso sim, de muito boa que ela era...”
E saiu do fórum chorando, às pressas e sem rumo, sem aceitar mais qualquer conversa, naquele sentido.
Porém, depois daquele dia mais nunca nem olhou pro Piconé e este, também, mais nunca pôde nem passar perto dele, pois estava jurado de levar uma boa sova, bem no meio da rua ou onde eles, por um acaso, tivessem de se encontrar.
O praça, com medo desse promessa de vingança, teve que se mudar de nome. Depois teve que se mudar de religião. E, como não bastasse, o biltre teve que se mudar da cidade: foi o jeito dele, "meu nêgo", ele teve mesmo de se escafeder, teve que ir embora, senão num sei o que seria daquele peste, não...
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